Autor: Jorge K. Ijuim

  • Boaventura de Sousa Santos em retrato preto e branco

    Boaventura de Sousa Santos em retrato preto e branco

    Conheci Boaventura de Sousa Santos pessoalmente em dezembro de 2012. Fui apresentado a seus escritos mais de dez anos antes, durante o doutorado na Escola de Comunicações e Artes da USP. Com a oportunidade de cumprir estágio pós-doutoral em Coimbra, decidi examinar sua obra para verificar como suas ideias poderiam me ajudar a compreender o Jornalismo. Mais que isso, queria observar suas falas, seus olhares, seus gestos, sentir um pouco mais seu mod’ser. Aquele ano letivo europeu (2012-2013) foi fascinante, não só no aprendizado acadêmico, mas também para entender o que é ser brasileiro (embora em Portugal me confundiam com chino).

    Já nos congressos que participei em Portugal e Espanha, as contribuições do autor começaram a emergir, a colaborar para a elaboração de minhas argumentações na crítica aos modelos jornalísticos que me dispus a construir. No retorno ao Brasil, seus livros passaram a ocupar lugar de destaque em minha biblioteca e referência relevante em trabalhos para congressos e artigos de revistas científicas. Passei a ofertar disciplinas na pós-graduação que propunham refletir sobre seu pensamento para a compreensão do Jornalismo. Publicamos uma coletânea de ensaios com base em suas ideias. Tais reflexões propiciaram a criação do Grupo de Estudos Jornalismo e Direitos Humanos (DHJor).

    Soco no estômago – Primeiro o UOL, depois outros órgãos de imprensa. A notícia sobre o escândalo em Coimbra trouxe choque, indignação, frustração. O artigo que deu origem às denúncias de assédio sexual e extrativismo intelectual é avassalador, perturbador.

    The walls spoke when no one else would

    Publicado numa revista britânica, a riqueza de detalhes sobre o drama vivido por muitas mulheres – que deveriam ser acolhidas e orientadas para o melhor estudo – fere os olhos e a alma do leitor minimamente sensível. Uma agressão à inteligência de quem optou por estudar seus textos, como foi meu caso. Noites mal dormidas. Um soco no estômago!

    E daí, a casa caiu? Natalia Timerman escreveu um artigo bem interessante para o Universo UOL.

    O que fazer com livros e textos escritos por intelectuais assediadores?

    Do começo ao fim, a colunista faz questionamentos, provoca, incita. Finaliza de maneira genial:

    – Como mudar?

    – A mudança é individual, coletiva ou ambas?

    – O cancelamento favorece a mudança ou opera segundo a mesma lógica do que cancela?

    – Que bom seria ter todas essas respostas.

    Eu também não tenho respostas a todas as questões que me fiz desde aquele fatídico 11 de abril. O que eu sei é que não posso me envergonhar de ter acreditado na hipótese de o pensamento de Boaventura colaborar para a melhor compreensão do Jornalismo. Não posso me envergonhar de ter levado minhas reflexões a artigos, disciplinas que ministrei, livro que publicamos, alunos que orientei. Mas tenho consciência de que não sou seu cúmplice. Seus livros não estão mais no primeiro plano de minha biblioteca. Foram para a quinta estante. Vou recorrer a eles? Ainda não sei se vou e, se sim, como.

    Cancelamento total e imediato? Talvez não! Tento acreditar que as investigações na Universidade de Coimbra aconteçam com apurações sérias e transparentes.

    Fazendo um retrospecto, penso: o que vou fazer da noção de razão indolente? do pensamento abissal? da sociologia das ausências e das emergências? Boaventura me abriu portas, caminhos para conhecer pensadores dos estudos decoloniais, para encontrar Frantz Fanon, Anibal Quijano, Maldonado-Torres. Inspirou meu diálogo com Edward Said, Silvio Almeida, Lélia Gonzalez, Abdias Nascimento.

    Tenho esposa e uma filha de 25 anos. Não admito assédio sexual a elas como não admito a qualquer pessoa. Também considero reprovável qualquer forma de apropriação intelectual – no meu entender uma atitude tão grave quanto o assédio. Eu continuo “do outro lado da linha abissal”.

    O esforço, lá em 2012, para olhar nos olhos de Boaventura não me permitiram imaginar tal situação. O fato é que a sua imagem, antes em quatro cores, agora está esmaecida… e não passa de um retrato em preto e branco – em alto contraste.

    Como gosta de escrever Ricardo Kotscho, vida que segue… com serenidade, senso crítico e vigilância.

    Publicado originalmente no blog Ijuim Shinbum.

  • Meu encontro com Rubem Alves e a força para “transbordar”

    Meu encontro com Rubem Alves e a força para “transbordar”

    “20 de outubro de 2001, 7h45, Campo Grande, Auditório do Colégio Dom Bosco. Aguardava com grande expectativa a palestra do psicanalista, escritor e educador Rubem Alves. Como faltavam ainda alguns minutos, quis fumar um último cigarrinho antes da palestra; encontrei uma ampla sacada ajardinada, que dava para o pátio do colégio. Saboreando meu vício maldito, ali me ocorreu uma das raras vantagens de ser fumante: olhei para o lado e lá estava o próprio convidado, observando o ambiente, sozinho, com exclusividade para mim”.

    Este relato originalmente compôs o último texto da minha tese de doutorado (1), que defendi em 2002. Retomo aqui com um excerto daquele escrito porque considero um momento oportuno e necessário para revisitar a “força de vida” de Rubem Alves e um de seus grandes inspiradores: Nietzsche.

    “Havia tempo que eu tinha uma grande curiosidade sobre um detalhe em sua obra: a referência intensa e carinhosa a Nietzsche (2). Estava com a questão no bolso do colete para apresentá-la após a palestra, no debate. Mas estávamos ali, lado a lado, e eu não queria perder essa oportunidade singular. Apaguei o cigarro, aproximei-me, cumprimentamo-nos e comecei ‘quebrando o gelo’ com algumas de suas paixões – falamos sobre jardinagem e culinária. No momento oportuno, coloquei a questão.

    Com o entusiasmo e a ênfase que lhe são peculiares, Rubem Alves argumentou que sente em Nietzsche uma força de vida extraordinária. Explicou que, quando Nietzsche descobre sua doença e sente estar caminhando para a morte, esta vontade de viver fica ainda mais evidente em seus escritos. Alertou sobre as traduções em que o Übermensch leva o significado de ‘super-homem’ ou ‘além-do-homem’ quando, segundo o seu entendimento, a tradução mais correta seria ‘homem transbordante’, que age não a partir daquilo que a sociedade cristalizou como moral, mas a partir da sua própria riqueza e exuberância. O ‘homem transbordante’ faz de sua vida uma permanente luta, inconformado, em oposição à moral do escravo e a do rebanho.

    Fascinado com sua argumentação, fui ainda mais eufórico para o auditório, convencido de que, mais uma vez, nessa oportunidade, Rubem Alves não plantou uma semente, mas plantou esperança“.

    É inegável a força de vida inspirada por esses pensadores: Alves e Nietzsche.

    Em 2018, abrimos uma página sombria de nossa história. Decorrência de vários episódios estranhos desde atos de 2013, passando pelos desastres promovidos pela Lava-jato, a criminalização da política e o processo de impeachment de Dilma, a onda de extrema-direita levou ao poder o excrementíssimo presidente atual. A partir de 1º de janeiro de 2019, a vida brasileira tornou-se um pesadelo constante: cortes de recursos em todas as áreas essenciais, falência das políticas públicas em defesa dos segmentos fragilizados, ataques à imprensa e aos jornalistas, agressão às instituições republicanas. Ao acessar o noticiário, a população (aquela que não fica restrita às redes sociais) acostumou-se a termos como fake news, negacionismo científico, revisionismo histórico, atos antidemocráticos, familícia, Micheque, gabinete do ódio, centrão, desmatamento e queimadas ilegais, invasão de mineradores a terras indígenas, offshore, volta da inflação, desvalorização do real…

    Com o anúncio da pandemia do novo corona vírus agravou-se o quadro – que temos pavor de relembrar e repetir aqui. Mas é preciso: movimento antivacinas, antimáscaras, atraso na aquisição de vacinas, mais de 600 mil mortes – centenas de milhares evitáveis. CPI da Covid, que transformou-se em luz de esperanças ao expor mazelas e revelar a latrina de corrupção instalada no Planalto Central. Que Brasil é esse, nos lembra Cazuza.

    Pensadores progressistas e alguns comunicadores de “pés no chão” nos ajudam a compreender este momento obscuro. Como já escreveu Mário Magalhães (3), 2018 está longe de terminar.

    Esta é a luta de nossas vidas. Por isso, renovo minhas esperanças e energias buscando inspiração em Rubem Alves e Nietzsche. Teremos que ser transbordantes, ter a força de vida para virar essa página de nossa história.

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    (1) Tese defendida na Escola de Comunicações e Artes da USP, depois publicada em livro pela Edufms/Edusc (2005) e pela Labcom Livros (2013).

    (2) Friedrich Wilhelm Nietzsche (Röcken, Reino da Prússia, 15/10/1844 – Weimar, Império Alemão, 25/08/1900) foi um filósofo, filólogo, crítico cultural, poeta e compositor. Escreveu vários textos criticando a religião, a moral, a cultura contemporânea, filosofia e ciência, exibindo uma predileção por metáfora, ironia e aforismo.

    (3) MAGALHÃES, Mário. Sobre lutas e lágrimas: uma biografia de 2018. Rio de Janeiro: Record, 2019.

    Publicado originalmente em Ijuim Shinbum, em 27/11/2021

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