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  • Entidades assinam carta pela democracia em encerramento do Intercom

    Entidades assinam carta pela democracia em encerramento do Intercom

    Durante o encerramento do 46° Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom), que contou com a participação de integrantes do DHJor, na última sexta-feira (8), o recém-empossado presidente da Intercom, Juliano Mendonça Domingues da Silva, informou sobre a instituição do Dia Nacional de Luta pela Democracia, que será celebrado em 31 de outubro.

    A iniciativa das entidades que compõem a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) demarca, anualmente, manifestações por todo o país em alusão a esta luta. Por isso, representantes da Intercom, Compós e Socicom redigiram o documento A Comunicação na Luta pela Democracia Brasileira – Carta de Belo Horizonte (confira a íntegra no final do texto), que foi lido ao final do congresso deste ano.

    Escolha da data

    Em 31 de outubro de 1975, o arcebispo emérito de São Paulo, cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, realizou um culto ecumênico em memória a Vladimir Herzog. O jornalista havia sido torturado e assassinado uma semana antes em instalações do DOI-CODI, no quartel-general do II Exército, na cidade de São Paulo. Segundo o Instituto Vladmir Herzog, a manifestação na Praça da Sé, região central da cidade de São Paulo, reuniu 8 mil pessoas e se transformou no maior ato público de repúdio à ditadura militar, desde 1964.

    Carta de Belo Horizonte

    No documento, destaca-se o fato de o Brasil estar vivendo, sobretudo ao longo da última década, “uma radicalização baseada no ódio, que nos distancia uns dos outros de tal modo que já não se consegue nem mesmo ouvir, que dirá dispor-se a compreender”. Para lutar contra esse movimento, as entidades científicas criaram o Dia Nacional de Luta pela Democracia.

    Os signatários sugerem que o texto seja divulgado pela comunidade científica. A versão integral do documento pode ser lida abaixo.

    A Comunicação na Luta pela Democracia BrasileiraCarta de Belo Horizonte

    Esta carta se soma às iniciativas nacionais coordenadas pela SBPC, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, na chamada para a luta pela ciência e pela democracia.

    Todos nós, entidades que subscrevem esta Carta, fazemos parte de uma grande área de conhecimento denominada amplamente como Ciências da Comunicação. Comunicar é, essencialmente, partilhar mensagens. É falar, mas é, sobretudo ouvir. É reconhecer as diferenças, mas apostar naquelas coincidências que nos fortalecem.

    A matéria-prima da Comunicação é a informação, algo sui generis: tanto mais compartilhada, maior e mais forte ela fica, a refletir relações de poder. Por isso, grupos e governos de viés autoritário e ditatoriais a temem e, para controlá-la, institucionalizam, formal e informalmente, diferentes sistemas de vigilância, como no caso da censura. 

    A Comunicação é muito relevante para a Democracia, porque é essência da mesma o respeito às diferenças, a valorização do diálogo e a busca de entendimento com base em pontos de acordo mínimo. O resultado desse processo, do ponto de vista ideal, pressupõe fluxos comunicacionais, pois passa por decisão coletiva e preocupações, cujos interesses partem e se direcionam à sociedade para enfrentar suas fragilidades. Inserem-se nesse contexto a incontornável necessidade da II Conferência Nacional de Comunicação, convocada pelo Governo Federal, e do aprofundamento do debate sobre a regulação democrática das comunicações diante das externalidades evidenciadas.

    O Brasil tem vivido, sobretudo ao longo da última década, um desafio até então impensável: uma radicalização baseada no ódio, que nos distancia uns dos outros de tal modo que já não se consegue nem mesmo ouvir, que dirá dispor-se a compreender. Isso compromete e coloca em risco o tecido social como um todo. Da mesma forma, impacta o social em guetos diversos, bem como gera incomunicação.


    Todos nós, que subscrevemos esta Carta, publicamente conclamamos a Comunicação em nosso meio. Não uma comunicação qualquer, mas uma comunicação social, aquela que permite uma sociedade melhor, conforme aprendemos com diferentes perspectivas teóricas. Seria incongruente se nós mesmos não acreditássemos nas potencialidades do processo comunicativo.

    E é por esse motivo, por entendermos que precisamos nos expressar junto à sociedade brasileira, dizer de nosso sentimento e de nosso compromisso com a Comunicação numa perspectiva democrática e socialmente referenciada, que subscrevemos esta Carta. Calar-nos seria conivência ou omissão. E não podemos ser omissos nem, muito menos, coniventes.

    O Brasil e os brasileiros precisamos da Comunicação efetivamente Social, nos seus mais variados aspectos e âmbitos, para garantir um país independente e soberano, com uma Democracia sólida e perene, sem que se permita nem tolere, nunca mais, retrocesso  na vida democrática.


       
    Belo Horizonte, 07 de setembro de 2023
    Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação
    Compós – Associação Nacional dos Programas de Pós-graduação em Comunicação
    Socicom – Federação Brasileira de Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação

  • Grupo DHJor participa de congresso da Intercom

    Grupo DHJor participa de congresso da Intercom

    Integrantes do grupo de estudos e extensão DHJor – Jornalismo e Direitos Humanos participam do 46° Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom). Ao todo, serão cinco apresentações, três coordenações de mesas e o lançamento de dois e-books.

    Neste ano, o congresso da Intercom traz uma novidade. Além do encontro presencial, que ocorre entre os dias 5 e 8 de setembro, em Belo Horizonte, na Puc-Minas, pesquisadores e pesquisadoras agora também podem apresentar trabalhos em uma etapa remota, que neste ano acontece de 29 a 31 de agosto.

    Na etapa remota, o trabalho de autoria dos doutorandos do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGJor/UFSC) Marisvaldo Silva Lima e Lynara Ojeda de Souza, apresentado nesta terça-feira (29), investiga a cobertura jornalística realizada pela agência especializada em notícias Alma Preta Jornalismo sobre o desaparecimento de três meninos de Belford Roxo, em dezembro de 2020. Entre os resultados, o trabalho aponta que a cobertura jornalística da agência “aborda questões raciais e sociais, construindo visibilidade e estimulando reflexões críticas sobre racismo estrutural e desigualdades. Isso ressalta o papel importante do jornalismo na discussão e combate ao racismo”.

    Já a egressa Magali Moser, em conjunto com a pesquisadora Melina de la Barrera Ayres, apresenta um artigo que busca relata as experiências oriundas da disciplina de Jornalismo Comunitário, ofertada do curso de Jornalismo da UFSC. Como principal resultado, o trabalho, intitulado Comunicação Comunitária, práticas cidadãs e formação de jornalistas em Florianópolis, “evidencia que os aprendizados alcançados podem contribuir para a implementação de projetos e iniciativas semelhantes em outros contextos”.

    Etapa presencial

    Na etapa presencial serão três trabalhos (confira a programação abaixo). O pesquisador e coordenador do DHJor, Jorge Kanehide Ijuim, apresenta com as mestrandas Karla Gabriela Quint, Leticia Ferreira Bueno e Patrícia Hadlich Aquino o artigo Jornalismo e Direitos Humanos: Reflexões sobre/para a formação profissional. Ao partir do princípio de que há proximidades entre as percepções de jornalismo, cidadania e direitos humanos, o grupo busca observar se preceitos de dignidade humana, garantidos por documentos como a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Constituição Federal de 1988, se refletem no comportamento de profissionais e da imprensa. “Em nossas pesquisas”, observam, “os resultados parciais suscitam preocupação por conta de coberturas rasas, equivocadas, senão por vezes distorcidas”.

    Criselli Maria Montipó e Hendryo André apresentam com o professor da UFPR e pós-doutorando pelo PPGJor José Carlos Fernandes, o artigo A extensão que se faz história de vida: impressões sobre um programa chamado Ncep. A partir de um questionário aplicado a 35 ex-participantes do projeto de extensão da Universidade Federal do Paraná (UFPR) que acaba de completar 20 anos de existência, o trio observa que, apesar de algumas questões conceituais acerca das definições e escopo da extensão, há marcas relevantes da atividade de extensão na trajetória pessoal e profissional.

    Por fim, Hendryo André apresenta, no texto Mapeamento de estudos sobre desinformação publicados em revistas indexadas pelo Portal de Periódicos da Capes (2005-2022), os resultados com uma análise de 54 artigos publicados sobre o tema desinformação.

    Publicom

    O pesquisador, atualmente bolsista de pós-doutorado (PNPD/Capes) do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), participou da organização de dois e-books relacionados ao tema central do congresso do ano passado, realizado em João Pessoa (PB). O primeiro Ciências da Comunicação contra a desinformação (2023, Editora Intercom, download disponível), organizado em conjunto com Nair Prata (Ufop) e Silvio Simão de Matos (Univille), reúne textos oriundos do Ciclo de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. “O interessante é que no livro há pontos de vista convergentes, complementares e antagônicos sobre o fenômeno da desinformação observados por importantes pesquisadores e pesquisadoras que se debruçam sobre o tema”, explica Hendryo.

    Já o segundo e-book, Ciências da Comunicação contra a desinformação: olhares de jovens pesquisadores (2023, Editora Intercom, download disponível), organizado em conjunto com Nair Prata (Ufop), Silvio Simão de Matos (Univille) e Flávio Santana (Uespi) reúne as principais pesquisas apresentadas em 2022 por graduandos que participaram dos oito grupos que formam o Intercom Júnior, jornada voltada exclusivamente a estudantes de graduação.

    Programação – etapa remota

    A cobertura jornalística do desaparecimento dos meninos de Belford Roxo: violência, vulnerabilidade e a construção de visibilidade midiática
    Marisvaldo Silva Lima e Lynara Ojeda de Souza
    GP Teorias do Jornalismo | Sessão 01 – 29/08, das 11h às 13h

    Comunicação Comunitária, práticas cidadãs e formação de jornalistas em Florianópolis
    Magali Moser; Melina de la Barrera Ayres
    GP Comunicação para a Cidadania | Sessão 03 – 29/08, das 14h às 18h

    Programação – etapa presencial

    Jornalismo e Direitos Humanos: Reflexões sobre/para a formação profissional
    Jorge Kanehide Ijuim, Karla Gabriela Quint, Leticia Ferreira Bueno e Patrícia Hadlich Aquino
    GP Teorias do Jornalismo  | Sessão 06 – 07/09, das 16h às 17h30

    A extensão que se faz história de vida: impressões sobre um programa chamado Ncep
    Criselli Maria Montipó, José Carlos Fernandes e Hendryo André
    GP Comunicação e Educação  | Sessão 07 – 07/09, das 14h às 15h45

    Mapeamento de estudos sobre desinformação publicados em revistas indexadas pelo Portal de Periódicos da Capes (2005-2022)
    Hendryo André
    GP Teorias do Jornalismo  | Sessão 03 – 07/09, das 8h30 às 10h30

    DHJor

    É um projeto de extensão com o propósito de refletir e compreender as relações entre jornalismo e direitos humanos. Constituído por estudantes, egressos e docentes do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo (PPGJor) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o DHJor trata de fenômenos sociais complexos que são caros ao jornalismo em um contexto de desigualdades acentuadas e em que a cidadania e os direitos humanos estão em disputa.

  • Fabiana Moraes publica artigo em coautoria com pesquisador do DHJor em revista internacional

    Fabiana Moraes publica artigo em coautoria com pesquisador do DHJor em revista internacional

    A jornalista e professora da UFPE Fabiana Moraes e o professor da UFSC e doutor em Ciências da Comunicação (USP) Jorge Ijuim, integrante do DHJor, publicaram artigo na Revista Latinoamericana de Ciencias de la Comunicación em que problematizam o conceito de humanidade dominante no jornalismo. Conforme os autores, o humano é sempre o homem, branco e dono do maior capital. Para superar modos de dizer que desumanizam, os pesquisadores destacam a necessidade de decolonizar o jornalista, a partir de um rompimento ou no mínimo um questionamento da herança eurocêntrica. Para ler a publicação, clique aqui.

  • Anuário sobre segurança pública recebe cobertura monotemática

    Anuário sobre segurança pública recebe cobertura monotemática

    É bastante comum que textos de crítica de mídia reforcem a falta de variedade, tanto sob o ponto de vista quantitativo quanto qualitativo, de fontes de informação nos textos, bem como a ausência de dados capazes de contextualizar o fenômeno midiatizado. A divulgação do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023, na última quinta-feira (20), repercutiu na imprensa brasileira — e, potencialmente, seria um recurso capaz de ampliar, sob o viés qualitativo, o debate sobre o tema.

    Veículos das mais diversas linhas editoriais deram ênfase ao assunto e alguns recortes homogeneizaram as notícias que se detiveram à cobertura. Entre eles, a redução global do número de mortes violentas intencionais e a ampliação dos casos de violência sexual, das vítimas de armas de fogo, violência e de estelionatos via internet. Além disso, apareceram recortes mais corriqueiros: listas de municípios, estados e regiões “menos” e “mais violentas” a partir das taxas de homicídios e outros ganchos mais locais. O documento, contudo, explora diversas outras facetas que, por um ou mais motivos, foram pouco ou nada exploradas jornalisticamente.

    Para tentar entender parte deste cenário, foi realizada uma busca no Google (22/07/2023) com a palavra-chave Anuário Brasileiro de Segurança Pública (sem aspas) e, em seguida, houve a filtragem na aba notícias, restritas ao período dos últimos sete dias. Para este levantamento foram consideradas as cinco primeiras páginas de busca do Google. O número parece satisfatório, pois, de acordo com o estudo O cenário do SEO na América Latina, realizado pela agência Sherlock, de 2021, em 58% das buscas no Google, usado por 97% da população brasileira, os usuários não passam da terceira página do buscador. Além disso, foram excluídos ainda sites que, apesar da filtragem da categoria notícias, são ligados a instituições públicas, como a Casa Civil, a agências de notícias de governos (ainda que replicações de releases tenham sido consideradas), sindicatos, entre outros exemplos.

    Ao todo, foram selecionados 37 resultados, que incluem notas (textos que, independentemente do tamanho, ficaram restritos aos dados do Anuário, sem desdobrar o tema com outras fontes), notícias (materiais que, além do estudo-base, tiveram acréscimos de fontes oficiais, especializadas — inclusive, dos próprios organizadores do estudo — e personagens, mas que se detiveram ao tema central), colunas (textos opinativos periódicos que visam interpretar os dados) e até uma produção voltada diretamente para a rede social TikTok.

    A princípio, foi criada a categoria reportagens, que contemplaria iniciativas jornalísticas que buscavam desdobrar o tema em mais fontes e, além disso, que focassem em causas e consequências, na complexificação das situações e na elaboração de políticas públicas para além de medidas ostensivas. Como há intenção de acompanhar os resultados de busca pelo período de um mês da publicação do relatório, a categoria, que exige de fato maior tempo para a produção, está no radar de análise.

    Cobertura jornalística (até aqui) do Anuário Brasileiro de Segurança Pública

    Este texto trata de um primeiro recorte para entender como veículos jornalísticos bem listados no Google lidam com a extração de pautas a partir do relatório divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Há consciência de que algumas questões centrais para se produzir materiais mais elaborados, como aqueles que se voltem, por exemplo, ao trabalho de humanização desses dados, são difíceis de serem computados. Contudo, como o próprio tema tende a ser explorado e, à medida que o tempo avance, haja menos apelo de visibilidade (gancho jornalístico), a publicação do relatório passa a ser um momento chave para a incidência de bons trabalhos.

    No levantamento inicial observa-se forte divisão entre produtos jornalísticos cujos títulos puxam para ganchos locais/regionais (20 menções) e nacionais (17 menções) — há um gancho internacional, justamente no material divulgado para a rede social TikTok, um vídeo que viralizou nas redes sociais sobre roubo de celular na Itália. Já em relação à abrangência dos fatos reportados, isto é, às regiões onde a notícia reporta informações que possam interessar ao público, a divisão também permanece: há certa sobreposição de temas que aguçam a curiosidade nacionalmente — isso pode, por um lado, revelar uma questão ligada aos algoritmos do Google, o que pode demonstrar uma dificuldade para que iniciativas locais consigam ganhar visibilidade nas páginas mais importantes do buscador.

    Quando se olha para o que os sites têm reportado sobre o Anuário, outra questão bastante complexa é a falta de fontes complementares, que ajudem a ampliar a compreensão sobre o fenômeno. Um a cada quatro materiais publicados são notas que apenas replicam alguns dados do relatório — e que sequer disponibilizam o link do estudo original.

    Se as notícias ocupam metade das menções disponibilizadas nas cinco primeiras páginas do buscador, por outro lado, a variedade de fontes que vão além do relatório produzido pelo FBSP é irrisória: das 20 notícias selecionadas, metade contém apenas uma fonte complementar. Com exceção de uma dessas notícias, todas estão restritas a forças ostensivas de segurança ou, em menor número, ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, pasta comandada por Flávio Dino (PSB). Especialistas não diretamente ligados ao campo da segurança pública só ganham espaço em textos com três fontes consultadas (ainda que a prevalência da voz das instituições policiais seja regra).

    Mal listadas no ranking do Google, com apenas seis resultados, colunas, entrevistas e outros gêneros que fogem do binômio nota-notícia parecem preencher espaços que o gênero notícia não é capaz. Embora não seja regra no material lido, apenas nesses tipos de produtos informativos há espaço para olhar para o fenômeno da violência e, consequentemente, da segurança pública, por um viés interseccional, isto é, que avalie a situação e não a reduza à questão da violência em si. Ainda assim, como era de se esperar, a mera transposição de números não é suficiente para entender a complexidade do fenômeno — no único caso onde uma fonte personagem foi consultada, o relato se restringe aos pormenores da ação de violência sofrida. A ausência de ações transversais, ou seja, que superem o âmbito ostensivo de enfrentamento às formas de violência, também chama bastante a atenção nesta primeira sondagem.

    Afinal, o que foi e o que não foi explorado jornalisticamente?

    A versão recém-publicada mostrou que no ano passado, 47.508 brasileiros e brasileiras foram vítimas de mortes violentas intencionais, soma de vítimas de homicídios dolosos (quando há intenção de matar), latrocínio (roubo que resulta em morte), lesão corporal seguida de morte e intervenções policiais em serviço e fora. Embora a taxa tenha caído de 24 para 23,4 mortes violentas para cada grupo de 100 mil pessoas (uma queda de 2,4 pontos em relação ao ano anterior), a menor registrada desde 2011, o país, que detém menos de 3% da população mundial, concentra um a cada cinco homicídios cometidos no planeta.

    Organizado pelo FBSP, o Anuário pode servir como um importante recurso estatístico para veículos de imprensa tratarem a violência para além das singularidades de fatos isolados. Na atual edição, reconhecem os organizadores, há algumas limitações devido ao próprio atraso de dois anos na divulgação do Censo Demográfico, que deveria ter sido realizado em 2020. E esta é uma ausência bastante significativa quando se pensa em questões que poderiam ser exploradas jornalisticamente.

    Para ficar em um exemplo, com uma população de 203 milhões de habitantes, 10 milhões a menos do que a estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as taxas de homicídios dos últimos anos, alerta o estudo, sofrerão mudanças que só poderão ser identificadas após uma revisão do IBGE para as populações estimadas nos últimos anos. Para o ano de 2021, contudo, o próprio FBSP realizou, por meio do método de interpolação linear, uma estimativa da população. Os dados, explicam os organizadores, devem ser recalculados no próximo anuário com base no trabalho de revisão do IBGE.

    A letalidade das forças policiais, responsáveis por uma a cada cinco mortes violentas no Brasil, um indicativo de que há um estado paralelo que permite a aplicação da pena de morte, é outra ausência bastante sentida no levantamento. A questão das pessoas desaparecidas — e que poderiam, inclusive, aumentar a responsabilidade do estado no número total de mortes — também é um fato pouco trabalhado (apenas uma notícia se deteve a isso).

    Questões ligadas a racismo e a violência contra a população LGBTQI+, entre outros crimes de ódio, também tiveram repercussão mínima. Outras, mais ligadas à falta de efetividade do estado, como o esclarecimento de homicídios e à segurança privada foram completamente invisibilizadas jornalisticamente, assim como gastos com segurança pública (apenas um material, reproduzido de agência de governo, que enaltece o investimento de um estado da região centro-oeste). Quando se olha para os sistemas prisional e socioeducativo, o cenário fica ainda pior. Nenhum resquício.

    Contudo, mais que a ausência de alguns recortes está o enfrentamento às pautas por um viés mais humano. A ausência de gente comum nos relatos faz com que o jornalismo perca uma de suas principais potencialidades: o diálogo.

  • Ao Jair, com frio e à distância de mil quilômetros, um obituário

    Ao Jair, com frio e à distância de mil quilômetros, um obituário

    A notícia da passagem de Jair vinda de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, a princípio, não comoveu a ponto de fazer alguém assumir publicamente a queda de uma lágrima pelo patriarca da família André. O vértice de sensibilidade partiu do primogênito, José Carlos, de 58 anos, que, resignado, comprometeu-se a acender uma vela para que a alma daquele ex-motorista profissional pudesse encontrar uma via menos tortuosa no itinerário desconhecido. A barreira geográfica de quase mil quilômetros entre a capital onde o mineiro de São Sebastião do Paraíso passou a maior parte da vida e Curitiba, no Paraná, era, ao fim e ao cabo, a menor distância entre o finado e a parte da família que precisou migrar de cidade em cidade ao longo da década de 1970, em alguns momentos em situação de penúria, até se fixar na capital paranaense no início dos anos 1980.

    Aquele 30 de maio — uma terça-feira cinza cuja tarde, de acordo com o Simepar, o órgão que produz informações meteorológicas no Paraná, registrou 16 graus, a menor temperatura naquela faixa horária do dia até a publicação deste texto — parecia o cenário propício para a frivolidade que o recado da morte daquele estranho homem de 81 anos, vítima de infarto, significava à parentela de pés vermelhos, pele calejada e olhos acimentados.

    Conversas no grupo de mensagens instantâneas da família afugentavam a ideia de luto; alguns não teceram comentário ou sequer um emoji. Quem se pronunciou, relembrou as três raras vezes que Jair foi visto desde meados dos anos 1970, época em que rompeu laços com esta parte da família. Depois, as trocas de mensagem versaram sobre um cuidado até certo ponto exagerado em compartilhar o aviso com Emília, de 76 anos, mãe-solo dos quatro filhos oriundos da relação; sem qualquer reviravolta na narrativa, ela reagiria ao comunicado com indiferença, certo deboche, e finalizou com seu bordão mais famoso: “Ficaram com medo de me contar porque acharam que eu ainda gosto dele. Faça ideia”.

    Por fim, houve ainda tempo para alguns impropérios. Eles não serão registrados neste preâmbulo, pois poderiam ofender o direito à honra, à privacidade e ou à imagem da personalidade post mortem, garantias estas previstas no Código Civil (art. 12). Por mais erros que Jair tenha cometido, este texto não é uma vingança, e sim uma tentativa de conhecê-lo e humanizá-lo, sem romantizá-lo. Há de transparecer, portanto, a existência dos comentários hostis apenas para que o leitor ou a leitora entenda as fissuras na relação, desde que não se revelem detalhes fatídicos que pouco ou nada interessam.

    O início da história que realmente importa

    Jair André e Emília Balduíno se conheceram no início dos anos 1960 no interior do Paraná, especificamente, em Jacutinga, um distrito do município de Ivaiporã, criado em 1961 e cuja maior característica é a existência de uma terra tão vermelha quanto ferida em início de cicatrização. Casaram-se em 26 de dezembro de 1962 e tiveram três meninos: José Carlos, Luiz Carlos e Maurício, nascidos entre 1964 e 1969. A caçula, Cleuzeli, a Nena, viria ao mundo três anos mais tarde, quando a família já morava em Cornélio Procópio, também no interior paranaense. Nesse meio tempo, Jair e, pouco depois, Emília e a prole passaram cerca de um ano em Curitiba.

    As mudanças constantes não foram uma característica singular da família. O relatório Relações entre as alterações históricas na dinâmica demográfica brasileira e os impactos decorrentes do processo de envelhecimento da população, produzido, em 2016, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que o país viveu uma das mais intensas transições demográficas do planeta ao longo do século XX. O contexto de modernização, acentuado na década de 1960, provocou a naturalização de uma série de violações de direitos humanos, ligadas ao acesso à moradia, à educação, ao trabalho infantil, à saúde e à segurança pública, para citar alguns exemplos que impactaram em maior ou menor grau a biografia dos protagonistas desta história. Se, a título de ilustração, para cada habitante que vivia em regiões urbanizadas no início dos anos 1930 existiam quatro que ocupavam áreas rurais, em meio século essa proporção foi invertida. Entende-se o quanto este movimento foi denso quando ele é confrontado com outras realidades: para ter uma transformação demográfica similar, aponta o mesmo estudo, a França demorou pouco mais de duzentos anos.

    A vinda de Jair para Curitiba, em 1969, carregava contornos um pouco distintos da maioria das pessoas que viveram naquela conjuntura. Decerto até tenha passado pela cabeça daquele homem, que começou a trabalhar como motorista de ônibus na cidade à época com quase 870 mil habitantes e em plena expansão, que a capital traria oportunidades, mas, segundo os relatos coletados para este texto, o que mais influenciou na vinda foi a existência de uma amante, a Sebastiana, curiosamente, xará da mãe de Jair. “Ele me deixou com as crianças e fugiu com essa Tiana. Ela era muito bonita. Passou um tempo e eu vim atrás. Eu morria de amor por ele. Faça ideia”, lembra Emília com gracejo, “E eu vim porque ele prometeu largar dela”.

    Da ascensão à fuga

    O fator infidelidade, aliás, teria influenciado no retorno no ano seguinte ao interior do estado, onde a família viveria por quatro anos com alguma prosperidade, e em todo o desfecho da história. “Quando a gente foi para Cornélio Procópio, o pai trabalhou primeiro como motorista de ônibus. Depois comprou um caminhão e virou ‘gato’, que era como o pessoal chamava os responsáveis por selecionar e transportar o pessoal para lidar nas lavouras de soja”, relembra José Carlos, que se recorda com certo orgulho de ajudar, por volta dos oito ou nove anos, na organização dos pagamentos aos trabalhadores rurais. “Nessa época eu era a mulher do ‘gato’”, completa Emília, antes de confidenciar: “Tomava conta do dinheiro. Algumas vezes peguei dinheiro escondida e guardei porque ele não me dava nada”.

    Ao que tudo indica, o caixa paralelo foi residual na contabilidade. O período foi tão promissor que Jair pôde comprar um segundo caminhão e contratar um ajudante para conduzir o novo veículo. Ele acumulava dinheiro e mulheres. “Tinha a Maria Perna Torta, que a gente chamava assim porque mancava, e tinha a Maria Grilo, que a gente chamava assim porque era bem magrinha”, lista a ex-esposa.

    A vida seguia nesse ritmo até que uma guinada ocorreu: num domingo, na volta de um torneio de futebol, o condutor auxiliar, que estaria bêbado, atropelou gravemente uma mulher. Os custos da internação ficaram para o proprietário do veículo. “Quando ele viu que o negócio ia ficar muito pesado, vendeu os caminhões, deixou a mãe, eu e as outras crianças morando lá e fugiu para Campo Grande”, conta o filho mais velho ao explicar que, na época, era “comum que quem fizesse bobagem fugisse para” o ainda “estado de Mato Grosso” — Mato Grosso do Sul só seria criado em 1977.

    De acordo com Emília, a vítima do atropelamento fez diversas cirurgias e teve que amputar as pernas. Mesmo assim, não teria sobrevivido em decorrência de complicações — ou talvez pela falta de atendimento hospitalar adequado por conta da inadimplência de Jair? Nunca se saberá. O que se sabe é que o Sistema Único de Saúde só seria criado em 1988 pela Constituição Cidadã e que, antes disso, saúde não era uma obrigação do Estado.

    Maria Perna Torta o acompanhou na fuga, enquanto os filhos e a então esposa, que às pressas começou a fazer faxinas, permaneceram no Paraná. A matriarca afirma que nem sempre recebia o combinado pela atividade informal. “A gente chegou a ficar sem alimento. Não tinha comida dentro das latas”, relembra.

    “Nos fundos da casa tinha uma horta de verdura e o Zé Carlos começou a montar umas cestas, daí saía e vendia na rua. Ele me perguntava: ‘O que tá faltando hoje, mãe?’ Aí um dia ele pegava o dinheiro e comprava um açúcar; no outro dia perguntava de novo, aí trazia café ou arroz…”.

    Emília Balduíno

    “Eu vendia tanto as verduras que tinham no quintal de casa, que eram poucas, quanto as produzidas por uma outra pessoa que tinha uma horta comercial”, reforça José Carlos ou Zé Carlos, ou, mais raramente, Zecote, variações usadas por Emília para se referir ao filho mais velho. Luiz Carlos, o Major, segundo filho do casal, três anos mais novo e à época com 6 anos, ajudava.

    O apelido que o acompanha desde a primeira infância foi dado devido à admiração que a criança demonstrava pelo responsável pela segurança do distrito de Jacutinga. Naquelas brincadeiras repetitivas que os adultos fazem com os pequenos, as pessoas perguntavam o que o Luiz Carlos gostaria de ser quando adulto. “Quero ser majó, majó…”, respondia. Pedreiro de mão cheia, há vários anos Major intercala fases em que foca no ofício profissional com momentos de desilusão — ou seria uma fuga? — em que é capaz de permutar da camisa no corpo a algo de alguém alheio.

    O resgate

    Passado um tempo que nenhuma memória conseguiu precisar, Jair voltou na calada da noite para buscar a família. “Ele me avisou um tempo antes: ‘Dá um jeito de vender a casa’. Aí me disse o valor que era pra vender. Eu peguei uma parcela e quando fui pegar a outra, o comprador disse que não ia pagar porque sabia que a gente estava fugindo, e fez chantagem que ia denunciar. Aí não recebi o dinheiro”, conta Emília.

    Todos migraram para Campo Grande. Apesar de ter ido, lá ela resolveu se separar. Conheceu um novo homem, Fernando, com quem foi morar em Ribas do Rio Pardo, distante 100 quilômetros de Campo Grande. O novo casal, que ficou junto por poucos meses, foi lidar em uma área de plantio de eucalipto, setor do agronegócio que, segundo informações do site Potencial Florestal, desenvolveu-se em grande escala justamente a partir da década de 1960, período em que recebeu alguns incentivos fiscais. Segundo dados publicados em 2020 pelo IBGE, atualmente, Mato Grosso do Sul é o principal exportador de celulose do país e reúne os quatro primeiros municípios com maior área plantada de eucalipto do país: Ribas do Rio Pardo é o segundo na lista, atrás apenas de Três Lagoas.

    Ranking dos municípios com maiores áreas de florestas plantadas

    PosiçãoMunicípiosEucalipto (ha)Pinus (ha) e outrasTOTAL (ha)
    1Três Lagoas (MS)263.9210263.921
    2Ribas do Rio Pardo (MS)218.1302.870221.000
    3Água Clara (MS)134.478264134.742
    4Brasilândia (MS)133.9590133.959
    5João Pinheiro (MG)108.2500108.250
    6Selvíria (MS)89.859089.859
    7Caravelas (BA)89.728091.100
    8Buritizeiro (MG)82.500382.503
    9Encruzilhada do Sul (RS)28.00047.96075.960
    10Itamarandiba (MG)71.500071.500
    Fonte: Agência IBGE (2021, adaptado)

    Os filhos acompanharam a mãe, com exceção do mais velho, que permaneceu com o pai, mas agora em Bandeirantes, município distante 58 quilômetros da capital sul-mato-grossense, onde Jair trabalharia nos dois anos seguintes como taxista. “Foi por causa da escola. A mãe não tinha ideia do que ia encontrar na cidade nova. Então, por segurança, eu fui transferido de Campo Grande para terminar o ano escolar”, lembra ao citar que há algo bom que guarda do pai: “Ele sempre me incentivou a estudar”. Não à toa, ele foi a primeira pessoa a concluir um curso superior na família. Formou-se em Administração pela Universidade Federal do Paraná, em 1998.

    “Lá, com uns 13 anos eu dirigia um opala e uma rural”, relembra orgulhoso. Enquanto isso, Emília, em Ribas do Rio Pardo, engravidou outra vez — Jair chegaria a afirmar, incrédulo, que teria sido vítima de uma traição, algo repudiado pela ex-esposa. Ela, que não chegou a frequentar um ano na escola, conseguiu juntar certo dinheiro e comprou, às cegas, uma casa em Ouro Verde do Piquiri, na região sudoeste do Paraná.

    “Quando acabou o ano escolar, a mãe passou para me buscar em Bandeirantes e voltamos para o interior do Paraná. Só que a casa era um barraco precário e, para piorar, já existia um proprietário”, conta José Carlos. “Era uma casa de madeira só com uma peça”, complementa Emília. Ao ver uma mulher com quatro filhos, grávida do quinto, e enganada, o posseiro permitiu, mediante pagamento, que a família ficasse no casebre. “Tive que pagar duas vezes por essa casa”, lembra. Mesmo gestante, ela e os dois filhos mais velhos foram por um tempo boias-frias. Em 1978, uma menina chorou pela primeira vez no cômodo único da casinhola, mas foi entregue ainda com três dias a uma família da região com condições de cuidá-la:

    “Ou eu ficava com o bebê ou trabalhava para comprar comida para os outros. Eu não tive escolha”.

    Emília Balduíno

    Quem também não teve opção para conviver com o pai biológico e frequentar a escola foram Maurício e Nena, os caçulas, que neste período da história tinham, respectivamente, 9 e 6 anos. Ele cresceu e se tornou, como Major, pedreiro. Dependente químico, o filho preferido — mas nunca admitido pela matriarca — foi assassinado no final de 2005 por dívidas com traficantes. Já Nena enfrentou graves problemas emocionais ao longo da vida. Chegou a ser internada por três vezes na transição entre adolescência e início da vida adulta em manicômios. Como a Lei da Reforma Psiquiátrica (nº 10.216/01), que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental, só foi sancionada em 2001, ela enfrentou alguns tratamentos desumanos. Após muitos anos sem cuidado adequado para esquizofrenia, hoje toma medicação controlada.

    Outras fugas

    Ainda em Ouro Verde do Piquiri, Emília alugou uma peça e montou um bar para aumentar a renda. “Só que vinham uns caras que bebiam e não pagavam. Tinha que fazer comida de graça, faça ideia, ficavam ameaçando, quebravam as lâmpadas”, relembra. Foi por isso que ela e os filhos migraram outra vez para o distrito de Jacutinga, local onde esta história havia começado mais de uma década e meia antes. Lá, trabalhou nas lavouras de café e milho e conheceu Joaquim. “Aquilo era um diabo”, lembra séria, “Ele dizia: ‘Agora você é minha mulher. Se eu quiser fazer sexo com você aqui na cozinha, na frente das crianças, eu faço’. Aquilo me deixou com tanta raiva que eu disse que ele nunca mais ia me tocar”, recorda.

    Ameaçada de morte depois de fazer, propositalmente, uma canjica com muito açúcar depois de uma briga, ela não tinha dinheiro para fugir: “Ele correu atrás de mim com uma faca até que eu entrei na casa de um dos meus irmãos, que era vizinho nosso. Depois de um tempo, um dos meninos encheu, escondido, um saco de café lá na casa do Joaquim, a gente vendeu para comprar passagem e veio para Curitiba”.

    José Carlos, outra vez, ficou com uma das irmãs de Emília que até hoje mora em Jacutinga, Rufina, para terminar o ano escolar.

    Noção de família como patrimônio

    Em que pese certo rancor que representou à Emília e aos quatro filhos que carregam seu sobrenome, a forma como Jair construiu a própria biografia é fruto de um contexto. Ele não foi, sobremaneira, uma exceção quando o assunto é abandono por parte da figura paterna. Pelo contrário, a história dos André é um sulco dos arranjos familiares no Brasil. É preciso reconhecer que a noção de família surgiu e se consolidou a partir de uma demarcação entre biologia e cultura. Decorrente do processo de sedentarização e da necessidade do estabelecimento de regras mínimas que garantissem laços dentro de um grupo e na relação com outras comunidades, a construção cultural da família centrou-se na ideia de matrimônio.

    Segundo a tese de Karina de Mendonça Vasconcellos — publicada em 2013 pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações da Universidade de Brasília (UnB) —, a própria etimologia da palavra “família” dá indícios ao conjunto de valores nela implicados. O termo deriva do latim familia, cujo significado remete ao “conjunto de propriedades de alguém. Como familia vem de famulus, que significa escravo doméstico, estas propriedades incluem os escravos e as pessoas ligadas a uma grande personalidade” (p. 31-32).

    Assim, desde sua concepção, o entendimento do termo carrega e aceita a desigualdade de poder entre seus integrantes, com foco na centralidade da figura patriarcal. A leniência de Emília e as exorbitâncias de Jair portam traços dessa perspectiva, entendida como normal no período. No papel virtual de patriarca, visitou Curitiba em meados dos anos 1980 com o intuito de levar novamente a ex-esposa para Mato Grosso do Sul. “Ele ficou sabendo que eu tinha conseguido comprar uma casa em Curitiba e veio aqui achando que ia negociar a casa para ter uma parte. Por isso queria voltar comigo”, aposta a ex-esposa ao mesmo tempo em que exemplifica como a noção de posse por parte da figura masculina é vista como natural, intepretação que acompanhou Jair até seus últimos dias.

    Por coincidência do destino, os dois conversaram por videochamada cerca de um mês antes do falecimento: “Ele disse que estava sendo maltratado pelas mulheres lá em Campo Grande e perguntou se eu ainda queria voltar com ele. Aí ainda ficou bravo com a resposta”.

    No papel, família André; na vida real, família Balduíno

    No Brasil, em particular, de acordo com Eni de Mesquita Samara, no artigo O que mudou na família brasileira?: da colônia à atualidade, publicado em 2002 pela revista Psicologia USP, há uma ideia deturpada da composição familiar hegemônica no país desde o período colonial, quando as famílias mais comuns não eram as patriarcais, e sim “aquelas com estruturas mais simples e menor número de integrantes” (p. 28).

    Emília, por volta de 2010, na última vez que Jair veio a Curitiba. (Foto: Arquivo pessoal)

    O estudo, que avalia os censos populacionais brasileiros ao longo de um século e meio, indica uma representativa existência de famílias chefiadas por mulheres ainda no século XIX. Em complemento, a pesquisa de Karina de Mendonça Vasconcellos, desenvolvida a partir de números extraídos de levantamentos do IBGE realizados entre 1992 e 2009, demonstra outras transformações nos padrões familiares, com a redução das formas tradicionais e o consequente aumento de famílias unipessoais, “assim como o número de casais sem filhos, de famílias monoparentais femininas e de famílias chefiadas por mulheres” (p. 18).

    Conforme o boletim As dificuldades das mulheres chefes de família no mercado de trabalho, publicado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a maioria dos domicílios no Brasil é chefiada por mulheres, especialmente as negras. Os dados revelam que dos 75 milhões de lares do país, elas lideram 38,1 milhões de famílias (50,8%).

    Vive-se luto quando houve rompimento há muito tempo?

    A pessoa que teimou em ler até aqui e continua atenta vai perceber que pouco se fez questão de saber da vida de Jair desde o início da década de 1980. Simbolicamente, ele esteve morto durante todos estes anos. Foi visto em apenas três ocasiões: nas duas vezes em que esteve em Curitiba, respectivamente, em meados dos anos 1980 e, talvez, por volta de 2010, intercalada por uma visita a Campo Grande, em 2001 (algumas imagens do acervo pessoal da família abaixo). Na última vez que esteve em Curitiba, veio apenas porque precisava convencer a ex-esposa a autorizar a venda de uma casa em Campo Grande, algo que ela fez sem receber qualquer compensação financeira por um bem que ela teria direito — foi apenas a terceira vez que Emília fez mal negócio envolvendo imóvel.

    Segundo a psicóloga Rosevani Chiapetti, que atua na Fundação Estatal de Atenção à Saúde (Feas) com pessoas em situação de luto, distância e tempo não são fatores determinantes para que uma pessoa deixe de viver o processo. “Como agora a perda é real”, explica ela, a família “vai ter que repassar sentimentos que talvez estivessem esquecidos, adormecidos”. A profissional argumenta que em relações mais convencionais, nas quais há compartilhamento de afetividade, a falta da pessoa se transforma em saudade, porque o espaço de ausência é substituído progressivamente pela presença de memórias: “Em casos nos quais não há muita experiência compartilhada, talvez seja necessário repassar as partes negativas mesmo. Reviver esse vínculo, por mais negativo que seja, vai assentando a ideia de que a pessoa falecida não está mais aqui”.

    Jair deixa — se é que já não havia deixado — algumas ex-esposas, 13 filhos e, 26 netos. Entre eles, o Marquinhos, de 35 anos, filho de Maurício, que, sem lembrar o nome do avô biológico paterno, questionou quando soube da notícia: “Que Jair que morreu? O Bolsonaro?”. A negativa veio acompanhada de uma conclusão rasa e em tom jocoso deste autor: “Talvez a explicação de tantos erros seja mesmo o nome”.

    Hendryo André é jornalista, professor universitário e primeiro neto de Emília e Jair.

  • “A escola está ruim para todo mundo, mas só pedem aos estudantes com deficiência que se retirem”

    “A escola está ruim para todo mundo, mas só pedem aos estudantes com deficiência que se retirem”

    A educação especial direcionada a estudantes com deficiência voltou a ser debatida no Senado Federal. O assunto, que foi rechaçado em dezembro de 2020 pelo Supremo Tribunal Federal (STF), é tema de um ciclo de três audiências públicas conjuntas realizadas este mês pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte e a Comissão de Assuntos Sociais da Casa Legislativa.

    Um dos principais argumentos de quem defende a implementação desse tipo de educação é o direito de escolha dos responsáveis, que poderiam decidir matricular filhos e filhas com deficiência em uma escola regular ou em uma escola especial, voltada apenas a estudantes com deficiência. Também alegam que a educação inclusiva, prevista da Constituição Federal de 1988, não foi consolidada em muitas escolas regulares e, por isso, alunos e alunas com deficiência acabam não tendo nesses espaços atendimento que contemple a diversidade de suas características.

    Se a inclusão prevista na legislação brasileira e em acordos internacionais não saiu plenamente do papel, desistir dela é abrir caminho para que crianças e jovens com deficiência sejam segregados na vida escolar, ferindo o direito deles e também o direito de estudantes sem deficiência à convivência, à diversidade.

    Significa privar tanto alunos e alunas com deficiência quanto aqueles sem deficiência de conhecer e compartilhar a humanidade real, com suas múltiplas formas — legítimas — de existência.

    Durante uma das audiências no Senado, a jornalista Mariana Rosa, que também é mestranda em Educação e mãe de Alice, uma menina com deficiência, ressaltou que se o Estado não tem garantido acesso à escola, à saúde e à assistência social como deveria as razões não têm a ver com os corpos com deficiência. Estão relacionadas a “um projeto de exclusão e segregação que não tem deixado que o dinheiro do Fundeb [Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação] chegue à escola; não permite que os investimentos na sala de recursos multifuncionais e a implementação do serviço de atendimento educacional especializado aconteçam”.

    Ainda segundo ela, que também é fundadora do Instituto Caue, comprometido com o anticapacitismo e a justiça social, é esse mesmo projeto de exclusão e segregação que está lotando as salas de aula; que não paga salários decentes aos professores e não investe na formação dos profissionais. “A escola está ruim para todo mundo, mas só pedem aos estudantes com deficiência que se retirem de lá”.

    Ainda durante a audiência, Mariana questionou os interesses que sustentam a segregação e fazem com que as pessoas com deficiência e suas famílias, “em vez de terem garantidos seus direitos à vida digna, dependam de favor de instituições filantrópicas, cujos serviços são estimados por muita gente, mas isso não é escolarização”. Ela ainda finalizou sua fala com um apelo aos parlamentares:

    “A segregação não é mais uma alternativa, é uma ilegalidade, um crime. Para que essa página seja definitivamente deixada para trás, a gente precisa que os senhores parlamentares protejam as crianças e cuidem das escolas, provendo projetos de lei que fortaleçam a escola pública e não retirem recursos dessas escolas”.

    Mariana Rosa, jornalista e mãe da Alice

    A educação inclusiva já vinha sendo atacada durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que tentou implementar a Política Nacional de Educação Especial, por meio do Decreto 10.502/20. O texto previa a matrícula de crianças e adolescentes com deficiência em classes e instituições separadas dos demais estudantes. O decreto foi suspenso pelo plenário do STF. Após uma Ação Direta de Inconstitucionalidade, o Supremo considerou que ele fragilizaria o imperativo constitucional da inclusão de alunos com deficiência na rede regular de ensino.

    No julgamento, o relator, ministro Dias Toffoli afirmou que “o paradigma da educação inclusiva é o resultado de um processo de conquistas sociais que afastaram a ideia de vivência segregada das pessoas com deficiência ou necessidades especiais para inseri-las no contexto da comunidade”. E acrescentou que transformar a exceção — educação em escolas e classes especializadas — em regra representaria “além de grave ofensa à Constituição de 1988, um retrocesso na proteção de direitos desses indivíduos.”
    O tema também mereceu especial atenção do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que revogou o decreto assinado por Bolsonaro em 2020 em uma das suas primeiras decisões depois da posse (Decreto 11.370/23).

    Se, como afirmou o pesquisador Romeu Kazumi Sassaki no livro Inclusão: construindo uma sociedade para todos (Editora WVA, 1999) — uma das principais referências sobre inclusão de pessoas com deficiência e acessibilidade no Brasil —, a sociedade inclusiva “se pauta nos seguintes princípios: celebração das diferenças, direito de pertencer, valorização da diversidade humana e solidariedade humanitária”, é preciso garantir o acesso e a permanência digna de estudantes com deficiência na escola regular; jamais deixá-los fora, apartados, segregados de onde está a geração à qual pertencem e com a qual devem ter assegurado o direito de conviver.

    Com informações da Agência Senado e da Agência Brasil.

  • Comunidades quilombolas de Alcântara e a negação do direito à comunicação

    Comunidades quilombolas de Alcântara e a negação do direito à comunicação

    Marisvaldo Silva Lima, Pesquisador do PGGJor/UFSC e integrante do DHJor, publicou nesta semana o artigo “O Estado Brasileiro, as comunidades quilombolas de Alcântara e a negação do direito à comunicação” no Observatório da Comunicação Pública (OBCOMP) da UFRGS. Lima trata da negação do direito à comunicação como uma estratégia de Estado de desumanização e de desmobilização comunitária no caso das comunidades quilombolas de Alcântara.

    O artigo publicado no OBCOMP reflete a partir do julgamento do Estado Brasileiro, que ocorreu nos dias 26 e 27 de abril, na Corte Interamericana de Direitos Humanos, devido às violações contra as comunidades quilombolas de Alcântara na década de 1980 para a implantação do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA). O texto se propõe a pensar como a violação do pleno direito à comunicação propicia outras violências nesse processo que dura mais de 40 anos.

    As comunidades denunciantes alegam que tiveram seus direitos territoriais, sociais e econômicos violados. Porém, considera-se que, juntamente com esses, o direito à comunicação também foi negado às comunidades. Outro aspecto levantado é o uso sistemático da comunicação governamental como ferramenta de violação dos direitos humanos e da cidadania dos moradores, com uso de estratégias de persuasão e manipulação.

    Marisvaldo Silva Lima

    Lima destaca que as decisões relacionadas ao projeto da base de lançamento foram historicamente tomadas sem a participação das comunidades. “A falta de comunicação efetiva entre o Estado, o CLA e as comunidades não só tem dificultado o acesso à informação precisa, mas também tem tentado desarticular a sua capacidade de organização em defesa dos diversos direitos. No caso de Alcântara, a negação do direito à comunicação e o uso da comunicação governamental como forma de manipulação contribuem para a vulnerabilidade e marginalização das comunidades quilombolas, perpetuando sua desumanização”, enfatiza.

    O pesquisador salienta que, embora o Estado Brasileiro tenha se desculpado formalmente e se comprometido a cumprir a sentença da Corte Internacional – que ainda não foi decretada -, uma verdadeira mudança de paradigma só será possível se uma comunicação mais horizontal for estabelecida, levando em consideração as peculiaridades étnicas, os direitos humanos e os interesses das comunidades quilombolas.

    Acesse o texto completo.

  • 18 de maio – Data para lembrar de proteger a infância e enfrentar a brutalidade

    18 de maio – Data para lembrar de proteger a infância e enfrentar a brutalidade

    O Brasil ocupa atualmente a 5ª posição, dentre os países latino-americanos, na lista das nações que possuem ações mais combativas nos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes. O dado foi divulgado pela organização Childhood Brasil na última quarta-feira (17) como parte do Índice Fora das Sombras, documento que compara as ações de 60 países no enfrentamento da violação dos direitos sexuais infanto-juvenis. 

    O índice é subdividido em duas categorias: resposta, que inclui serviços de apoio às vítimas e processos judiciais, e prevenção, que considera, por exemplo, leis de proteção e políticas que tentam evitar que a violência aconteça.

    Tal desempenho do país está relacionado ao longo processo de mobilização e sensibilização do Estado e da população acerca da necessidade de proteger os direitos humanos de crianças e adolescentes.

    Entre essas iniciativas está o 18 de maio – Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. A data foi instituída pela Lei Federal 9.970/00 em memória da menina capixaba Araceli Crespo, que foi estuprada e morta em 1973, aos oito anos de idade.

    O caso Araceli chocou o país pela brutalidade e pela impunidade dos suspeitos, jovens que pertenciam a famílias influentes do Espírito Santo. Eles foram acusados de sequestrar, drogar, estuprar e matar Araceli em uma festa regada a drogas e sexo na casa de um deles. Os agressores também foram acusados de desfigurar o corpo da menina com ácido e jogá-lo em um matagal. No entanto, nunca foram condenados pelo crime, pois foram absolvidos em dois julgamentos controversos, em 1980 e 1991. Eles alegaram inocência e contaram com a ajuda de advogados considerados renomados, testemunhas subornadas e autoridades corruptas. O caso foi arquivado pela Justiça e até hoje ninguém foi responsabilizado pela morte da criança.

    Em 2000, o Congresso Nacional instituiu o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes na data da morte de Araceli, 18 de maio, com o objetivo de mobilizar a sociedade para o engajamento na conquista dos direitos de meninas e meninos do país e na luta pelo fim da violência sexual. 

    De que cenário estamos falando?

    Embora o Brasil ocupe a melhor posição no ranking de países da América Latina que desenvolvem ações de combate à violência sexual, o desafio está longe de acabar. De acordo com estatísticas do Disque 100, somente no primeiro semestre de 2022, foram contabilizados 53,8 mil registros de denúncias de violência contra crianças e adolescentes. Destas, 7,1 mil são de violência sexual. Foram mapeados, ainda, 3.651 pontos de exploração sexual infantil no Brasil em 2020.

    Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 61,3% dos estupros registrados no Brasil são contra menores de 13 anos, sendo que quatro meninas de menos de 13 anos são estupradas por hora no país. Outro aspecto relevante que os dados nos informam é de que 82% dos abusadores são conhecidos da vítima e 76,5% dos casos acontecem dentro de casa; 1%, na escola.

    O recorte de gênero também surge nos números coletados, que apontam que  85,5% das vítimas são do sexo feminino sendo que a a faixa etária da maioria das meninas vítimas dessa violência é de 10 a 14 anos. Já os meninos possuem entre quatro e oito anos. 

    Os dados são alarmantes, mas, segundo estimativas, somente 10% dos casos são denunciados. Ou seja, muitas crianças e adolescentes no Brasil sofrem violência em silêncio e é papel de todos protegê-las com prioridade absoluta.

    Como denunciar?

    – O Disque 100, canal de denúncia anônima do governo federal, funciona 24 horas, todos os dias da semana. Basta ligar gratuitamente para o número 100. Também é possível denunciar pelo aplicativo Direitos Humanos Brasil ou pelo número de WhatsApp (61) 99656-5008.

    – A denúncia pode ser feita presencialmente em uma delegacia de polícia, de preferência uma delegacia de proteção à mulher ou de crianças e adolescentes, se houver na sua cidade.

    – Os Conselhos Tutelares podem ser procurados para ajudar a tirar uma criança de uma situação de violência, ainda que seja uma suspeita.

  • Me explica, porque eu não entendo

    Me explica, porque eu não entendo

    Conheci Laura* no meu primeiro dia na paróquia. Estava linda. Toda arrumada, cheirosa e animada porque tinha conseguido um emprego. Muito extrovertida, ficaria na porta de uma loja de roupas convidando os clientes a entrar. Estava esperando o padre porque queria um pacote de macarrão e uma massa de tomate. Ofereci-me para ir ao mercado com ela e na caminhada me contou um pouco da sua história. Disse que teve gêmeos, mas a menina morreu logo depois de nascer. “Eu não aguentei, você entende? Era dor demais. Deixei o menino com a minha mãe e fui para a rua, foi como comecei no crack. O padre comprou o caixãozinho da minha filha”.  

    No mercado, disse que ela poderia escolher o que quisesse. “Não, de jeito nenhum, você já está me ajudando, não quero abusar”. Pegou um pacote de macarrão, uma massa de tomate e me pediu autorização para levar uma lata de milho. Tudo ela escolheu do mais barato. Nos despedimos. Naquele dia fiquei pensando na desigualdade.

    Se Laura não fosse pobre, após o trauma teria acesso a atendimento psicológico, a uma rede de apoio, com certeza não iria parar na rua. Poderia até se envolver com drogas diante da dor da perda da filha, mas a história seria outra. Rico viciado vai para a clínica. Pobre viciado vai para a calçada. Rico viciado é chamado de doente. Pobre viciado é chamado de vagabundo, lixo, fraco. A gente repete que população de rua é caso de saúde pública, mas a verdade é que antes de tudo é caso de desigualdade social.

    No dia seguinte, encontrei Laura quando ajudava a distribuir o café da manhã no Núcleo de Convivência São Martinho de Lima, no bairro da Mooca, zona leste de São Paulo. De segunda a sexta-feira, após rezar a missa, o padre Júlio Lancellotti empurra um carrinho de mercado pela rua, por cerca de cento e cinquenta metros, levando pão para quem não tem teto.

    A ajuda vem de voluntários, mas, principalmente, de André e Gabriel, que já viveram nas ruas e hoje chamam o padre de pai. O pão macio e fresquinho que o padre Júlio distribui – acompanhado de achocolatado – é produzido por pessoas que já tiveram em situação de rua em uma padaria solidária. Em alguns dias, o cardápio é ampliado. Banana, maçã, pera. Depende do que chegar de doação. O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) é um grande parceiro.

    Naquele dia minha função era entregar os pedaços de panetone cortados pelo padre. O atendimento diário no local, uma espécie de galpão onde as pessoas também têm acesso a banho e almoço (distribuído pela prefeitura), vai de 500 a 800. Muitos olhares passam envergonhados. A maioria ali é de homens, negros.

    “Padre, hoje Laura está diferente”, eu disse. Ele me olhou como quem diz “é assim mesmo”.

    Mas, entenda, não é um olhar de decepção. Sem romantismo, é um olhar de quem entende a realidade. Laura estava suja e com o comportamento alterado, mas fazia um esforço para parecer bem e estava visivelmente envergonhada. Falou alguma coisa, pegou o pão e saiu.


    No dia seguinte, não vi Laura. Enquanto estava na pequena paróquia, que tem como forte referência a irmã Dulce – em cartazes e até em uma estátua de bronze– chegaram Wilian e Welington. Aos 21 anos, os irmãos, gêmeos idênticos, passaram por diversas fazendas trabalhando em lavouras até chegar na capital. Em um dos locais, colhiam tomates e ganhavam R$ 1,50 por caixa que, segundo eles, comportava cada uma cerca de 40 quilos. UM REAL E CINQUENTA CENTAVOS POR CAIXA. Trabalhando o dia todo debaixo do sol, carregando as caixas até os caminhões, em regime análogo à escravidão.

    Patrícia ao lado do padre Julio Lancelloti (Arquivo pessoal)

    No dia seguinte, não vi Laura. Enquanto estava na pequena paróquia, que tem como forte referência a irmã Dulce – em cartazes e até em uma estátua de bronze– chegaram Wilian e Welington. Aos 21 anos, os irmãos, gêmeos idênticos, passaram por diversas fazendas trabalhando em lavouras até chegar na capital. Em um dos locais, colhiam tomates e ganhavam R$ 1,50 por caixa que, segundo eles, comportava cada uma cerca de 40 quilos. UM REAL E CINQUENTA CENTAVOS POR CAIXA. Trabalhando o dia todo debaixo do sol, carregando as caixas até os caminhões, em regime análogo à escravidão.

    Wilian e Welington tinham a pele bem castigada e ferimentos nas pernas. Nunca tinham ouvido falar em Bolsa Família nem SUS. Perguntei sobre família.

    “A gente costuma dizer que não tem família porque não conhecemos nosso pai e nossa mãe não quis a gente”.

    Não estiquei o assunto. Aprendi que é cruel fazer as pessoas reviverem suas dores. Fiquei pensando no quanto tive essa atitude egoísta nos vinte anos que trabalhei na reportagem. Mexer em feridas só porque a gente tem que fechar uma matéria.

    “Você almoça conosco?”, convidou o padre. Fomos eu, ele, André, Gabriel, Wilian, Welington, Paulo (sociólogo que há mais de uma década acompanha o padre e comanda o projeto Caminhos da Rua), Humberto (estudante de doutorado que, assim como eu, tinha interesse acadêmico na visita) e mais algumas pessoas até um pequeno restaurante em frente à paróquia. Ali pude conversar um pouco mais com padre Júlio sobre como ele avalia a postura da imprensa diante da população de rua.

    “Existe jornalista especializado para tudo, política, economia, cultura. Mas não existe jornalista social, nem especializado em pessoas em situação de rua, que é uma realidade complexa. Os repórteres chegam aqui e preciso explicar o básico”, disse. Concordamos que o jornalismo atua primordialmente nas consequências e não nas causas que levam as pessoas à rua. Que o Estado é pouco cobrado em relação a políticas sociais de moradia e emprego e ações que desburocratizem o sistema (por exemplo, o Poder Público leva meses, no plural, para comprar uma passagem para uma pessoa que está na rua e apenas quer voltar para o estado de origem).

    Enquanto conversávamos, reparei no que Wilian dizia ao irmão. “A gente nunca foi tratado assim”. E achou melhor alertar o padre. “Padre, eu não sei usar garfo”. A resposta veio com naturalidade. “Usa colher, ué”. Assim, entre sorrisos e conversas, padre Júlio respira e se dirige a mim com o rosto vermelho e os olhos cheios de lágrimas.

    “Me explica como uma pessoa é capaz de olhar nos olhos da outra e fazer dela um escravo. Porque eu não entendo”. Só consegui responder “eu também não, padre… eu também não”.

    Após o almoço, o padre saiu para um compromisso e me ofereci para ajudar na instalação dos meninos, custeada pelo Caminhos da Rua. André e Gabriel foram em busca de um teto seguro para alugar. Fiquei encarregada de levar os gêmeos até a unidade de saúde para tratar os ferimentos e fazer a carteirinha do SUS. Depois, deixamos Wilian e Welington na quitinete alugada e enquanto eles limpavam o local, fomos em busca da mobília. Acompanhei André e Gabriel na compra de fogão, geladeira, bicama e televisão, tudo transportado na Kombi de Renato.

    Ele recebeu pelo frete, mas fez muito mais. Ajudou a carregar tudo, transportar, montar e comprou água quando todo mundo estava com sede. Descobri que a senhora que estava na quitinete ao lado não tinha geladeira. Wilian na mesma hora voltou-se ao irmão. “A gente pode deixar ela guardar as coisas na nossa”. Naquele dia, pensei em como a solidariedade domina aquele pedacinho da gigante São Paulo.

    O dia seguinte começou igual: missa (em que o padre Júlio falou de amor ao próximo, vacinação contra covid e a lei que passou a valer liberando as mulheres da autorização do marido para a cirurgia de laqueadura), carrinho de mercado, caminhada, distribuição, Laura (ainda suja e envergonhada). Foi enquanto ajudava a recolher o lixo que Raimundo entrou na minha vida.

    Raimundo, de uns 50 anos, desmaiou antes do primeiro gole de café. Corri para pegar uma cadeira enquanto dois voluntários o seguravam. Sentado, começou a vomitar no salão. Segurei a testa dele (como faço com os meus filhos) e disse “pode vomitar, você vai ficar bem”. O olho dele girava. Segurei a cabeça dele na direção da minha, olho no olho. “Olha pra mim! Meu nome é Patrícia e vou ficar com você, tá me ouvindo?”. Balançou a cabeça positivamente. “Como é o seu nome?”. “Raimundo”.

    Raimundo suava frio, vomitava e tinha dificuldades para respirar. Os voluntários ligaram várias vezes para a ambulância, que não apareceu. Alguém veio com a solução. “Vamos conseguir uma cadeira de rodas e empurrar ele até a UPA”. Veio a cadeira e lá fomos nós, eu, Téo (também em situação de rua) e outra voluntária empurrando pelo asfalto a cadeira que tinha a roda quebrada e era preciso girar com força cada vez que ela emperrava. E ela emperrava de dois em dois minutos. Raimundo chorava. “Eu não quero morrer”.

    “Olha pra mim, Raimundo! Você não morre hoje”.

    A UPA não era longe. Raimundo, diabético e hipertenso, chegou com uma dor muito forte no peito e foi direto para a sala do eletrocardiograma. A médica suspeitava de infarto. As horas passaram entre vômitos, medicação, troponina, raio-x, mais vômito, mais medicação, mais exames. Téo precisou ir. Éramos eu e Raimundo agora. A médica dizia “você já fez a sua parte, não precisa ficar aqui com ele, avisa a assistência social da UPA e pode ir”.

    Não, eu não ia embora. Prometi a Raimundo que ele não estava sozinho. Pelo menos não naquele dia. Coloquei uma pulseira minha no braço dele. “Tá vendo essa pulseira, seu Raimundo? É para o senhor não esquecer que eu estou aqui com o senhor”. Não, doutora, eu não vou embora.

    Enquanto ele era medicado, fiquei observando a movimentação na UPA. Laura apareceu. “Laura, o que você está fazendo aqui? Está se sentindo mal?”, perguntei. “Não, eu venho aqui beber água”. Para quem não tem casa, a UPA supre necessidades básicas como água e banheiro. Vi uma senhora que recebeu alta, mas não tinha para onde ir. Ficou lá durante horas.

    “Com certeza ela vai passar a noite aqui. Muita gente faz isso. É mais seguro do que estar na rua”, disse o enfermeiro.

    Existem abrigos na região, mas nem sempre há vagas. Além disso, quem perde o horário da entrada só tem a calçada como opção.

    Esperando Raimundo pude conversar um pouco mais com Renato. Vi o padre Júlio acordá-lo na calçada duas manhãs seguidas para que não perdesse o café da manhã. Renato tem 36 anos e uma filha de 12. Tinha casa, família, passou por vários empregos de carteira assinada, mas agora dorme na rua. “O crack levou tudo o que eu tinha”. Calmo, gentil, um pouco tímido, foi companhia agradável naquele dia turbulento. Laura fez outra aparição e sumiu de novo.

    Já era noite quando o grito de raiva da técnica de enfermagem ecoou na unidade lotada. “Quem é acompanhante de Raimundo?”. Apresentei-me e ela esbravejou ganhando a atenção da plateia de pacientes. “Ele se urinou todo, molhou todo o chão!!”. Raimundo, apesar da fralda, estava na cadeira de rodas envolto em duas poças de urina, uma na cadeira e outra no chão, que alguns funcionários se apressaram em jogar papel, de forma nada discreta, com movimentos grandes, teatrais.

    “Você vai ajudar a lavar ele!!!”, ela gritava para a audiência enquanto Raimundo chorava de vergonha na cadeira.

    Chamei a moça em um canto e perguntei o porquê de estar gritando. “Você vai ajudar a limpar ele!!”, ela repetia. “Isso eu já entendi, eu não entendi porque você está gritando”. A resposta veio louca, em um tom abaixo do primeiro escândalo. “A senhora me entendeu mal, eu não fui grossa com você”. Em nenhum momento eu havia dito isso. Até porque a pessoa que mais sofreu com essa exposição não fui eu, mas estava bem ali, vulnerável, invisível. Demos banho em Raimundo. Eu tinha que fechar constantemente a porta que ela e outra técnica insistiam em deixar aberta, apesar do paciente estar nu, completamente exposto. Pensei se rico passava por isso.

    “Que humilhação”, Raimundo chorava. “Não tem nada de humilhação, Raimundo. Olha pra mim. É assim mesmo, todo mundo passa por isso”, menti, tentando ser acolhedora. Como a bermuda dele foi cortada, não havia o que vestir. “Ele vai ficar só de fralda”, esbravejou a outra técnica. “Fique tranquilo, o senhor não vai ficar só de fralda, eu consigo uma bermuda”, tranquilizei. Enquanto a gente puxava a cadeira de rodas para fora do banheiro, ele pediu nervoso. “Patrícia, a minha pulseira! Elas tiraram para o banho, pega pra mim na pia”. Era a pulseira que eu tinha dado.

    Raimundo foi colocado no corredor da UPA de camiseta, fralda e com um lençol por cima das pernas. “Já volto com uma bermuda para o senhor”, eu disse. Eram oito horas da noite, estávamos há quase doze horas ali, ele já se sentindo bem melhor, agora só aguardando o médico dizer se precisaria de internação. Atravessei o portão da UPA, chovia forte, e ali chorei um tanto. Chorei de cansaço, de impotência, do fato de que dali eu iria para um quarto de hotel e Raimundo para o abrigo (a essa altura eu já tinha descoberto o telefone da assistente social do abrigo e conseguido autorização para que ele entrasse caso recebesse alta).

    Não deu tempo de lamentar muito. Raimundo precisava de uma bermuda. Tentei sem sucesso na assistência social da UPA. Até que vi Laura. Ela estava muito agitada. “Laura, me ajuda. Preciso de uma bermuda para o Raimundo, ele está só de fraldas no corredor do hospital”. A resposta veio prática. “Qual tamanho? Quer uma camisa também? É bom que faz conjunto. Vou conseguir pra você”. E saiu. Olhei com descrédito. A intenção era boa, mas se no caminho ela usasse alguma coisa, já era a bermuda de Raimundo. Peguei um uber e achei uma loja aberta na Mooca. Comprei duas bermudas e voltei. Raimundo estava na mesma posição. No colo, uma sacola com a bermuda e a camisa que Laura levou. Segurei o choro.

    No final das contas, o infarto não se confirmou. O médico da noite disse que os exames estavam normais. Ali, naquele momento, já bom das dores e respirando bem, vendo a alta se aproximar, Raimundo disse que parte do corpo estava paralisada. O exame clínico mostrou que não. Naquela altura do campeonato, quase dez da noite, Raimundo não me falou, mas percebi que queria dormir ali, afinal era um teto seguro com garantia de comida. Fomos de uber até o abrigo onde ele dorme há um ano e meio e sonha em juntar dinheiro. Não quer voltar assim, sem nada, para a Paraíba, onde estão a mãe e a irmã. Aquela noite não consegui dormir. O motorista do uber, que nunca tinha visto de tão perto aquela realidade, fez questão de não cobrar a corrida.

    Não vi mais Laura. Não pude lhe agradecer pela bermuda

    No dia seguinte fui até o viaduto onde há dois anos dezesseis famílias improvisaram um local para dormir. Era minha segunda visita. Tapumes foram usados para separar um pedacinho para cada grupo familiar. A convivência tinha regras definidas. Ali, onde viviam muitas crianças (todas matriculadas na escola) era proibido usar drogas e bater em mulher.

    Padre Júlio acompanhava o grupo há bastante tempo. Uniu o Caminhos da Rua e o projeto habitacional Fica para tirar as famílias do viaduto. Elas foram recolocadas em apartamentos próximos dali, onde teriam seis meses para começar a pagar aluguel (150 reais por mês) e um ano para o condomínio (mais 150 reais). Naquele dia de despedida do viaduto, Darlene, mãe de dois filhos, e Márcia, de oito, estavam radiantes de alegria.

    Preciso falar sobre Márcia

    Quando criança acompanhou o sofrimento da irmã, a violência e os abusos do padrasto e a incapacidade de reação da mãe. No início da adolescência, quando percebeu que seria a próxima a ser molestada naquele ambiente que não reconhecia como lar, Márcia fugiu. Passou a dormir nas calçadas e a pedir dinheiro. Não conversava com as outras pessoas em situação de rua, tinha medo. Uma noite, enquanto dormia, um homem se deitou junto dela. Ela acordou com os gritos dos outros homens que já a tinham visto por lá e naquele momento colocavam o potencial agressor para correr.

    “Percebi que eles me protegiam sem eu saber. Tem muito disso na rua”. Aos 16 anos, Márcia conheceu Judson. Estão juntos há vinte anos, com oito filhos. As crianças são apaixonadas pela mãe. Estão sempre agarradas às pernas de Márcia, mulher de voz alta, fala grossa e que sonha em ter uma casa e finalmente se casar com Judson. “Padre Júlio não sabe, mas é ele quem vai celebrar meu casamento”.

    O casal aparentava parceria e amizade de quem passou junto pelo fundo do poço. Há alguns anos, o vício em crack quase acabou com tudo. “Eu usava pra ficar fazendo faxina, você acredita? Pra esquecer um pouco que a gente tava na rua e todo dia lutava só pra ter o que comer. Judson usava mais do que eu e ficava agressivo”. Márcia dizia o tempo todo que apesar do vício nunca deixou de cuidar dos filhos. Repetia tanto isso que me fez pensar se dizia para mim ou para ela mesma.

    A resposta veio durante o caminho que percorri com Judson por duas farmácias em busca de remédios para a mãe dele recém-operada. Ele me contou que perderam a guarda de um dos filhos. Para aquela mãe, amorosa no seu jeito bruto, foi o fim. Ela parou de usar crack e obrigou Judson a parar também. Fizeram tudo o que o juiz mandou e recuperaram a guarda do filho. Imaginei a dor e a culpa que Márcia sentiu. A dor pelo afastamento do filho pequeno, por um juiz – que nunca viveu o que ela viveu – sentenciar que naquele momento ela não tinha condições de cuidar da criança. A culpa por saber que o juiz estava certo. Entendi o porquê de não ter me contado.

    Sentada no meio-fio do viaduto acompanhando as famílias guardarem em caixas os pertences que levariam para os apartamentos, pensei naquela oportunidade. Já tinha entrevistado várias vezes pessoas em situação de rua, mas nunca criei um vínculo real. Era preciso conviver com elas. Era preciso estar ali sem precisar tirar nada (nenhuma entrevista, nenhum choro emocionado). Só estar. Ouvir e observar. Sem julgar, sem oferecer solução, mexer em feridas ou dar lição de moral a partir de um lugar de conforto.

    É o que padre Júlio faz há trinta anos. Olha a sociedade a partir da ótica do mais vulnerável. Oferece pão, água, cobertor, banheiro, acolhimento. Dá bronca também. Em quem tenta passar duas vezes na fila do café da manhã ou pega cesta básica para vender no sinal. Júlio Renato também luta. Ativista, participa de entrevistas e denuncia as alucinações do prefeito de São Paulo. O padre não deixa a população de rua ser esquecida. E transforma pão e palavra em mudança social. Há dois meses foi promulgada a lei que leva seu nome e proíbe a arquitetura hostil em todo o País. Agora, batalha para criminalizar a aporofobia, o ódio aos pobres.

    *Os nomes verdadeiros das pessoas em situação de rua foram preservados.

    Publicado originalmente em Primeira Página, em 09/04/2023.

  • Boaventura de Sousa Santos em retrato preto e branco

    Boaventura de Sousa Santos em retrato preto e branco

    Conheci Boaventura de Sousa Santos pessoalmente em dezembro de 2012. Fui apresentado a seus escritos mais de dez anos antes, durante o doutorado na Escola de Comunicações e Artes da USP. Com a oportunidade de cumprir estágio pós-doutoral em Coimbra, decidi examinar sua obra para verificar como suas ideias poderiam me ajudar a compreender o Jornalismo. Mais que isso, queria observar suas falas, seus olhares, seus gestos, sentir um pouco mais seu mod’ser. Aquele ano letivo europeu (2012-2013) foi fascinante, não só no aprendizado acadêmico, mas também para entender o que é ser brasileiro (embora em Portugal me confundiam com chino).

    Já nos congressos que participei em Portugal e Espanha, as contribuições do autor começaram a emergir, a colaborar para a elaboração de minhas argumentações na crítica aos modelos jornalísticos que me dispus a construir. No retorno ao Brasil, seus livros passaram a ocupar lugar de destaque em minha biblioteca e referência relevante em trabalhos para congressos e artigos de revistas científicas. Passei a ofertar disciplinas na pós-graduação que propunham refletir sobre seu pensamento para a compreensão do Jornalismo. Publicamos uma coletânea de ensaios com base em suas ideias. Tais reflexões propiciaram a criação do Grupo de Estudos Jornalismo e Direitos Humanos (DHJor).

    Soco no estômago – Primeiro o UOL, depois outros órgãos de imprensa. A notícia sobre o escândalo em Coimbra trouxe choque, indignação, frustração. O artigo que deu origem às denúncias de assédio sexual e extrativismo intelectual é avassalador, perturbador.

    The walls spoke when no one else would

    Publicado numa revista britânica, a riqueza de detalhes sobre o drama vivido por muitas mulheres – que deveriam ser acolhidas e orientadas para o melhor estudo – fere os olhos e a alma do leitor minimamente sensível. Uma agressão à inteligência de quem optou por estudar seus textos, como foi meu caso. Noites mal dormidas. Um soco no estômago!

    E daí, a casa caiu? Natalia Timerman escreveu um artigo bem interessante para o Universo UOL.

    O que fazer com livros e textos escritos por intelectuais assediadores?

    Do começo ao fim, a colunista faz questionamentos, provoca, incita. Finaliza de maneira genial:

    – Como mudar?

    – A mudança é individual, coletiva ou ambas?

    – O cancelamento favorece a mudança ou opera segundo a mesma lógica do que cancela?

    – Que bom seria ter todas essas respostas.

    Eu também não tenho respostas a todas as questões que me fiz desde aquele fatídico 11 de abril. O que eu sei é que não posso me envergonhar de ter acreditado na hipótese de o pensamento de Boaventura colaborar para a melhor compreensão do Jornalismo. Não posso me envergonhar de ter levado minhas reflexões a artigos, disciplinas que ministrei, livro que publicamos, alunos que orientei. Mas tenho consciência de que não sou seu cúmplice. Seus livros não estão mais no primeiro plano de minha biblioteca. Foram para a quinta estante. Vou recorrer a eles? Ainda não sei se vou e, se sim, como.

    Cancelamento total e imediato? Talvez não! Tento acreditar que as investigações na Universidade de Coimbra aconteçam com apurações sérias e transparentes.

    Fazendo um retrospecto, penso: o que vou fazer da noção de razão indolente? do pensamento abissal? da sociologia das ausências e das emergências? Boaventura me abriu portas, caminhos para conhecer pensadores dos estudos decoloniais, para encontrar Frantz Fanon, Anibal Quijano, Maldonado-Torres. Inspirou meu diálogo com Edward Said, Silvio Almeida, Lélia Gonzalez, Abdias Nascimento.

    Tenho esposa e uma filha de 25 anos. Não admito assédio sexual a elas como não admito a qualquer pessoa. Também considero reprovável qualquer forma de apropriação intelectual – no meu entender uma atitude tão grave quanto o assédio. Eu continuo “do outro lado da linha abissal”.

    O esforço, lá em 2012, para olhar nos olhos de Boaventura não me permitiram imaginar tal situação. O fato é que a sua imagem, antes em quatro cores, agora está esmaecida… e não passa de um retrato em preto e branco – em alto contraste.

    Como gosta de escrever Ricardo Kotscho, vida que segue… com serenidade, senso crítico e vigilância.

    Publicado originalmente no blog Ijuim Shinbum.

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