Categoria: Cidadania

  • Portais brasileiros chamam de “gafe” atitude capacitista de Madonna

    Portais brasileiros chamam de “gafe” atitude capacitista de Madonna

    Durante um show em Los Angeles, na última sexta-feira (08/03), a cantora Madonna agiu de forma capacitista, ao cobrar de um cadeirante na plateia que assistisse ao espetáculo de pé. Sem perceber que se tratava de um homem com deficiência, a rainha do pop apontou para ele e questionou:

    “O que você está fazendo sentado aí?”. Ela caminha até a beira do palco, em direção ao fã, e, ao notar a cadeira de rodas, se desculpa:

    “Ah, ok. Politicamente incorreto. Desculpe. Estou feliz por você estar aqui. Oh, meu Deus”.

    O episódio, reproduzido em vídeo nas redes sociais, foi noticiado por diversos veículos brasileiros, como os portais da Folha de S.Paulo e O Globo. Ambos se referiram à atitude como uma gafe. Nenhum mencionou tratar-se de capacitismo, que é a discriminação em razão da deficiência. Neste caso, discriminação por desconsiderar a diversidade corporal, ou seja, que há diferentes possibilidades legítimas de funcionamento dos corpos. A própria artista definiu a atitude como “politicamente incorreta”. Os dois portais tampouco foram além do fato e buscaram problematizar, por meio de outras fontes, qualquer questão ligada, por exemplo, ao direito das pessoas com deficiência de acessar equipamentos culturais e participar de shows musicais.

    A doutora em Psicologia pela UFSC Karla Garcia Luiz, que também é cadeirante, destaca que, como historicamente o lugar das pessoas com deficiência é o esconderijo, a segregação, a sociedade, incluindo artistas como Madonna, não reconhece que o ambiente de um show também possa –e deva – ser ocupado por elas.

    “Como eu aprendi com a professora Geisa Böck, a sociedade deveria presumir a presença e não a ausência de pessoas com deficiência nos diversos espaços sociais. Se isso ocorresse, situações como essa seriam menos frequentes”, disse ela, que se auto identifica como mulher defiça (termo utilizado por ativistas com deficiência como um marcador da diferença positivado).

    Para a doutoranda Thais Araujo, que pesquisa representações de pessoas com deficiência no jornalismo, algumas medidas poderiam qualificar as matérias jornalísticas sobre o caso.

    “Uma delas seria, diante da dificuldade de encontrar o fã a quem Madonna se dirigiu, entrevistar pessoas com deficiência no Brasil que tenham passado por situações semelhantes. Infelizmente, não são poucas, porque a atitude de Madonna não é isolada. Não se trata de acusar ou tentar cancelar a artista, mas de perceber que, sem vigilância constante, reproduzimos valores hegemônicos desrespeitosos e desumanizadores, persistentes na sociedade. Entre esses valores está o capacitismo, que deve ser combatido”. 

    Thais Araujo, doutoranda em Jornalismo e integrante do DHJor

    Thais sugeriu, ainda, incluir no texto jornalístico o que diz a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/15) sobre o assunto. A LBI estabelece que as pessoas com deficiências têm direito à cultura e ao lazer em igualdade de oportunidades com as demais pessoas. Define também que locais de espetáculos devem reservar para elas espaços livres e assentos em locais de boa visibilidade e devidamente sinalizados, evitando áreas segregadas de público. “Incluir essas informações ajudaria a dar visibilidade mais adequada à questão e a discutir de modo mais aprofundado os desafios enfrentados por esse grupo social, que soma 18,6 milhões de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística”, acrescentou a pesquisadora.

    O portal do Los Angeles Time também se refere à situação como uma “gafe ‘politicamente incorreta’”, citando a fala da cantora, mas menciona já no título as acusações de capacitismo direcionadas a ela nas redes sociais.

    Embora o veículo não traga entrevistas sobre o episódio, incorpora à matéria críticas feitas por pessoas com deficiência nas redes sociais. Uma delas foi publicada no X (antigo Twitter) pela também cantora Lachi, que é cega e ativista pelos direitos das pessoas com deficiência. Ela desafiou Madonna a compensar o fã.

    “Madonna, você sabe o quão difícil é para nós, pessoas com deficiência, ir a esses shows, desde a compra de ingressos até olhares intrometidos? Fique mais do que feliz! Dê a esse cadeirante uma oportunidade de foto ou ALGUMA COISA, porque foi difícil”.

  • Lula deve lançar plano de enfrentamento ao capacitismo este mês

    Lula deve lançar plano de enfrentamento ao capacitismo este mês

    A nova edição do Plano Viver sem Limite, de promoção dos direitos humanos das pessoas com deficiência, já tem data prevista para ser lançada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Conforme informou, na última quarta-feira (1/11), a secretária nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Anna Paula Feminella, em entrevista exclusiva à jornalista e pesquisadora Thais Araujo, a solenidade está prevista para o dia 16 de novembro, no Palácio do Planalto, em Brasília (DF).

    A primeira versão do Plano foi lançada em 2011, no governo da presidenta Dilma Rousseff (PT), para reforçar a implementação das prerrogativas da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU, ratificada pelo Brasil em 2008. Agora, após discussão com a comunidade acadêmica e membros de movimentos da sociedade civil, a iniciativa traz, pela primeira vez, a perspectiva interseccional – que considera como os diversos marcadores sociais, como classe, raça, gênero entre outros, se articulam para potencializar situações de opressão a pessoas com deficiência.

    O plano, segundo Anna Paula Feminella, prevê a implementação de aproximadamente 200 ações nos próximos quatro anos, como parte do compromisso assumido pelo governo federal de combater o capacitismo. Trata-se, na avaliação da secretária, de uma luta que envolve também a mídia, a sociedade civil, pesquisadores e pesquisadoras na direção de um “salto civilizatório, uma mudança cultural” que é boa para toda a sociedade. Confira a entrevista.

    O ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, quando esteve na UFSC, em agosto, falou sobre o lançamento do Novo Viver sem Limite, mas ainda não havia data certa para o lançamento. Que ações estão previstas?

    O presidente Lula vai fazer o anúncio, em Brasília, com mais detalhes, incluindo os investimentos destinados ao plano. Mas uma inovação é a perspectiva interseccional. Eu não consigo falar em deficiência sem abordar outros marcadores que ampliam as desigualdades sociais e as opressões. A experiência da deficiência pode ser dificultada, por exemplo, para populações mais empobrecidas, por conta da falta de acesso a políticas públicas, o que até pode inviabilizar a existência dessas pessoas. Mulheres negras com deficiência que vivem nas periferias são as que menos acessam serviços públicos, e as pesquisas evidenciam que até mesmo a média salarial das que conseguem acessar o mercado de trabalho é muito menor que as demais pessoas, por exemplo. Por isso, para desenvolver e implementar políticas públicas temos que considerar as diversas desigualdades – racial, de gênero, de classe – reconhecer os diferentes territórios e a diversidade de demandas.

    Poderia dar exemplos de ações práticas que farão parte do plano?

    É uma política pública que será desenvolvida em quatro eixos: gestão inclusiva e participativaenfrentamento à violência e ao capacitismoacessibilidade e tecnologia assistiva; e promoção dos direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais. Em um dos eixos, por exemplo, vamos atuar na formação de conselheiros de direitos das pessoas com deficiência e de novas lideranças desse segmento social para atuar na política. Além disso, vamos lançar um edital de premiação para pesquisadores com e sem deficiência que desenvolvam seus estudos sobre deficiência numa perspectiva de direitos. Há muitas narrativas sobre a deficiência em disputa e muitas delas não nos atendem. O objetivo é difundir esse conhecimento, cumprindo também um papel político-pedagógico.

    Todas essas ações foram construídas em diálogo com a sociedade?

    Para chegar a essas ações, fizemos um amplo debate com a sociedade. O plano é coordenado pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, mas conta com a colaboração de diversos órgãos do Poder Executivo. Estivemos em 12 capitais debatendo as ações, dialogamos com o Conade [Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência], fizemos três eventos híbridos para discutir, por exemplo, questões ligadas à violência contra mulheres com deficiência, a empregabilidade, e abrimos duas consultas públicas para receber contribuições.

    Por falar em consulta pública, há uma aberta neste momento sobre a Política Nacional de Cuidados, que recebe contribuições até 15 de dezembro, e tem relação direta com as pessoas com deficiência. O tema do cuidado tem sido muito discutido pelos movimentos sociais e por quem pesquisa as questões da deficiência. Como a pasta tem tratado essa questão?

    Não conseguimos dar resposta a todas as questões de uma só vez, mas esse é um tema com o qual estamos nos ocupando. O que a gente identifica é que a obrigação do cuidado recai especialmente sobre a mulher, principal cuidadora. As famílias vivem o custo do capacitismo e para aquelas que já estão em situação de empobrecimento, o contexto se agrava ainda mais, porque elas – as mães, sobretudo – deixam de trabalhar para cuidar dos filhos e filhas com deficiência que requerem cuidados essenciais, e sem acesso ao mercado de trabalho, muitas vezes ficam sem o suporte previdenciário. Elas enfrentam extrema vulnerabilidade, com sobrecarga física e mental. Já na hora do parto, é muito comum haver uma abordagem do profissional de saúde que impõe a essa mãe uma espécie de luto pelo nascimento do filho ou filha com deficiência, o que ainda é entendido com frequência como tragédia. O capacitismo também traz para essas mulheres uma profunda solidão.

    A senhora mencionou algumas vezes o capacistimo. Há pouco tempo não ouvíamos nem falávamos esse termo. Por que é importante chamar essas violações de direitos pelo nome?

    Assim como foi importante chamar de racismo o que é racismo para identificar essas situações e combatê-las, é fundamental chamar o preconceito contra as pessoas com deficiência em razão dessa condição de capacitismo. O termo começou a circular na Inglaterra e nos Estados Unidos nos anos 1980 e depois em Portugal e, posteriormente, a antropóloga Anahi Guedes de Mello propôs a tradução para o Brasil dessa forma. O que se propõe é uma mudança cultural para ressignificar a deficiência como uma condição e uma construção social em torno de indivíduos que têm impedimento e que são limitados por barreiras construídas pela sociedade. O que a gente espera é que as pessoas percebam a violação de direitos de pessoas com deficiência e as identifiquem como capacitismo de uma forma rápida e pensem: “isso é capacitismo e capacitismo não pode”.

    O capacitismo tem sido abordado com frequência em postagens do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania nas redes sociais. Como a senhora avalia que a comunicação pode ajudar nesse processo?

    Hoje, sabemos que a sociedade brasileira se informa muito pelas redes sociais, porque usa-se uma linguagem simples, capaz de atingir um público mais amplo e despertar empatia. As pessoas com deficiência, em geral, são abordadas por meio da linguagem do déficit: alguém que não tem, que não faz, em quem falta algo. Entendemos que é preciso haver uma mudança de paradigma e a mídia tem papel fundamental nesse processo de desnaturalização das práticas de opressão contra pessoas com deficiência. É preciso reforçar, ainda, que a luta anticapacitista não é uma luta individual, mas coletiva, e que podemos aprender muito com [o exemplo da] luta antirracista.

    Na minha dissertação observei que as pessoas com deficiência são representadas pelo jornalismo majoritariamente como vítimas de violação de direitos. Por um lado, isso mostra que elas são reconhecidas como cidadãs, que devem ter direitos respeitados, embora sejam fortemente silenciadas; mas os relatos jornalísticos ainda não refletem o protagonismo que as pessoas com deficiência reivindicam e têm assumido na luta por direitos. Como entende essa questão?

    Essa é uma preocupação que compartilhamos, por isso na publicidade governamental, por exemplo, temos buscado incluir pessoas com deficiência como agentes de desenvolvimento local, de conhecimento, não apenas como beneficiárias de políticas públicas. Esta é uma dimensão importante: as políticas públicas servem para corrigir desigualdades, mas as pessoas com deficiência não ocupam apenas o lugar de beneficiárias. Elas também atuam na construção e na execução de políticas públicas. Um exemplo é a inclusão de um enfermeiro com deficiência na campanha de vacinação. Isso comunica muito rapidamente, as pessoas entendem que ali é um profissional da saúde, atuante, que também tem algum tipo de deficiência.

    Para finalizar, gostaria que comentasse o aumento de 150% nas denúncias de violação a direitos humanos de pessoas com deficiência, por meio do Disque 100, de janeiro a setembro de 2023, na comparação com o mesmo período do ano anterior. O que explica esse crescimento?

    Acredito que haja grande subnotificação. Essas violações ainda são muito banalizadas e escondidas. As pessoas com deficiência ainda vivem em espaços majoritariamente privados. A presença em espaços públicos, como a escola regular, permite um maior controle social. Considero que o aumento se deu em parte pela ampliação da divulgação de direitos e do próprio Disque 100, e pela implantação de um protocolo mais qualificado de atendimento no serviço. Os atendentes estão sendo capacitados a fazer as perguntas corretas para identificar a denúncia, registrá-las adequadamente e encaminhar aos órgãos responsáveis. É um processo delicado, que demanda qualificação, porque muitas pessoas com deficiência desistem de denunciar por causa das dificuldades que encontram. Uma vez eu levei mais de uma hora em uma delegacia para convencer o agente público que havia sofrido discriminação. Nossa palavra ainda é muito desacreditada, porque há capacitismo institucionalizado. Ações para combater esse problema também farão parte do Novo Viver sem Limite. Por isso, reforço: é preciso haver mudança cultural, precisamos dar um salto civilizatório que envolve governo, mídia, sociedade civil, pesquisadores e pesquisadoras para combater o capacitismo.

  • Violação a direitos humanos de pessoas com deficiência aumenta 150%

    Violação a direitos humanos de pessoas com deficiência aumenta 150%

    Duas décadas depois de o atendimento prioritário ser garantido a pessoas com deficiência no Brasil, pela Lei 10.048/2000, o jornalista e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGJor/UFSC) Luiz Henrique Zart ainda enfrenta olhares constrangedores e precisa se justificar para exercer um direito assegurado pela legislação. Zart tem mobilidade reduzida em razão de uma paralisia cerebral e, recentemente, foi questionado pela funcionária de um mercado onde fazia compras, na cidade de Lages, serra catarinense, por estar na fila preferencial.

    “Ter que me explicar e convencer as pessoas que eu tenho uma deficiência e que é meu direito ser atendido no caixa preferencial é um exemplo simples, cotidiano, que ilustra o quanto as violações se dão não apenas por meio de barreiras físicas, mas ocorrem também pelo constrangimento simbólico, pela invalidação”, afirma. Por contar com um suporte familiar que o protege de muitas violações, ele nunca chegou a fazer uma denúncia formal.

    Essa rede de apoio atrasa as violações de me acontecerem, mas pode ser também pelo cansaço. É cansativo lutar contra a estrutura. Já basta ter que lutar pela sobrevivência; estar sempre alerta para avisar as instituições que elas precisam garantir um direito que é teu é cansativo e o cansaço, muitas vezes, impede a denúncia.

    Luiz Henrique Zart, mestrando em Jornalismo

    Mesmo se tratando de um processo exaustivo, as denúncias de violação contra os direitos humanos de pessoas com deficiência aumentaram 150% de janeiro a setembro deste ano, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, foram contabilizadas ao todo 51.777 denúncias por meio da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos – o Disque 100 – e registradas 307.484 violações. Cada denúncia pode conter mais de um tipo de violação.

    As mais relatadas foram exposição de risco à saúde, maus-tratos ou abandono; tortura psíquica e insubsistência afetiva; a desassistência em relação a direitos sociais, à saúde e alimentação. Também há casos de subtração de direitos civis, políticos e de liberdade individual, como retenção de documentos, acesso à informação e exercício de expressão e religião. Os estados com os números mais elevados são São Paulo (13.250 denúncias), Rio de Janeiro (6.726) e  Minas Gerais (6.031). Já Santa Catarina aparece em 9º lugar, tendo registrado 1.719 denúncias no período.

    Conforme publicado em maio deste ano, a necessidade de políticas de educação inclusiva, garantidas na Constituição Federal, tem sido pauta de audiências públicas.

    A bacharel em Direito Thais Becker, mestranda em Direitos Humanos na Universidade de São Paulo (USP), enfatiza que dar visibilidade a essas violações é fundamental para a construção de políticas públicas, sempre em diálogo com as próprias pessoas com deficiência, a partir de um diagnóstico preciso de como e onde elas ocorrem. “Como o número de pessoas que denunciam ainda é baixo, a gente tem a falsa impressão de que acontece pouco, quando na verdade acontece muito”, diz ela, que é uma mulher com deficiência.

    “Escancarar esses dados é fundamental ainda para, no campo jurídico, responsabilizar quem ofendeu, o que pode se dar por meio de um processo educativo, entendendo o Judiciário também como um espaço de formação na perspectiva da antidiscriminação; e garantir indenização para quem foi submetido à discriminação”, acrescenta.

    O professor do Programa de Pós-graduação em Jornalismo da UFSC Jorge Kanehide Ijuim, que coordena o grupo de estudos Jornalismo e Direitos Humanos (DHJor), explica que a essência dos Direitos Humanos está na busca incessante pelo direito à dignidade humana, que, além de condições básicas, como o direito à vida, à saúde, à educação, ao trabalho com remuneração digna e à alimentação, também engloba o direito à igualdade e à diferença.

    “Devemos atentar como nos relacionamos com o Outro. Não basta reconhecer as diferenças, como não basta respeitar o diferente, temos que nos comunicar com o Outro, o diferente. É o que podemos chamar de alteridade. Sem esta, a busca pela dignidade humana se esvai, se perde em discursos vazios. É, portanto, uma questão de consciência que pode colaborar para a elevação da dignidade humana”.

    Jorge Kanehide Ijuim, professor do PPGJor/UFSC e um dos coordenadores do DHJor

    Ijuim ressaltou que a temática tem sido estudada – por um olhar interseccional e multicultural – pelo grupo que coordena. O objetivo é “justamente poder compartilhar nossas reflexões – na academia, junto a outros jornalistas, na comunidade –, com a expectativa de que nossos esforços contribuam para a elevação de consciência num sentido mais coletivo”.

    Disque 100

    Violações de direitos de qualquer pessoa em situação de vulnerabilidade devem ser denunciadas ao Disque 100, que as analisa e as encaminha aos órgãos de proteção e responsabilização. O serviço pode ser acionado por meio de ligação gratuita – discando 100 em qualquer aparelho telefônico; pelo e-mail ouvidoria@mdh.gov.br ou pelo site da Ouvidoria e seus canais de WhatsApp e Telegram. O atendimento pode ser feito na Língua Brasileira de Sinais (Libras)

  • “A escola está ruim para todo mundo, mas só pedem aos estudantes com deficiência que se retirem”

    “A escola está ruim para todo mundo, mas só pedem aos estudantes com deficiência que se retirem”

    A educação especial direcionada a estudantes com deficiência voltou a ser debatida no Senado Federal. O assunto, que foi rechaçado em dezembro de 2020 pelo Supremo Tribunal Federal (STF), é tema de um ciclo de três audiências públicas conjuntas realizadas este mês pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte e a Comissão de Assuntos Sociais da Casa Legislativa.

    Um dos principais argumentos de quem defende a implementação desse tipo de educação é o direito de escolha dos responsáveis, que poderiam decidir matricular filhos e filhas com deficiência em uma escola regular ou em uma escola especial, voltada apenas a estudantes com deficiência. Também alegam que a educação inclusiva, prevista da Constituição Federal de 1988, não foi consolidada em muitas escolas regulares e, por isso, alunos e alunas com deficiência acabam não tendo nesses espaços atendimento que contemple a diversidade de suas características.

    Se a inclusão prevista na legislação brasileira e em acordos internacionais não saiu plenamente do papel, desistir dela é abrir caminho para que crianças e jovens com deficiência sejam segregados na vida escolar, ferindo o direito deles e também o direito de estudantes sem deficiência à convivência, à diversidade.

    Significa privar tanto alunos e alunas com deficiência quanto aqueles sem deficiência de conhecer e compartilhar a humanidade real, com suas múltiplas formas — legítimas — de existência.

    Durante uma das audiências no Senado, a jornalista Mariana Rosa, que também é mestranda em Educação e mãe de Alice, uma menina com deficiência, ressaltou que se o Estado não tem garantido acesso à escola, à saúde e à assistência social como deveria as razões não têm a ver com os corpos com deficiência. Estão relacionadas a “um projeto de exclusão e segregação que não tem deixado que o dinheiro do Fundeb [Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação] chegue à escola; não permite que os investimentos na sala de recursos multifuncionais e a implementação do serviço de atendimento educacional especializado aconteçam”.

    Ainda segundo ela, que também é fundadora do Instituto Caue, comprometido com o anticapacitismo e a justiça social, é esse mesmo projeto de exclusão e segregação que está lotando as salas de aula; que não paga salários decentes aos professores e não investe na formação dos profissionais. “A escola está ruim para todo mundo, mas só pedem aos estudantes com deficiência que se retirem de lá”.

    Ainda durante a audiência, Mariana questionou os interesses que sustentam a segregação e fazem com que as pessoas com deficiência e suas famílias, “em vez de terem garantidos seus direitos à vida digna, dependam de favor de instituições filantrópicas, cujos serviços são estimados por muita gente, mas isso não é escolarização”. Ela ainda finalizou sua fala com um apelo aos parlamentares:

    “A segregação não é mais uma alternativa, é uma ilegalidade, um crime. Para que essa página seja definitivamente deixada para trás, a gente precisa que os senhores parlamentares protejam as crianças e cuidem das escolas, provendo projetos de lei que fortaleçam a escola pública e não retirem recursos dessas escolas”.

    Mariana Rosa, jornalista e mãe da Alice

    A educação inclusiva já vinha sendo atacada durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que tentou implementar a Política Nacional de Educação Especial, por meio do Decreto 10.502/20. O texto previa a matrícula de crianças e adolescentes com deficiência em classes e instituições separadas dos demais estudantes. O decreto foi suspenso pelo plenário do STF. Após uma Ação Direta de Inconstitucionalidade, o Supremo considerou que ele fragilizaria o imperativo constitucional da inclusão de alunos com deficiência na rede regular de ensino.

    No julgamento, o relator, ministro Dias Toffoli afirmou que “o paradigma da educação inclusiva é o resultado de um processo de conquistas sociais que afastaram a ideia de vivência segregada das pessoas com deficiência ou necessidades especiais para inseri-las no contexto da comunidade”. E acrescentou que transformar a exceção — educação em escolas e classes especializadas — em regra representaria “além de grave ofensa à Constituição de 1988, um retrocesso na proteção de direitos desses indivíduos.”
    O tema também mereceu especial atenção do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que revogou o decreto assinado por Bolsonaro em 2020 em uma das suas primeiras decisões depois da posse (Decreto 11.370/23).

    Se, como afirmou o pesquisador Romeu Kazumi Sassaki no livro Inclusão: construindo uma sociedade para todos (Editora WVA, 1999) — uma das principais referências sobre inclusão de pessoas com deficiência e acessibilidade no Brasil —, a sociedade inclusiva “se pauta nos seguintes princípios: celebração das diferenças, direito de pertencer, valorização da diversidade humana e solidariedade humanitária”, é preciso garantir o acesso e a permanência digna de estudantes com deficiência na escola regular; jamais deixá-los fora, apartados, segregados de onde está a geração à qual pertencem e com a qual devem ter assegurado o direito de conviver.

    Com informações da Agência Senado e da Agência Brasil.

  • Me explica, porque eu não entendo

    Me explica, porque eu não entendo

    Conheci Laura* no meu primeiro dia na paróquia. Estava linda. Toda arrumada, cheirosa e animada porque tinha conseguido um emprego. Muito extrovertida, ficaria na porta de uma loja de roupas convidando os clientes a entrar. Estava esperando o padre porque queria um pacote de macarrão e uma massa de tomate. Ofereci-me para ir ao mercado com ela e na caminhada me contou um pouco da sua história. Disse que teve gêmeos, mas a menina morreu logo depois de nascer. “Eu não aguentei, você entende? Era dor demais. Deixei o menino com a minha mãe e fui para a rua, foi como comecei no crack. O padre comprou o caixãozinho da minha filha”.  

    No mercado, disse que ela poderia escolher o que quisesse. “Não, de jeito nenhum, você já está me ajudando, não quero abusar”. Pegou um pacote de macarrão, uma massa de tomate e me pediu autorização para levar uma lata de milho. Tudo ela escolheu do mais barato. Nos despedimos. Naquele dia fiquei pensando na desigualdade.

    Se Laura não fosse pobre, após o trauma teria acesso a atendimento psicológico, a uma rede de apoio, com certeza não iria parar na rua. Poderia até se envolver com drogas diante da dor da perda da filha, mas a história seria outra. Rico viciado vai para a clínica. Pobre viciado vai para a calçada. Rico viciado é chamado de doente. Pobre viciado é chamado de vagabundo, lixo, fraco. A gente repete que população de rua é caso de saúde pública, mas a verdade é que antes de tudo é caso de desigualdade social.

    No dia seguinte, encontrei Laura quando ajudava a distribuir o café da manhã no Núcleo de Convivência São Martinho de Lima, no bairro da Mooca, zona leste de São Paulo. De segunda a sexta-feira, após rezar a missa, o padre Júlio Lancellotti empurra um carrinho de mercado pela rua, por cerca de cento e cinquenta metros, levando pão para quem não tem teto.

    A ajuda vem de voluntários, mas, principalmente, de André e Gabriel, que já viveram nas ruas e hoje chamam o padre de pai. O pão macio e fresquinho que o padre Júlio distribui – acompanhado de achocolatado – é produzido por pessoas que já tiveram em situação de rua em uma padaria solidária. Em alguns dias, o cardápio é ampliado. Banana, maçã, pera. Depende do que chegar de doação. O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) é um grande parceiro.

    Naquele dia minha função era entregar os pedaços de panetone cortados pelo padre. O atendimento diário no local, uma espécie de galpão onde as pessoas também têm acesso a banho e almoço (distribuído pela prefeitura), vai de 500 a 800. Muitos olhares passam envergonhados. A maioria ali é de homens, negros.

    “Padre, hoje Laura está diferente”, eu disse. Ele me olhou como quem diz “é assim mesmo”.

    Mas, entenda, não é um olhar de decepção. Sem romantismo, é um olhar de quem entende a realidade. Laura estava suja e com o comportamento alterado, mas fazia um esforço para parecer bem e estava visivelmente envergonhada. Falou alguma coisa, pegou o pão e saiu.


    No dia seguinte, não vi Laura. Enquanto estava na pequena paróquia, que tem como forte referência a irmã Dulce – em cartazes e até em uma estátua de bronze– chegaram Wilian e Welington. Aos 21 anos, os irmãos, gêmeos idênticos, passaram por diversas fazendas trabalhando em lavouras até chegar na capital. Em um dos locais, colhiam tomates e ganhavam R$ 1,50 por caixa que, segundo eles, comportava cada uma cerca de 40 quilos. UM REAL E CINQUENTA CENTAVOS POR CAIXA. Trabalhando o dia todo debaixo do sol, carregando as caixas até os caminhões, em regime análogo à escravidão.

    Patrícia ao lado do padre Julio Lancelloti (Arquivo pessoal)

    No dia seguinte, não vi Laura. Enquanto estava na pequena paróquia, que tem como forte referência a irmã Dulce – em cartazes e até em uma estátua de bronze– chegaram Wilian e Welington. Aos 21 anos, os irmãos, gêmeos idênticos, passaram por diversas fazendas trabalhando em lavouras até chegar na capital. Em um dos locais, colhiam tomates e ganhavam R$ 1,50 por caixa que, segundo eles, comportava cada uma cerca de 40 quilos. UM REAL E CINQUENTA CENTAVOS POR CAIXA. Trabalhando o dia todo debaixo do sol, carregando as caixas até os caminhões, em regime análogo à escravidão.

    Wilian e Welington tinham a pele bem castigada e ferimentos nas pernas. Nunca tinham ouvido falar em Bolsa Família nem SUS. Perguntei sobre família.

    “A gente costuma dizer que não tem família porque não conhecemos nosso pai e nossa mãe não quis a gente”.

    Não estiquei o assunto. Aprendi que é cruel fazer as pessoas reviverem suas dores. Fiquei pensando no quanto tive essa atitude egoísta nos vinte anos que trabalhei na reportagem. Mexer em feridas só porque a gente tem que fechar uma matéria.

    “Você almoça conosco?”, convidou o padre. Fomos eu, ele, André, Gabriel, Wilian, Welington, Paulo (sociólogo que há mais de uma década acompanha o padre e comanda o projeto Caminhos da Rua), Humberto (estudante de doutorado que, assim como eu, tinha interesse acadêmico na visita) e mais algumas pessoas até um pequeno restaurante em frente à paróquia. Ali pude conversar um pouco mais com padre Júlio sobre como ele avalia a postura da imprensa diante da população de rua.

    “Existe jornalista especializado para tudo, política, economia, cultura. Mas não existe jornalista social, nem especializado em pessoas em situação de rua, que é uma realidade complexa. Os repórteres chegam aqui e preciso explicar o básico”, disse. Concordamos que o jornalismo atua primordialmente nas consequências e não nas causas que levam as pessoas à rua. Que o Estado é pouco cobrado em relação a políticas sociais de moradia e emprego e ações que desburocratizem o sistema (por exemplo, o Poder Público leva meses, no plural, para comprar uma passagem para uma pessoa que está na rua e apenas quer voltar para o estado de origem).

    Enquanto conversávamos, reparei no que Wilian dizia ao irmão. “A gente nunca foi tratado assim”. E achou melhor alertar o padre. “Padre, eu não sei usar garfo”. A resposta veio com naturalidade. “Usa colher, ué”. Assim, entre sorrisos e conversas, padre Júlio respira e se dirige a mim com o rosto vermelho e os olhos cheios de lágrimas.

    “Me explica como uma pessoa é capaz de olhar nos olhos da outra e fazer dela um escravo. Porque eu não entendo”. Só consegui responder “eu também não, padre… eu também não”.

    Após o almoço, o padre saiu para um compromisso e me ofereci para ajudar na instalação dos meninos, custeada pelo Caminhos da Rua. André e Gabriel foram em busca de um teto seguro para alugar. Fiquei encarregada de levar os gêmeos até a unidade de saúde para tratar os ferimentos e fazer a carteirinha do SUS. Depois, deixamos Wilian e Welington na quitinete alugada e enquanto eles limpavam o local, fomos em busca da mobília. Acompanhei André e Gabriel na compra de fogão, geladeira, bicama e televisão, tudo transportado na Kombi de Renato.

    Ele recebeu pelo frete, mas fez muito mais. Ajudou a carregar tudo, transportar, montar e comprou água quando todo mundo estava com sede. Descobri que a senhora que estava na quitinete ao lado não tinha geladeira. Wilian na mesma hora voltou-se ao irmão. “A gente pode deixar ela guardar as coisas na nossa”. Naquele dia, pensei em como a solidariedade domina aquele pedacinho da gigante São Paulo.

    O dia seguinte começou igual: missa (em que o padre Júlio falou de amor ao próximo, vacinação contra covid e a lei que passou a valer liberando as mulheres da autorização do marido para a cirurgia de laqueadura), carrinho de mercado, caminhada, distribuição, Laura (ainda suja e envergonhada). Foi enquanto ajudava a recolher o lixo que Raimundo entrou na minha vida.

    Raimundo, de uns 50 anos, desmaiou antes do primeiro gole de café. Corri para pegar uma cadeira enquanto dois voluntários o seguravam. Sentado, começou a vomitar no salão. Segurei a testa dele (como faço com os meus filhos) e disse “pode vomitar, você vai ficar bem”. O olho dele girava. Segurei a cabeça dele na direção da minha, olho no olho. “Olha pra mim! Meu nome é Patrícia e vou ficar com você, tá me ouvindo?”. Balançou a cabeça positivamente. “Como é o seu nome?”. “Raimundo”.

    Raimundo suava frio, vomitava e tinha dificuldades para respirar. Os voluntários ligaram várias vezes para a ambulância, que não apareceu. Alguém veio com a solução. “Vamos conseguir uma cadeira de rodas e empurrar ele até a UPA”. Veio a cadeira e lá fomos nós, eu, Téo (também em situação de rua) e outra voluntária empurrando pelo asfalto a cadeira que tinha a roda quebrada e era preciso girar com força cada vez que ela emperrava. E ela emperrava de dois em dois minutos. Raimundo chorava. “Eu não quero morrer”.

    “Olha pra mim, Raimundo! Você não morre hoje”.

    A UPA não era longe. Raimundo, diabético e hipertenso, chegou com uma dor muito forte no peito e foi direto para a sala do eletrocardiograma. A médica suspeitava de infarto. As horas passaram entre vômitos, medicação, troponina, raio-x, mais vômito, mais medicação, mais exames. Téo precisou ir. Éramos eu e Raimundo agora. A médica dizia “você já fez a sua parte, não precisa ficar aqui com ele, avisa a assistência social da UPA e pode ir”.

    Não, eu não ia embora. Prometi a Raimundo que ele não estava sozinho. Pelo menos não naquele dia. Coloquei uma pulseira minha no braço dele. “Tá vendo essa pulseira, seu Raimundo? É para o senhor não esquecer que eu estou aqui com o senhor”. Não, doutora, eu não vou embora.

    Enquanto ele era medicado, fiquei observando a movimentação na UPA. Laura apareceu. “Laura, o que você está fazendo aqui? Está se sentindo mal?”, perguntei. “Não, eu venho aqui beber água”. Para quem não tem casa, a UPA supre necessidades básicas como água e banheiro. Vi uma senhora que recebeu alta, mas não tinha para onde ir. Ficou lá durante horas.

    “Com certeza ela vai passar a noite aqui. Muita gente faz isso. É mais seguro do que estar na rua”, disse o enfermeiro.

    Existem abrigos na região, mas nem sempre há vagas. Além disso, quem perde o horário da entrada só tem a calçada como opção.

    Esperando Raimundo pude conversar um pouco mais com Renato. Vi o padre Júlio acordá-lo na calçada duas manhãs seguidas para que não perdesse o café da manhã. Renato tem 36 anos e uma filha de 12. Tinha casa, família, passou por vários empregos de carteira assinada, mas agora dorme na rua. “O crack levou tudo o que eu tinha”. Calmo, gentil, um pouco tímido, foi companhia agradável naquele dia turbulento. Laura fez outra aparição e sumiu de novo.

    Já era noite quando o grito de raiva da técnica de enfermagem ecoou na unidade lotada. “Quem é acompanhante de Raimundo?”. Apresentei-me e ela esbravejou ganhando a atenção da plateia de pacientes. “Ele se urinou todo, molhou todo o chão!!”. Raimundo, apesar da fralda, estava na cadeira de rodas envolto em duas poças de urina, uma na cadeira e outra no chão, que alguns funcionários se apressaram em jogar papel, de forma nada discreta, com movimentos grandes, teatrais.

    “Você vai ajudar a lavar ele!!!”, ela gritava para a audiência enquanto Raimundo chorava de vergonha na cadeira.

    Chamei a moça em um canto e perguntei o porquê de estar gritando. “Você vai ajudar a limpar ele!!”, ela repetia. “Isso eu já entendi, eu não entendi porque você está gritando”. A resposta veio louca, em um tom abaixo do primeiro escândalo. “A senhora me entendeu mal, eu não fui grossa com você”. Em nenhum momento eu havia dito isso. Até porque a pessoa que mais sofreu com essa exposição não fui eu, mas estava bem ali, vulnerável, invisível. Demos banho em Raimundo. Eu tinha que fechar constantemente a porta que ela e outra técnica insistiam em deixar aberta, apesar do paciente estar nu, completamente exposto. Pensei se rico passava por isso.

    “Que humilhação”, Raimundo chorava. “Não tem nada de humilhação, Raimundo. Olha pra mim. É assim mesmo, todo mundo passa por isso”, menti, tentando ser acolhedora. Como a bermuda dele foi cortada, não havia o que vestir. “Ele vai ficar só de fralda”, esbravejou a outra técnica. “Fique tranquilo, o senhor não vai ficar só de fralda, eu consigo uma bermuda”, tranquilizei. Enquanto a gente puxava a cadeira de rodas para fora do banheiro, ele pediu nervoso. “Patrícia, a minha pulseira! Elas tiraram para o banho, pega pra mim na pia”. Era a pulseira que eu tinha dado.

    Raimundo foi colocado no corredor da UPA de camiseta, fralda e com um lençol por cima das pernas. “Já volto com uma bermuda para o senhor”, eu disse. Eram oito horas da noite, estávamos há quase doze horas ali, ele já se sentindo bem melhor, agora só aguardando o médico dizer se precisaria de internação. Atravessei o portão da UPA, chovia forte, e ali chorei um tanto. Chorei de cansaço, de impotência, do fato de que dali eu iria para um quarto de hotel e Raimundo para o abrigo (a essa altura eu já tinha descoberto o telefone da assistente social do abrigo e conseguido autorização para que ele entrasse caso recebesse alta).

    Não deu tempo de lamentar muito. Raimundo precisava de uma bermuda. Tentei sem sucesso na assistência social da UPA. Até que vi Laura. Ela estava muito agitada. “Laura, me ajuda. Preciso de uma bermuda para o Raimundo, ele está só de fraldas no corredor do hospital”. A resposta veio prática. “Qual tamanho? Quer uma camisa também? É bom que faz conjunto. Vou conseguir pra você”. E saiu. Olhei com descrédito. A intenção era boa, mas se no caminho ela usasse alguma coisa, já era a bermuda de Raimundo. Peguei um uber e achei uma loja aberta na Mooca. Comprei duas bermudas e voltei. Raimundo estava na mesma posição. No colo, uma sacola com a bermuda e a camisa que Laura levou. Segurei o choro.

    No final das contas, o infarto não se confirmou. O médico da noite disse que os exames estavam normais. Ali, naquele momento, já bom das dores e respirando bem, vendo a alta se aproximar, Raimundo disse que parte do corpo estava paralisada. O exame clínico mostrou que não. Naquela altura do campeonato, quase dez da noite, Raimundo não me falou, mas percebi que queria dormir ali, afinal era um teto seguro com garantia de comida. Fomos de uber até o abrigo onde ele dorme há um ano e meio e sonha em juntar dinheiro. Não quer voltar assim, sem nada, para a Paraíba, onde estão a mãe e a irmã. Aquela noite não consegui dormir. O motorista do uber, que nunca tinha visto de tão perto aquela realidade, fez questão de não cobrar a corrida.

    Não vi mais Laura. Não pude lhe agradecer pela bermuda

    No dia seguinte fui até o viaduto onde há dois anos dezesseis famílias improvisaram um local para dormir. Era minha segunda visita. Tapumes foram usados para separar um pedacinho para cada grupo familiar. A convivência tinha regras definidas. Ali, onde viviam muitas crianças (todas matriculadas na escola) era proibido usar drogas e bater em mulher.

    Padre Júlio acompanhava o grupo há bastante tempo. Uniu o Caminhos da Rua e o projeto habitacional Fica para tirar as famílias do viaduto. Elas foram recolocadas em apartamentos próximos dali, onde teriam seis meses para começar a pagar aluguel (150 reais por mês) e um ano para o condomínio (mais 150 reais). Naquele dia de despedida do viaduto, Darlene, mãe de dois filhos, e Márcia, de oito, estavam radiantes de alegria.

    Preciso falar sobre Márcia

    Quando criança acompanhou o sofrimento da irmã, a violência e os abusos do padrasto e a incapacidade de reação da mãe. No início da adolescência, quando percebeu que seria a próxima a ser molestada naquele ambiente que não reconhecia como lar, Márcia fugiu. Passou a dormir nas calçadas e a pedir dinheiro. Não conversava com as outras pessoas em situação de rua, tinha medo. Uma noite, enquanto dormia, um homem se deitou junto dela. Ela acordou com os gritos dos outros homens que já a tinham visto por lá e naquele momento colocavam o potencial agressor para correr.

    “Percebi que eles me protegiam sem eu saber. Tem muito disso na rua”. Aos 16 anos, Márcia conheceu Judson. Estão juntos há vinte anos, com oito filhos. As crianças são apaixonadas pela mãe. Estão sempre agarradas às pernas de Márcia, mulher de voz alta, fala grossa e que sonha em ter uma casa e finalmente se casar com Judson. “Padre Júlio não sabe, mas é ele quem vai celebrar meu casamento”.

    O casal aparentava parceria e amizade de quem passou junto pelo fundo do poço. Há alguns anos, o vício em crack quase acabou com tudo. “Eu usava pra ficar fazendo faxina, você acredita? Pra esquecer um pouco que a gente tava na rua e todo dia lutava só pra ter o que comer. Judson usava mais do que eu e ficava agressivo”. Márcia dizia o tempo todo que apesar do vício nunca deixou de cuidar dos filhos. Repetia tanto isso que me fez pensar se dizia para mim ou para ela mesma.

    A resposta veio durante o caminho que percorri com Judson por duas farmácias em busca de remédios para a mãe dele recém-operada. Ele me contou que perderam a guarda de um dos filhos. Para aquela mãe, amorosa no seu jeito bruto, foi o fim. Ela parou de usar crack e obrigou Judson a parar também. Fizeram tudo o que o juiz mandou e recuperaram a guarda do filho. Imaginei a dor e a culpa que Márcia sentiu. A dor pelo afastamento do filho pequeno, por um juiz – que nunca viveu o que ela viveu – sentenciar que naquele momento ela não tinha condições de cuidar da criança. A culpa por saber que o juiz estava certo. Entendi o porquê de não ter me contado.

    Sentada no meio-fio do viaduto acompanhando as famílias guardarem em caixas os pertences que levariam para os apartamentos, pensei naquela oportunidade. Já tinha entrevistado várias vezes pessoas em situação de rua, mas nunca criei um vínculo real. Era preciso conviver com elas. Era preciso estar ali sem precisar tirar nada (nenhuma entrevista, nenhum choro emocionado). Só estar. Ouvir e observar. Sem julgar, sem oferecer solução, mexer em feridas ou dar lição de moral a partir de um lugar de conforto.

    É o que padre Júlio faz há trinta anos. Olha a sociedade a partir da ótica do mais vulnerável. Oferece pão, água, cobertor, banheiro, acolhimento. Dá bronca também. Em quem tenta passar duas vezes na fila do café da manhã ou pega cesta básica para vender no sinal. Júlio Renato também luta. Ativista, participa de entrevistas e denuncia as alucinações do prefeito de São Paulo. O padre não deixa a população de rua ser esquecida. E transforma pão e palavra em mudança social. Há dois meses foi promulgada a lei que leva seu nome e proíbe a arquitetura hostil em todo o País. Agora, batalha para criminalizar a aporofobia, o ódio aos pobres.

    *Os nomes verdadeiros das pessoas em situação de rua foram preservados.

    Publicado originalmente em Primeira Página, em 09/04/2023.

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