É bastante comum que textos de crítica de mídia reforcem a falta de variedade, tanto sob o ponto de vista quantitativo quanto qualitativo, de fontes de informação nos textos, bem como a ausência de dados capazes de contextualizar o fenômeno midiatizado. A divulgação do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023, na última quinta-feira (20), repercutiu na imprensa brasileira — e, potencialmente, seria um recurso capaz de ampliar, sob o viés qualitativo, o debate sobre o tema.
Veículos das mais diversas linhas editoriais deram ênfase ao assunto e alguns recortes homogeneizaram as notícias que se detiveram à cobertura. Entre eles, a redução global do número de mortes violentas intencionais e a ampliação dos casos de violência sexual, das vítimas de armas de fogo, violência e de estelionatos via internet. Além disso, apareceram recortes mais corriqueiros: listas de municípios, estados e regiões “menos” e “mais violentas” a partir das taxas de homicídios e outros ganchos mais locais. O documento, contudo, explora diversas outras facetas que, por um ou mais motivos, foram pouco ou nada exploradas jornalisticamente.
Para tentar entender parte deste cenário, foi realizada uma busca no Google (22/07/2023) com a palavra-chave Anuário Brasileiro de Segurança Pública (sem aspas) e, em seguida, houve a filtragem na aba notícias, restritas ao período dos últimos sete dias. Para este levantamento foram consideradas as cinco primeiras páginas de busca do Google. O número parece satisfatório, pois, de acordo com o estudo O cenário do SEO na América Latina, realizado pela agência Sherlock, de 2021, em 58% das buscas no Google, usado por 97% da população brasileira, os usuários não passam da terceira página do buscador. Além disso, foram excluídos ainda sites que, apesar da filtragem da categoria notícias, são ligados a instituições públicas, como a Casa Civil, a agências de notícias de governos (ainda que replicações de releases tenham sido consideradas), sindicatos, entre outros exemplos.
Ao todo, foram selecionados 37 resultados, que incluem notas (textos que, independentemente do tamanho, ficaram restritos aos dados do Anuário, sem desdobrar o tema com outras fontes), notícias (materiais que, além do estudo-base, tiveram acréscimos de fontes oficiais, especializadas — inclusive, dos próprios organizadores do estudo — e personagens, mas que se detiveram ao tema central), colunas (textos opinativos periódicos que visam interpretar os dados) e até uma produção voltada diretamente para a rede social TikTok.
A princípio, foi criada a categoria reportagens, que contemplaria iniciativas jornalísticas que buscavam desdobrar o tema em mais fontes e, além disso, que focassem em causas e consequências, na complexificação das situações e na elaboração de políticas públicas para além de medidas ostensivas. Como há intenção de acompanhar os resultados de busca pelo período de um mês da publicação do relatório, a categoria, que exige de fato maior tempo para a produção, está no radar de análise.
Cobertura jornalística (até aqui) do Anuário Brasileiro de Segurança Pública
Este texto trata de um primeiro recorte para entender como veículos jornalísticos bem listados no Google lidam com a extração de pautas a partir do relatório divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Há consciência de que algumas questões centrais para se produzir materiais mais elaborados, como aqueles que se voltem, por exemplo, ao trabalho de humanização desses dados, são difíceis de serem computados. Contudo, como o próprio tema tende a ser explorado e, à medida que o tempo avance, haja menos apelo de visibilidade (gancho jornalístico), a publicação do relatório passa a ser um momento chave para a incidência de bons trabalhos.
No levantamento inicial observa-se forte divisão entre produtos jornalísticos cujos títulos puxam para ganchos locais/regionais (20 menções) e nacionais (17 menções) — há um gancho internacional, justamente no material divulgado para a rede social TikTok, um vídeo que viralizou nas redes sociais sobre roubo de celular na Itália. Já em relação à abrangência dos fatos reportados, isto é, às regiões onde a notícia reporta informações que possam interessar ao público, a divisão também permanece: há certa sobreposição de temas que aguçam a curiosidade nacionalmente — isso pode, por um lado, revelar uma questão ligada aos algoritmos do Google, o que pode demonstrar uma dificuldade para que iniciativas locais consigam ganhar visibilidade nas páginas mais importantes do buscador.
Quando se olha para o que os sites têm reportado sobre o Anuário, outra questão bastante complexa é a falta de fontes complementares, que ajudem a ampliar a compreensão sobre o fenômeno. Um a cada quatro materiais publicados são notas que apenas replicam alguns dados do relatório — e que sequer disponibilizam o link do estudo original.
Se as notícias ocupam metade das menções disponibilizadas nas cinco primeiras páginas do buscador, por outro lado, a variedade de fontes que vão além do relatório produzido pelo FBSP é irrisória: das 20 notícias selecionadas, metade contém apenas uma fonte complementar. Com exceção de uma dessas notícias, todas estão restritas a forças ostensivas de segurança ou, em menor número, ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, pasta comandada por Flávio Dino (PSB). Especialistas não diretamente ligados ao campo da segurança pública só ganham espaço em textos com três fontes consultadas (ainda que a prevalência da voz das instituições policiais seja regra).
Mal listadas no ranking do Google, com apenas seis resultados, colunas, entrevistas e outros gêneros que fogem do binômio nota-notícia parecem preencher espaços que o gênero notícia não é capaz. Embora não seja regra no material lido, apenas nesses tipos de produtos informativos há espaço para olhar para o fenômeno da violência e, consequentemente, da segurança pública, por um viés interseccional, isto é, que avalie a situação e não a reduza à questão da violência em si. Ainda assim, como era de se esperar, a mera transposição de números não é suficiente para entender a complexidade do fenômeno — no único caso onde uma fonte personagem foi consultada, o relato se restringe aos pormenores da ação de violência sofrida. A ausência de ações transversais, ou seja, que superem o âmbito ostensivo de enfrentamento às formas de violência, também chama bastante a atenção nesta primeira sondagem.
Afinal, o que foi e o que não foi explorado jornalisticamente?
A versão recém-publicada mostrou que no ano passado, 47.508 brasileiros e brasileiras foram vítimas de mortes violentas intencionais, soma de vítimas de homicídios dolosos (quando há intenção de matar), latrocínio (roubo que resulta em morte), lesão corporal seguida de morte e intervenções policiais em serviço e fora. Embora a taxa tenha caído de 24 para 23,4 mortes violentas para cada grupo de 100 mil pessoas (uma queda de 2,4 pontos em relação ao ano anterior), a menor registrada desde 2011, o país, que detém menos de 3% da população mundial, concentra um a cada cinco homicídios cometidos no planeta.
Organizado pelo FBSP, o Anuário pode servir como um importante recurso estatístico para veículos de imprensa tratarem a violência para além das singularidades de fatos isolados. Na atual edição, reconhecem os organizadores, há algumas limitações devido ao próprio atraso dedoisanosna divulgação do Censo Demográfico, que deveria ter sido realizado em 2020. E esta é uma ausência bastante significativa quando se pensa em questões que poderiam ser exploradas jornalisticamente.
Para ficar em um exemplo, com uma população de 203 milhões de habitantes, 10 milhões a menos do que a estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as taxas de homicídios dos últimos anos, alerta o estudo, sofrerão mudanças que só poderão ser identificadas após uma revisão do IBGE para as populações estimadas nos últimos anos. Para o ano de 2021, contudo, o próprio FBSP realizou, por meio do método de interpolação linear, uma estimativa da população. Os dados, explicam os organizadores, devem ser recalculados no próximo anuário com base no trabalho de revisão do IBGE.
A letalidade das forças policiais, responsáveis por uma a cada cinco mortes violentas no Brasil, um indicativo de que há um estado paralelo que permite a aplicação da pena de morte, é outra ausência bastante sentida no levantamento. A questão das pessoas desaparecidas — e que poderiam, inclusive, aumentar a responsabilidade do estado no número total de mortes — também é um fato pouco trabalhado (apenas uma notícia se deteve a isso).
Questões ligadas a racismo e a violência contra a população LGBTQI+, entre outros crimes de ódio, também tiveram repercussão mínima. Outras, mais ligadas à falta de efetividade do estado, como o esclarecimento de homicídios e à segurança privada foram completamente invisibilizadas jornalisticamente, assim como gastos com segurança pública (apenas um material, reproduzido de agência de governo, que enaltece o investimento de um estado da região centro-oeste). Quando se olha para os sistemas prisional e socioeducativo, o cenário fica ainda pior. Nenhum resquício.
Contudo, mais que a ausência de alguns recortes está o enfrentamento às pautas por um viés mais humano. A ausência de gente comum nos relatos faz com que o jornalismo perca uma de suas principais potencialidades: o diálogo.
A notícia da passagem de Jair vinda de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, a princípio, não comoveu a ponto de fazer alguém assumir publicamente a queda de uma lágrima pelo patriarca da família André. O vértice de sensibilidade partiu do primogênito, José Carlos, de 58 anos, que, resignado, comprometeu-se a acender uma vela para que a alma daquele ex-motorista profissional pudesse encontrar uma via menos tortuosa no itinerário desconhecido. A barreira geográfica de quase mil quilômetros entre a capital onde o mineiro de São Sebastião do Paraíso passou a maior parte da vida e Curitiba, no Paraná, era, ao fim e ao cabo, a menor distância entre o finado e a parte da família que precisou migrar de cidade em cidade ao longo da década de 1970, em alguns momentos em situação de penúria, até se fixar na capital paranaense no início dos anos 1980.
Aquele 30 de maio — uma terça-feira cinza cuja tarde, de acordo com o Simepar, o órgão que produz informações meteorológicas no Paraná, registrou 16 graus, a menor temperatura naquela faixa horária do dia até a publicação deste texto — parecia o cenário propício para a frivolidade que o recado da morte daquele estranho homem de 81 anos, vítima de infarto, significava à parentela de pés vermelhos, pele calejada e olhos acimentados.
Conversas no grupo de mensagens instantâneas da família afugentavam a ideia de luto; alguns não teceram comentário ou sequer um emoji. Quem se pronunciou, relembrou as três raras vezes que Jair foi visto desde meados dos anos 1970, época em que rompeu laços com esta parte da família. Depois, as trocas de mensagem versaram sobre um cuidado até certo ponto exagerado em compartilhar o aviso com Emília, de 76 anos, mãe-solo dos quatro filhos oriundos da relação; sem qualquer reviravolta na narrativa, ela reagiria ao comunicado com indiferença, certo deboche, e finalizou com seu bordão mais famoso: “Ficaram com medo de me contar porque acharam que eu ainda gosto dele. Faça ideia”.
Por fim, houve ainda tempo para alguns impropérios. Eles não serão registrados neste preâmbulo, pois poderiam ofender o direito à honra, à privacidade e ou à imagem da personalidade post mortem, garantias estas previstas no Código Civil (art. 12). Por mais erros que Jair tenha cometido, este texto não é uma vingança, e sim uma tentativa de conhecê-lo e humanizá-lo, sem romantizá-lo. Há de transparecer, portanto, a existência dos comentários hostis apenas para que o leitor ou a leitora entenda as fissuras na relação, desde que não se revelem detalhes fatídicos que pouco ou nada interessam.
O início da história que realmente importa
Jair André e Emília Balduíno se conheceram no início dos anos 1960 no interior do Paraná, especificamente, em Jacutinga, um distrito do município de Ivaiporã, criado em 1961 e cuja maior característica é a existência de uma terra tão vermelha quanto ferida em início de cicatrização. Casaram-se em 26 de dezembro de 1962 e tiveram três meninos: José Carlos, Luiz Carlos e Maurício, nascidos entre 1964 e 1969. A caçula, Cleuzeli, a Nena, viria ao mundo três anos mais tarde, quando a família já morava em Cornélio Procópio, também no interior paranaense. Nesse meio tempo, Jair e, pouco depois, Emília e a prole passaram cerca de um ano em Curitiba.
As mudanças constantes não foram uma característica singular da família. O relatório Relações entre as alterações históricas na dinâmica demográfica brasileira e os impactos decorrentes do processo de envelhecimento da população, produzido, em 2016, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que o país viveu uma das mais intensas transições demográficas do planeta ao longo do século XX. O contexto de modernização, acentuado na década de 1960, provocou a naturalização de uma série de violações de direitos humanos, ligadas ao acesso à moradia, à educação, ao trabalho infantil, à saúde e à segurança pública, para citar alguns exemplos que impactaram em maior ou menor grau a biografia dos protagonistas desta história. Se, a título de ilustração, para cada habitante que vivia em regiões urbanizadas no início dos anos 1930 existiam quatro que ocupavam áreas rurais, em meio século essa proporção foi invertida. Entende-se o quanto este movimento foi denso quando ele é confrontado com outras realidades: para ter uma transformação demográfica similar, aponta o mesmo estudo, a França demorou pouco mais de duzentos anos.
A vinda de Jair para Curitiba, em 1969, carregava contornos um pouco distintos da maioria das pessoas que viveram naquela conjuntura. Decerto até tenha passado pela cabeça daquele homem, que começou a trabalhar como motorista de ônibus na cidade à época com quase 870 mil habitantes e em plena expansão, que a capital traria oportunidades, mas, segundo os relatos coletados para este texto, o que mais influenciou na vinda foi a existência de uma amante, a Sebastiana, curiosamente, xará da mãe de Jair. “Ele me deixou com as crianças e fugiu com essa Tiana. Ela era muito bonita. Passou um tempo e eu vim atrás. Eu morria de amor por ele. Faça ideia”, lembra Emília com gracejo, “E eu vim porque ele prometeu largar dela”.
Da ascensão à fuga
O fator infidelidade, aliás, teria influenciado no retorno no ano seguinte ao interior do estado, onde a família viveria por quatro anos com alguma prosperidade, e em todo o desfecho da história. “Quando a gente foi para Cornélio Procópio, o pai trabalhou primeiro como motorista de ônibus. Depois comprou um caminhão e virou ‘gato’, que era como o pessoal chamava os responsáveis por selecionar e transportar o pessoal para lidar nas lavouras de soja”, relembra José Carlos, que se recorda com certo orgulho de ajudar, por volta dos oito ou nove anos, na organização dos pagamentos aos trabalhadores rurais. “Nessa época eu era a mulher do ‘gato’”, completa Emília, antes de confidenciar: “Tomava conta do dinheiro. Algumas vezes peguei dinheiro escondida e guardei porque ele não me dava nada”.
Ao que tudo indica, o caixa paralelo foi residual na contabilidade. O período foi tão promissor que Jair pôde comprar um segundo caminhão e contratar um ajudante para conduzir o novo veículo. Ele acumulava dinheiro e mulheres. “Tinha a Maria Perna Torta, que a gente chamava assim porque mancava, e tinha a Maria Grilo, que a gente chamava assim porque era bem magrinha”, lista a ex-esposa.
A vida seguia nesse ritmo até que uma guinada ocorreu: num domingo, na volta de um torneio de futebol, o condutor auxiliar, que estaria bêbado, atropelou gravemente uma mulher. Os custos da internação ficaram para o proprietário do veículo. “Quando ele viu que o negócio ia ficar muito pesado, vendeu os caminhões, deixou a mãe, eu e as outras crianças morando lá e fugiu para Campo Grande”, conta o filho mais velho ao explicar que, na época, era “comum que quem fizesse bobagem fugisse para” o ainda “estado de Mato Grosso” — Mato Grosso do Sul só seria criado em 1977.
De acordo com Emília, a vítima do atropelamento fez diversas cirurgias e teve que amputar as pernas. Mesmo assim, não teria sobrevivido em decorrência de complicações — ou talvez pela falta de atendimento hospitalar adequado por conta da inadimplência de Jair? Nunca se saberá. O que se sabe é que o Sistema Único de Saúde só seria criado em 1988 pela Constituição Cidadã e que, antes disso, saúde não era uma obrigação do Estado.
Maria Perna Torta o acompanhou na fuga, enquanto os filhos e a então esposa, que às pressas começou a fazer faxinas, permaneceram no Paraná. A matriarca afirma que nem sempre recebia o combinado pela atividade informal. “A gente chegou a ficar sem alimento. Não tinha comida dentro das latas”, relembra.
“Nos fundos da casa tinha uma horta de verdura e o Zé Carlos começou a montar umas cestas, daí saía e vendia na rua. Ele me perguntava: ‘O que tá faltando hoje, mãe?’ Aí um dia ele pegava o dinheiro e comprava um açúcar; no outro dia perguntava de novo, aí trazia café ou arroz…”.
Emília Balduíno
“Eu vendia tanto as verduras que tinham no quintal de casa, que eram poucas, quanto as produzidas por uma outra pessoa que tinha uma horta comercial”, reforça José Carlos ou Zé Carlos, ou, mais raramente, Zecote, variações usadas por Emília para se referir ao filho mais velho. Luiz Carlos, o Major, segundo filho do casal, três anos mais novo e à época com 6 anos, ajudava.
O apelido que o acompanha desde a primeira infância foi dado devido à admiração que a criança demonstrava pelo responsável pela segurança do distrito de Jacutinga. Naquelas brincadeiras repetitivas que os adultos fazem com os pequenos, as pessoas perguntavam o que o Luiz Carlos gostaria de ser quando adulto. “Quero ser majó, majó…”, respondia. Pedreiro de mão cheia, há vários anos Major intercala fases em que foca no ofício profissional com momentos de desilusão — ou seria uma fuga? — em que é capaz de permutar da camisa no corpo a algo de alguém alheio.
O resgate
Passado um tempo que nenhuma memória conseguiu precisar, Jair voltou na calada da noite para buscar a família. “Ele me avisou um tempo antes: ‘Dá um jeito de vender a casa’. Aí me disse o valor que era pra vender. Eu peguei uma parcela e quando fui pegar a outra, o comprador disse que não ia pagar porque sabia que a gente estava fugindo, e fez chantagem que ia denunciar. Aí não recebi o dinheiro”, conta Emília.
Todos migraram para Campo Grande. Apesar de ter ido, lá ela resolveu se separar. Conheceu um novo homem, Fernando, com quem foi morar em Ribas do Rio Pardo, distante 100 quilômetros de Campo Grande. O novo casal, que ficou junto por poucos meses, foi lidar em uma área de plantio de eucalipto, setor do agronegócio que, segundo informações do site Potencial Florestal, desenvolveu-se em grande escala justamente a partir da década de 1960, período em que recebeu alguns incentivos fiscais. Segundo dados publicados em 2020 pelo IBGE, atualmente, Mato Grosso do Sul é o principal exportador de celulose do país e reúne os quatro primeiros municípios com maior área plantada de eucalipto do país: Ribas do Rio Pardo é o segundo na lista, atrás apenas de Três Lagoas.
Ranking dos municípios com maiores áreas de florestas plantadas
Os filhos acompanharam a mãe, com exceção do mais velho, que permaneceu com o pai, mas agora em Bandeirantes, município distante 58 quilômetros da capital sul-mato-grossense, onde Jair trabalharia nos dois anos seguintes como taxista. “Foi por causa da escola. A mãe não tinha ideia do que ia encontrar na cidade nova. Então, por segurança, eu fui transferido de Campo Grande para terminar o ano escolar”, lembra ao citar que há algo bom que guarda do pai: “Ele sempre me incentivou a estudar”. Não à toa, ele foi a primeira pessoa a concluir um curso superior na família. Formou-se em Administração pela Universidade Federal do Paraná, em 1998.
“Lá, com uns 13 anos eu dirigia um opala e uma rural”, relembra orgulhoso. Enquanto isso, Emília, em Ribas do Rio Pardo, engravidou outra vez — Jair chegaria a afirmar, incrédulo, que teria sido vítima de uma traição, algo repudiado pela ex-esposa. Ela, que não chegou a frequentar um ano na escola, conseguiu juntar certo dinheiro e comprou, às cegas, uma casa em Ouro Verde do Piquiri, na região sudoeste do Paraná.
“Quando acabou o ano escolar, a mãe passou para me buscar em Bandeirantes e voltamos para o interior do Paraná. Só que a casa era um barraco precário e, para piorar, já existia um proprietário”, conta José Carlos. “Era uma casa de madeira só com uma peça”, complementa Emília. Ao ver uma mulher com quatro filhos, grávida do quinto, e enganada, o posseiro permitiu, mediante pagamento, que a família ficasse no casebre. “Tive que pagar duas vezes por essa casa”, lembra. Mesmo gestante, ela e os dois filhos mais velhos foram por um tempo boias-frias. Em 1978, uma menina chorou pela primeira vez no cômodo único da casinhola, mas foi entregue ainda com três dias a uma família da região com condições de cuidá-la:
“Ou eu ficava com o bebê ou trabalhava para comprar comida para os outros. Eu não tive escolha”.
Emília Balduíno
Quem também não teve opção para conviver com o pai biológico e frequentar a escola foram Maurício e Nena, os caçulas, que neste período da história tinham, respectivamente, 9 e 6 anos. Ele cresceu e se tornou, como Major, pedreiro. Dependente químico, o filho preferido — mas nunca admitido pela matriarca — foi assassinado no final de 2005 por dívidas com traficantes. Já Nena enfrentou graves problemas emocionais ao longo da vida. Chegou a ser internada por três vezes na transição entre adolescência e início da vida adulta em manicômios. Como a Lei da Reforma Psiquiátrica (nº 10.216/01), que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental, só foi sancionada em 2001, ela enfrentou alguns tratamentos desumanos. Após muitos anos sem cuidado adequado para esquizofrenia, hoje toma medicação controlada.
Outras fugas
Ainda em Ouro Verde do Piquiri, Emília alugou uma peça e montou um bar para aumentar a renda. “Só que vinham uns caras que bebiam e não pagavam. Tinha que fazer comida de graça, faça ideia, ficavam ameaçando, quebravam as lâmpadas”, relembra. Foi por isso que ela e os filhos migraram outra vez para o distrito de Jacutinga, local onde esta história havia começado mais de uma década e meia antes. Lá, trabalhou nas lavouras de café e milho e conheceu Joaquim. “Aquilo era um diabo”, lembra séria, “Ele dizia: ‘Agora você é minha mulher. Se eu quiser fazer sexo com você aqui na cozinha, na frente das crianças, eu faço’. Aquilo me deixou com tanta raiva que eu disse que ele nunca mais ia me tocar”, recorda.
Ameaçada de morte depois de fazer, propositalmente, uma canjica com muito açúcar depois de uma briga, ela não tinha dinheiro para fugir: “Ele correu atrás de mim com uma faca até que eu entrei na casa de um dos meus irmãos, que era vizinho nosso. Depois de um tempo, um dos meninos encheu, escondido, um saco de café lá na casa do Joaquim, a gente vendeu para comprar passagem e veio para Curitiba”.
José Carlos, outra vez, ficou com uma das irmãs de Emília que até hoje mora em Jacutinga, Rufina, para terminar o ano escolar.
Noção de família como patrimônio
Em que pese certo rancor que representou à Emília e aos quatro filhos que carregam seu sobrenome, a forma como Jair construiu a própria biografia é fruto de um contexto. Ele não foi, sobremaneira, uma exceção quando o assunto é abandono por parte da figura paterna. Pelo contrário, a história dos André é um sulco dos arranjos familiares no Brasil. É preciso reconhecer que a noção de família surgiu e se consolidou a partir de uma demarcação entre biologia e cultura. Decorrente do processo de sedentarização e da necessidade do estabelecimento de regras mínimas que garantissem laços dentro de um grupo e na relação com outras comunidades, a construção cultural da família centrou-se na ideia de matrimônio.
Segundo a tese de Karina de Mendonça Vasconcellos — publicada em 2013 pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações da Universidade de Brasília (UnB) —, a própria etimologia da palavra “família” dá indícios ao conjunto de valores nela implicados. O termo deriva do latim familia, cujo significado remete ao “conjunto de propriedades de alguém. Como familia vem de famulus, que significa escravo doméstico, estas propriedades incluem os escravos e as pessoas ligadas a uma grande personalidade” (p. 31-32).
Assim, desde sua concepção, o entendimento do termo carrega e aceita a desigualdade de poder entre seus integrantes, com foco na centralidade da figura patriarcal. A leniência de Emília e as exorbitâncias de Jair portam traços dessa perspectiva, entendida como normal no período. No papel virtual de patriarca, visitou Curitiba em meados dos anos 1980 com o intuito de levar novamente a ex-esposa para Mato Grosso do Sul. “Ele ficou sabendo que eu tinha conseguido comprar uma casa em Curitiba e veio aqui achando que ia negociar a casa para ter uma parte. Por isso queria voltar comigo”, aposta a ex-esposa ao mesmo tempo em que exemplifica como a noção de posse por parte da figura masculina é vista como natural, intepretação que acompanhou Jair até seus últimos dias.
Por coincidência do destino, os dois conversaram por videochamada cerca de um mês antes do falecimento: “Ele disse que estava sendo maltratado pelas mulheres lá em Campo Grande e perguntou se eu ainda queria voltar com ele. Aí ainda ficou bravo com a resposta”.
No papel, família André; na vida real, família Balduíno
No Brasil, em particular, de acordo com Eni de Mesquita Samara, no artigoO que mudou na família brasileira?: da colônia à atualidade, publicado em 2002 pela revista Psicologia USP, há uma ideia deturpada da composição familiar hegemônica no país desde o período colonial, quando as famílias mais comuns não eram as patriarcais, e sim “aquelas com estruturas mais simples e menor número de integrantes” (p. 28).
Emília, por volta de 2010, na última vez que Jair veio a Curitiba. (Foto: Arquivo pessoal)
O estudo, que avalia os censos populacionais brasileiros ao longo de um século e meio, indica uma representativa existência de famílias chefiadas por mulheres ainda no século XIX. Em complemento, a pesquisa de Karina de Mendonça Vasconcellos, desenvolvida a partir de números extraídos de levantamentos do IBGE realizados entre 1992 e 2009, demonstra outras transformações nos padrões familiares, com a redução das formas tradicionais e o consequente aumento de famílias unipessoais, “assim como o número de casais sem filhos, de famílias monoparentais femininas e de famílias chefiadas por mulheres” (p. 18).
Conforme o boletimAs dificuldades das mulheres chefes de família no mercado de trabalho, publicado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a maioria dos domicílios no Brasil é chefiada por mulheres, especialmente as negras. Os dados revelam que dos 75 milhões de lares do país, elas lideram 38,1 milhões de famílias (50,8%).
Vive-se luto quando houve rompimento há muito tempo?
A pessoa que teimou em ler até aqui e continua atenta vai perceber que pouco se fez questão de saber da vida de Jair desde o início da década de 1980. Simbolicamente, ele esteve morto durante todos estes anos. Foi visto em apenas três ocasiões: nas duas vezes em que esteve em Curitiba, respectivamente, em meados dos anos 1980 e, talvez, por volta de 2010, intercalada por uma visita a Campo Grande, em 2001 (algumas imagens do acervo pessoal da família abaixo). Na última vez que esteve em Curitiba, veio apenas porque precisava convencer a ex-esposa a autorizar a venda de uma casa em Campo Grande, algo que ela fez sem receber qualquer compensação financeira por um bem que ela teria direito — foi apenas a terceira vez que Emília fez mal negócio envolvendo imóvel.
Segundo a psicóloga Rosevani Chiapetti, que atua na Fundação Estatal de Atenção à Saúde (Feas) com pessoas em situação de luto, distância e tempo não são fatores determinantes para que uma pessoa deixe de viver o processo. “Como agora a perda é real”, explica ela, a família “vai ter que repassar sentimentos que talvez estivessem esquecidos, adormecidos”. A profissional argumenta que em relações mais convencionais, nas quais há compartilhamento de afetividade, a falta da pessoa se transforma em saudade, porque o espaço de ausência é substituído progressivamente pela presença de memórias: “Em casos nos quais não há muita experiência compartilhada, talvez seja necessário repassar as partes negativas mesmo. Reviver esse vínculo, por mais negativo que seja, vai assentando a ideia de que a pessoa falecida não está mais aqui”.
Jair deixa — se é que já não havia deixado — algumas ex-esposas, 13 filhos e, 26 netos. Entre eles, o Marquinhos, de 35 anos, filho de Maurício, que, sem lembrar o nome do avô biológico paterno, questionou quando soube da notícia: “Que Jair que morreu? O Bolsonaro?”. A negativa veio acompanhada de uma conclusão rasa e em tom jocoso deste autor: “Talvez a explicação de tantos erros seja mesmo o nome”.
Hendryo André é jornalista, professor universitário e primeiro neto de Emília e Jair.
Desde 1° de março, quando o Fantástico exibiu uma reportagem especial sobre a situação de transgêneros no sistema penitenciário, o médico Drauzio Varella é assunto recorrente nas redes sociais. Primeiro, foi elogiado pelo gesto empático ao abraçar uma transexual presa em 2010 e que não recebia visitas havia oito anos; depois, virou alvo de ataques porque teria omitido o crime que proporcionou a condenação.
A exibição da reportagem levanta dilemas éticos relevantes quando se pensa no jornalismo que lida com o tema segurança pública: é obrigatório tipificar e detalhar os crimes quando se entrevistam detentos? O que romantiza mais: a não tipificação do crime ou o detalhamento pormenorizado das ações do criminoso? Trata-se de um recorte aceitável ou de uma manipulação? Antes de buscar contribuir para o debate – por uma perspectiva das produções de sentidos do público -, é preciso contextualizar o caso.
A história de Suzy
Em um país polarizado, Drauzio Varella – que já havia sido muito elogiado nas redes sociais após participação no programa Roda Viva, em 10 de fevereiro – praticamente virou unanimidade durante a primeira semana de março por ser um exemplo de altruísmo. Isso ocorreu porque o médico se sensibilizou durante a gravação de uma entrevista e abraçou Susy de Oliveira Santos, de 30 anos, condenada em 2010, que cumpre pena na Penitenciária José Parada Neto, em Guarulhos (SP), quando soube que ela não recebia visitas de familiares e amigos havia oito anos. O abandono foi interpretado como uma consequência de Susy ser transgênero, condição de outras 700 pessoas reclusas só no estado de São Paulo, conforme dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos apresentados pela reportagem do Fantástico.
O gesto solidário do médico de 76 anos, que há trinta trabalha voluntariamente em prisões, chegou a gerar mobilizações que, por mais que possam ser consideradas pontuais, demonstram potencialidades do telejornalismo no que concerne ao poder de estreitar laços sociais. Uma reportagem do portal G1, em 7 de março, destacou que cinco dias após a exibição do material a presidiária já havia recebido 234 cartas, dezesseis livros e duas Bíblias, além de outros presentes. A mobilização, claro, não foi política e está longe de resolver o problema das pessoas transgênero nos presídios brasileiros, mas sensibiliza a sociedade a minimamente refletir sobre o tema. Diagnóstico dos procedimentos institucionais e experiências de encarceramento encomendado pela pasta da polêmica ministra Damares Alves diz que, das 508 unidades prisionais que participaram do estudo, somente 106 têm celas específicas para a população LGBT – e esse tipo de realidade, ainda que tenha sido apresentada parcialmente pela reportagem do Fantástico, já que a falta de celas específicas gera uma série de violações contra essas pessoas, só pode se alterar a partir da sensibilização da sociedade civil.
Contudo, na tarde do dia seguinte, o caso sofreu uma reviravolta após o site O Antagonista publicar uma matéria que revelou os motivos pelos quais Suzy foi condenada,. A consequência da publicação pôs parcialmente em xeque a “imunidade” de Drauzio na internet, com a hashtag #drauziovarellalixo subindo nos trending topics do microblog Twitter. Segundo O Antagonista, a transexual foi condenada por homicídio qualificado e estupro de vulnerável de um menino de 9 anos. O texto descreve alguns dos detalhes: “Ele deixou o corpo da criança apodrecer em sua sala por 48 horas. O pai foi avisado pelo próprio assassino que o corpo putrefato fora deixado à sua porta”.
Drauzio e, principalmente, a produção do Fantástico, foram acusados de manipulação e de protagonizarem a vitimização de uma criminosa impiedosa. Na esteira de ataques, o presidente Bolsonaro se manifestou via Twitter na segunda-feira, 9 de março: “Enquanto a Globo tratava um criminoso como vítima, omitia os crimes por ele praticados: estupro e assassinato de uma criança. Graças à internet livre, o povo não é mais refém de manipulações. Infelizmente, a Constituição não permite prisão perpétua para crimes tão cruéis”.
Na noite anterior à manifestação presidencial, o Fantástico já havia divulgado uma nota na qual destacava que o objetivo da reportagem foi abordar as condições em que vivem transgêneros no sistema penitenciário brasileiro. Os apresentadores também leram uma nota de Drauzio em que ele dizia que sua área é a medicina, e não a judicial: “Por razões éticas, não busco saber o que de errado fizeram. Sigo essa atitude para cumprir o juramento que fiz ao me tornar médico e para não cair na tentação de traí-lo atendendo apenas aqueles que cometeram crimes leves”. Depois, o médico ainda publicou um vídeo em que explicava o recorte da reportagem e pediu desculpas à família do menino por envolvê-la indiretamente na história.
A obrigatoriedade de tipificação de crimes
As mudanças de percepções produzidas pela reportagem do Fantástico nessas duas semanas demonstraram de forma sistematizada algo identificado na pesquisa de doutorado deste autor, e que já foi tema de um texto no Observatório da Imprensa (edição 1076). No estudo de recepção com dezoito telespectadores assíduos dos dois principais noticiários criminais exibidos em Curitiba (Tribuna da Massa e Balanço Geral), precedido por um monitoramento de oitenta edições desses programas, observou-se o quanto os telespectadores demonstram maior ou menor empatia a partir do conhecimento da tipificação dos crimes e, principalmente, das descrições das ações cometidas por agressores e vítimas, estratégia narrativa presente nesses telejornais.
Durante o monitoramento, houve a preocupação de dividir as 950 inserções noticiosas pela natureza e tipificação das transgressões. A representação da violência nesses noticiários é qualificada, essencialmente, em crimes contra a pessoa (39,6%) e contra o patrimônio (34,1%). Distantes, violações relacionadas ao tráfico ilícito de drogas (6,1%) e contra a dignidade sexual (5,2%) ocupam, respectivamente, a terceira e quarta posições nos crimes mais exibidos pelos programas.
Se a morte é um valor-notícia eminente para os veículos, os crimes de natureza contra a dignidade sexual carregam uma especificidade: as vítimas costumam pertencer a faixas etárias vulneráveis, especialmente infância e adolescência, com idades entre 3 e 13 anos, muitas vezes sofrendo longos períodos de abuso sexual. Esse tipo de crime está, assim como todos os que envolvem pessoas com laços familiares ou afetivos, entre aqueles que mais produzem sentidos nos telespectadores dos noticiários.
Na etapa de recepção foi identificada a dificuldade que os telespectadores têm de memorizar os fatos objetivos das notícias, ainda que a estratégia narrativa dos programas seja a de descrever os pormenores dos crimes, com ênfase para as ações dos criminosos e as quase sempre inúteis reações das vítimas. Por outro lado, isso não impede que os respondentes produzam sentidos a partir dos crimes midiatizados. Nesse aspecto, vários participantes citaram situações genéricas quando questionados sobre a lembrança de crimes mostrados pelos noticiários. Episódios que envolvam a instituição família (ou suas derivações, como em crimes cujas vítimas são crianças) foram citados diretamente por dois terços dos entrevistados.
Essas percepções afetam as visões de mundo dos participantes da pesquisa. Um exemplo extraído da pesquisa dentro dos limites deste texto: quais reações tomariam caso se deparassem, em um local público, com uma pessoa apanhando que estivesse sendo acusada de ter furtado ou roubado uma bicicleta. Eles foram questionados se aprovavam ou desaprovavam a ação dos populares e quais atitudes tomariam. Na sequência, a mesma circunstância foi posta, mas dessa vez a pessoa que sofre as agressões foi apontada pelos populares como autora de um estupro de vulnerável.
A indiferença pelo desfecho do linchamento, desde que não se trate de um membro familiar ou próximo, foi marca encontrada nas respostas para o furto da bicicleta, ainda que vários entrevistados tenham buscado atenuar o hipotético crime. Porém, quando a acusação muda, as noções de civilidade se perdem. Um dos entrevistados, que acionaria a polícia apenas no primeiro cenário, afirmou que não sentiria nenhum tipo de culpa se o referido espancamento resultasse em morte em nenhuma das duas situações. Outra não aprova a ideia de que alguém seja agredido por roubar uma bicicleta, fato que a faria acionar a polícia, mas uma interferência só ocorreria se a vítima do linchamento fosse alguém próximo. “Se não fosse um parente meu, eu não iria pôr em risco a minha vida se eles estão batendo, estão quase matando.” A opinião muda drasticamente se o suposto crime envolvesse um estupro de vulnerável: “É uma coisa muito forte, estupro, pedofilia… uma pedrinha eu jogaria ali. Só se tivesse certeza [da culpa] eu participaria”, diz uma das entrevistadas.
Nessa questão, os entrevistados se dividem entre aqueles que não mudariam de atitude independentemente do crime e entre aqueles que teriam as reações pautadas, sobretudo, pela tipificação do ato criminal ou pela certeza de culpa ou inocência da pessoa em linchamento. No primeiro caso, uma das interlocutoras, pensionista cadeirante, afirma que, se pudesse se movimentar sem restrições, ajudaria nas agressões se tivesse provas. “Primeiro tinha que ter provas. Depois das provas, daí você até ajuda a matar […]. Acho que, se atacasse a minha família, né, daí eu mataria. Por causa de uma família minha, eu mataria.” Há, por outro lado, quem discorde de qualquer forma de justiça pelas próprias mãos. Um dos respondentes diz que violência não combate violência, enquanto outro diz que a polícia é a melhor saída, independentemente do ato criminal. “Porque daí você passa de vítima para agressor.”
Os demais afirmaram que perderiam a civilidade apenas na situação do estupro de vulnerável. Um deles diz afirma ser impossível não mudar de opinião e de atitude de acordo com os crimes, especialmente pelo aspecto familiar. “Você imagina o que faria pela sua família. Agora imagina, às vezes, a família daquela criança não tá ali ou, mesmo que esteja, a dor que está passando, então nessa hora o cara pode perder a paciência.” Outros dois são mais enfáticos: o primeiro, um policial militar aposentado, frisa que “taradão não tem perdão”, enquanto a segunda, desempregada, diz que há muitas mulheres “à toa aí”, algo compartilhado por outra entrevistada, e que sugere que a violência contra as mulheres seja, até certo ponto, aceitável se posta lado a lado a contra uma criança.
Pensando em como o público negocia, reinterpreta e reelabora sentidos, outro participante, um agente de escolta armada, assevera que seria o primeiro a atacar o suspeito de crime sexual na situação hipotética. Com base em princípios religiosos, outra participante, uma zeladora e comerciante, relaciona o caráter puro das crianças à reação agressiva: “Deus fala que ninguém chega até ele se não tiver um coração de uma criança, um coração ingênuo, um coração puro”. Ela confessa que, se soubesse que a pessoa tinha cometido algo contra uma criança, mataria essa “pessoa de boa”, ainda que tal atitude não garantisse a ela o “coração ingênuo” necessário para se aproximar dos céus. Outro participante deixa implícito que o fato de ser apenas um roubo de uma bicicleta faria com que tivesse menos animosidade com o suspeito. “Não é um caso de vida ou morte. Foi um roubo de uma bicicleta. E a gente não tem certeza se a bicicleta foi mesmo roubada – ou se era dele ou se não era”. Já outra respondente, aposentada, diz não saber avaliar se a violência resolve e relaciona o fato de ser favorável às agressões com o teor de impunidade inerente à Justiça e valorizado pelos telejornais: “Tem que apanhar mesmo. Não sei, né, se apanhar resolve. […] Só que a polícia vai prender o estuprador, no outro dia a Justiça solta”. Como a questão da justiça pelas próprias mãos é vista por alguns deles como uma forma de reação até certo ponto legítima, haja vista que a Justiça é considerada morosa e, conforme os relatos, condescendente com a impunidade, os respondentes foram unânimes em concordar com uma ideia defendida pelos âncoras dos noticiários: a de que os presidiários têm cada vez mais direitos e menos deveres.
Quando se pensam nos crimes, o Fantástico tomou uma atitude exatamente oposta à presente nos noticiários criminais estudados, que sobrevalorizam os pormenores dos crimes e acabam por romantizar a violência. O programa produziu uma reportagem sobre segurança pública, e não sobre jornalismo criminal. Buscou humanizar, não estigmatizar. A escolha de Suzy como uma das fontes realmente foi uma infelicidade se for levado em consideração o histórico teor ostensivo com que crimes hediondos são julgados pela sociedade brasileira, além da percepção sobre como esse tipo de crime abala a instituição família; o recorte que omitiu os crimes das pessoas entrevistadas (um deles, aliás, foi identificado como roubo, mas sem detalhar a ação), por outro lado, demonstrou, pelo menos por um tempo, potencialidades de um jornalismo que pode promover diálogo. Sob o ponto de vista jornalístico, parece cada vez mais necessário pensar em protocolos para pautas ligadas à segurança pública, algo que já acontece há longo tempo, por exemplo, quando se pensam em formas de midiatizar suicídios.
Infelizmente, o foco no crime de Suzy fez com que se ofuscasse a história de outra fonte da reportagem. O depoimento de Lolla, de 35 anos, que cumpria os últimos dias da condenação por roubo, traz, simultaneamente, alento e preocupação. A esperança por um recomeço contrasta com a sensação de falta de liberdade para assumir sua identidade de gênero fora do presídio e pela falta de oportunidade no mercado formal de trabalho. Isso exige que Lolla se vista de palhaço nos semáforos para vender água mineral. Como parte do processo de reintegração social dela e da dignidade dessa fatia da população, políticas de crescimento do mercado formal de empregos mereceriam também, no mínimo, um tuíte do presidente.
Em 17 de fevereiro de 2020, uma mulher desmaiou ao ser informada ao vivo, no programa Cidade Alerta (Rede Record), sobre o homicídio da própria filha. Segundo uma reportagem da Folha de S.Paulo, o programa acompanhava já há alguns dias o caso do desaparecimento de uma moça de 21 anos, grávida. O advogado do ex-namorado da vítima, responsável pela revelação da morte no programa, alegou que seu cliente havia confessado o crime de feminicídio e, inclusive, já teria levado a polícia ao lugar onde havia enterrado o corpo. Surpresa trágica para a mãe, nenhuma para os produtores que, antes da revelação, alegam ter dado à entrevistada a escolha de saber ou não ao vivo o que havia ocorrido com a filha. A consequência da óbvia resposta de uma mãe que não sabia do paradeiro da filha já havia nove dias resultou no desfecho da história.
O assunto gerou reações de indignação nas redes sociais, dirigidas principalmente ao apresentador, Luiz Bacci, acusado de levar o sensacionalismo a níveis extremos. Longe de eximi-lo de sua parcela de responsabilidade, a decisão do Cidade Alerta não deveria ser personificada, mesmo que o gênero criminal tenha se consolidado no Brasil justamente a partir da forte presença da figura do âncora. É preciso sempre reiterar que televisão é uma atividade produzida em equipe e que a responsabilidade é solidária entre diversos profissionais que permitiram a exibição da fatídica cena, e também com a direção da empresa. Por isso, houve quem voltasse o descontentamento nas redes sociais à emissora, uma concessão pública cuja finalidade deve ser “educativa e cultural, mesmo em seus aspectos informativo e recreativo”¹. Em consonância com essa segunda abordagem, parece inacreditável que a emissora não tenha emitido sequer uma nota sobre o episódio ocorrido e, especialmente, sobre as diretrizes que deveria tomar para que episódios similares jamais tornassem a ocorrer em um dos principais produtos informativos do grupo Record.
Quem teve que justificar o injustificável nas redes sociais foi o próprio apresentador. Via Instagram, reforçou o desejo da mãe em saber, em tempo real, o que havia acontecido com a filha, bem como alegou ter aprendido com a história, embora não tenha especificado exatamente o que tirou de lição. Um trecho, todavia, chamou a atenção: “as histórias não são conduzidas pela gente, mas por Deus”. Sob a rubrica de que a TV mostra aquilo que o público quer – e agora também o que Deus deseja -, violações éticas se naturalizam dia após dia em coberturas criminais e costumam ser problematizadas, essencialmente, em situações-limite como a exposta no primeiro parágrafo. É preciso reconhecer, por um lado, o esforço de setores sociais, das universidades à sociedade civil organizada, passando pelo campo dos produtores culturais, no estabelecimento de críticas à falta de qualidade na televisão e admitir, por outro lado, que o árduo trabalho, ainda que legítimo e essencial, produza poucos efeitos práticos quando se pensa em melhorias na programação. Este texto carrega essas duas perspectivas como essência: auxiliar na denúncia do episódio e aceitar que tal argumentação nada ou muito pouco sensibilizará os produtores.
Uma questão de família
A primeira onda de ataque das elites intelectuais à falta de qualidade na televisão data ainda dos anos 1960, período em que nasce também uma forma de preconceito contra as classes populares: o vínculo entre popularização da televisão e a queda no nível da programação. Segundo esse estigma, as classes populares seriam aficionadas por sangue e por tragédias alheias. Essa percepção cresceu reiteradamente desde a fase de transição para a redemocratização do país. A criação do SBT, em 1981, que retomou atrações da década de 1960 que foram praticamente banidas da televisão nos anos 1970, e a implantação do Plano Real, em 1993, responsável pelo aumento do poder de compra dos brasileiros e, consequentemente, do maior acesso a aparelhos televisores pelos mais pobres, são dois momentos-chave que reforçam o argumento.
Esse tipo de alegação é defendido por produtores e mesmo por estudiosos de televisão, ainda que haja uma incipiência no país de pesquisas que voltem as atenções de fato para o público². O incômodo com essa situação fez com que o autor do presente texto produzisse uma pesquisa de doutorado no Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com telespectadores de dois noticiários criminais paranaenses (Balanço Geral e Tribuna da Massa).
Na segunda e última parte do estudo, foram selecionados dezoito telespectadores assíduos dos dois principais noticiários criminais veiculados no Paraná. Essas pessoas deveriam, necessariamente, habitar uma das três regiões com mais crimes exibidos durante a primeira fase da pesquisa, um monitoramento de três meses dos programas (de outubro a dezembro de 2017). Buscou-se problematizar, na etapa de recepção, como essas pessoas produziam sentidos às narrativas criminais na vida cotidiana. Em outras palavras, por que, em síntese, davam credibilidade a programas que exibiam tragédias diariamente.
As dificuldades que o público tem para memorizar os pormenores dos fatos, algo já identificado em muitas outras pesquisas voltadas ao fenômeno da recepção de conteúdos informativos, foi ratificada. Assim, apesar de assistirem no dia a dia aos programas, essas pessoas não costumam se recordar da maioria dos fatos veiculados. A incapacidade de memorizar a notícia em si, algo que supera questões de classe social, todavia, não impediu que os respondentes produzissem sentidos a partir dos crimes midiatizados. Nesse aspecto, vários participantes citaram situações genéricas quando questionados sobre a lembrança de crimes mostrados pelos telejornais. Episódios que envolvam a instituição família (ou suas derivações, como em crimes cujas vítimas são crianças) foram citados diretamente por dois terços dos entrevistados – houve ainda menções indiretas, como feminicídios, homicídio qualificado que, na maior parte dos casos, envolve vítimas pertencentes ao núcleo de convivência do agressor. A concepção de família, embora não seja a única, articula-se como a principal instituição a ser valorizada no eixo narrativo dos noticiários.
O vínculo com a noção de família é tão estreito nesses programas que, na pesquisa, foi identificada a presença de um tipo de fonte não usual em outras abordagens jornalísticas. São indivíduos que mesmo sem presenciar o evento criminal ou poder contribuir objetivamente para a resolução do crime foram entrevistados. São parentes ou, no mínimo, pessoas muito próximas à família, que destacam características positivas e negativas na personalidade e no convívio social de, respectivamente, vítimas e agressores. Esse tipo de fonte aparece essencialmente nos noticiários enfatizando a “destruição da família” (não qualquer família, e sim aquela representada em comerciais de margarina), algo que ajuda a ratificar o argumento de que há produtos noticiosos que corroboram o princípio de que haja uma crise de valores na família. As consequências não são animadoras e, inclusive, ajudam a entender a aceitação de discursos entusiastas sobre a liberação da posse e do porte de armas de fogo, excludente de ilicitude, entre outras iniciativas contemporâneas relativas à segurança pública.
A percepção iminente de risco à família faz com que essas narrativas produzam sentidos relevantes para parte dos entrevistados. As citações sobre família foram marcantes nas quase vinte horas de depoimentos, independentemente da recordação de eventos de violência. Alguns exemplos: “É o pai que mata o filho, é a filha que mata a mãe, é o neto que mata a avó pra pegar dinheiro”, disse um dos entrevistados. “As pessoas entrarem nas casas para matar um, dois, três… Filho matar o pai, onde é que se viu?”, completou outro. “Pai de família morre, direitos humanos não vão lá na casa dele não, mas se um policial matar um sem-vergonha em ponta da esquina, tão lá os ‘direitos dos manos’ em cima”, avaliou um terceiro entrevistado, que usa uma expressão corriqueiramente citada pelo apresentador do Tribuna da Massa, o programa preferido na hora do almoço pelo participante.
Mesmo os temas que, a princípio, não estariam vinculados à concepção de família, aproximaram-se dela conforme as entrevistas avançavam. Tragédias no trânsito despertam a atenção de uma das entrevistadas, que teve o filho e o ex-marido mortos em acidentes: “Como tenho problemas de acidente na família, não gosto muito de ver acidente, mas assisto”. Situações de violência contra motoristas do aplicativo de transporte Uber são citadas como as que mais comovem outra participante do estudo. Ainda que seja uma força de expressão, já que durante o monitoramento não tenha havido nenhuma notícia envolvendo motoristas do serviço como vítima, a noção dela de que crimes contra esses condutores são diários tem mais relação com o próprio dia a dia do que com a exibição. No fundo, ela assiste ao noticiário essencialmente devido à percepção de risco que o marido enfrenta durante o trabalho. Um último exemplo: a mais nova entrevistada na pesquisa, à época com 17 anos, afirma que passou a acompanhar um dos noticiários inspirada na família de uma amiga do Ensino Médio que visitava com regularidade. Ela, que garantiu pertencer a uma família desestruturada por conta do vício em álcool do pai, percebia a família da amiga unida em torno do sofá e passou a adotar o hábito. O ato em nada tinha a ver com gostar de sangue, e sim com uma idealização de família.
Os programas criminais dialogam com a família
Surge também, na década de 1960, uma mudança de concepção no modo de se pensar televisão, que passou a ser considerada como uma esfera de relacionamento em detrimento ao caráter formativo hegemônico na programação dos anos 1950, período em que parte da elite intelectual do país criava expectativas positivas em relação ao então novo meio de comunicação. Essa descoberta foi essencial para que a televisão conseguisse desenvolver estratégias para engajar audiência. A transformação foi causada pela compreensão de como a tecnologia deveria se conciliar à vida cotidiana do público. De um produto experimental, responsável pelo acesso à cultura erudita, a televisão passou a se vincular à vida da maior parte da população.
Entendida como um meio para ser consumido coletivamente, a televisão criou uma lógica na qual a programação passou a ser pensada, como explica Alexandre Bergamo, “a partir da sua gradativa adaptação à ‘rotina familiar’ e, principalmente, a partir de uma divisão de ‘horários’ que buscasse uma melhor articulação entre o trabalho e o lazer”. Vista até então como uma atividade de lazer noturna, a televisão passou a se adaptar à vida cotidiana do público, algo que, até certo ponto, inverte-se nas décadas seguintes após a consolidação do meio como integrante da rotina dos brasileiros de várias classes sociais.
Ainda que os noticiários criminais sejam alvo de constantes e merecidas críticas, é inegável o poder que esse gênero tem de criar processos de identificação, sobretudo a partir da lógica familiar. A disseminação de preconceitos e a violação de direitos humanos proliferadas por noticiários criminais, conforme aponta uma pesquisa organizada pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), foram incapazes de afetar o êxito editorial desses programas.
Da filha de classe média alta que, com a ajuda do namorado e do irmão dele, assassina os pais aos genitores que defenestram a filha de um prédio, a noção de destruição da lógica familiar cria engajamento, logo, audiência. Por falta de identificação e por preconceitos enraizados na sociedade, crimes em regiões periféricas envolvendo negros, homossexuais e outros grupos marginalizados costumam ser ofuscados nas coberturas. Ganham notoriedade tão somente quando carregam em si algo a mais, como a deixa para transmitir ao vivo o anúncio do falecimento de uma filha à mãe.
O contato diário com os programas criminais contribui de forma estruturante para visões de mundo nada progressistas dos entrevistados. As noções de justiça pelas próprias mãos, de apologia à violência policial e de incentivo a regimes de humilhação à população carcerária são hegemônicas dentro do grupo de entrevistados. Argumentos estruturados pelos discursos ligados à concepção de família.
Um dos expoentes dos Estudos Culturais britânicos, Stuart Hall escreveu uma frase instigante: “O cão, no filme, pode latir, mas não consegue morder!”. Se o cão for representado por quem, com toda boa intenção, critica a televisão, infelizmente a frase é verdadeira. Caso sejam os produtores de noticiários criminais abordando a famigerada “tragédia da família brasileira” e ditando pensamentos retrógrados, a frase ganha contornos de ficção.
¹ Decreto nº 52.795, de 31 de outubro de 1963. Acesso em: 23 fev. 2020. ² Os esforços do Núcleo de Pesquisa Recepção e Cultura Midiática, coordenado pela professora Nilda Jacks na UFRGS, demonstram o baixo número de pesquisas de pós-graduação de recepção midiática no país. As investigações voltadas à recepção de produtos jornalísticos, praticamente inexistentes nos anos 1990, com duas dissertações, atingiram a marca de 54 trabalhos no período entre 2000 e 2009. Entre 2010 e 2015, o número já havia atingido 46 pesquisas (43 de mestrado e três de doutorado).