Categoria: Direitos humanos

  • Comunidades quilombolas de Alcântara e a negação do direito à comunicação

    Comunidades quilombolas de Alcântara e a negação do direito à comunicação

    Marisvaldo Silva Lima, Pesquisador do PGGJor/UFSC e integrante do DHJor, publicou nesta semana o artigo “O Estado Brasileiro, as comunidades quilombolas de Alcântara e a negação do direito à comunicação” no Observatório da Comunicação Pública (OBCOMP) da UFRGS. Lima trata da negação do direito à comunicação como uma estratégia de Estado de desumanização e de desmobilização comunitária no caso das comunidades quilombolas de Alcântara.

    O artigo publicado no OBCOMP reflete a partir do julgamento do Estado Brasileiro, que ocorreu nos dias 26 e 27 de abril, na Corte Interamericana de Direitos Humanos, devido às violações contra as comunidades quilombolas de Alcântara na década de 1980 para a implantação do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA). O texto se propõe a pensar como a violação do pleno direito à comunicação propicia outras violências nesse processo que dura mais de 40 anos.

    As comunidades denunciantes alegam que tiveram seus direitos territoriais, sociais e econômicos violados. Porém, considera-se que, juntamente com esses, o direito à comunicação também foi negado às comunidades. Outro aspecto levantado é o uso sistemático da comunicação governamental como ferramenta de violação dos direitos humanos e da cidadania dos moradores, com uso de estratégias de persuasão e manipulação.

    Marisvaldo Silva Lima

    Lima destaca que as decisões relacionadas ao projeto da base de lançamento foram historicamente tomadas sem a participação das comunidades. “A falta de comunicação efetiva entre o Estado, o CLA e as comunidades não só tem dificultado o acesso à informação precisa, mas também tem tentado desarticular a sua capacidade de organização em defesa dos diversos direitos. No caso de Alcântara, a negação do direito à comunicação e o uso da comunicação governamental como forma de manipulação contribuem para a vulnerabilidade e marginalização das comunidades quilombolas, perpetuando sua desumanização”, enfatiza.

    O pesquisador salienta que, embora o Estado Brasileiro tenha se desculpado formalmente e se comprometido a cumprir a sentença da Corte Internacional – que ainda não foi decretada -, uma verdadeira mudança de paradigma só será possível se uma comunicação mais horizontal for estabelecida, levando em consideração as peculiaridades étnicas, os direitos humanos e os interesses das comunidades quilombolas.

    Acesse o texto completo.

  • Subjetividade e direitos humanos: perspectivas para tensionar o jornalismo

    Subjetividade e direitos humanos: perspectivas para tensionar o jornalismo

    A subjetividade é uma categoria chave para pensar o jornalismo. Modos de perceber e sentir a realidade, padrões de comportamento, políticas, ações, posições e corporalidades podem ser entendidas e problematizadas a partir de discursos e narrativas midiáticas que permeiam nosso cotidiano de diversas maneiras. Com esse intuito, o projeto de extensão Jornalismo e Direitos Humanos (DHJor) realiza uma Mesa de Debate Subjetividade e direitos humanos: perspectivas para tensionar o jornalismo no século XXI.

  • O abraço que quase linchou virtualmente Drauzio Varella

    O abraço que quase linchou virtualmente Drauzio Varella

    Desde 1° de março, quando o Fantástico exibiu uma reportagem especial sobre a situação de transgêneros no sistema penitenciário, o médico Drauzio Varella é assunto recorrente nas redes sociais. Primeiro, foi elogiado pelo gesto empático ao abraçar uma transexual presa em 2010 e que não recebia visitas havia oito anos; depois, virou alvo de ataques porque teria omitido o crime que proporcionou a condenação.

    A exibição da reportagem levanta dilemas éticos relevantes quando se pensa no jornalismo que lida com o tema segurança pública: é obrigatório tipificar e detalhar os crimes quando se entrevistam detentos? O que romantiza mais: a não tipificação do crime ou o detalhamento pormenorizado das ações do criminoso? Trata-se de um recorte aceitável ou de uma manipulação? Antes de buscar contribuir para o debate – por uma perspectiva das produções de sentidos do público -, é preciso contextualizar o caso.

    A história de Suzy

    Em um país polarizado, Drauzio Varella – que já havia sido muito elogiado nas redes sociais após participação no programa Roda Viva, em 10 de fevereiro – praticamente virou unanimidade durante a primeira semana de março por ser um exemplo de altruísmo. Isso ocorreu porque o médico se sensibilizou durante a gravação de uma entrevista e abraçou Susy de Oliveira Santos, de 30 anos, condenada em 2010, que cumpre pena na Penitenciária José Parada Neto, em Guarulhos (SP), quando soube que ela não recebia visitas de familiares e amigos havia oito anos. O abandono foi interpretado como uma consequência de Susy ser transgênero, condição de outras 700 pessoas reclusas só no estado de São Paulo, conforme dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos apresentados pela reportagem do Fantástico.

    O gesto solidário do médico de 76 anos, que há trinta trabalha voluntariamente em prisões, chegou a gerar mobilizações que, por mais que possam ser consideradas pontuais, demonstram potencialidades do telejornalismo no que concerne ao poder de estreitar laços sociais. Uma reportagem do portal G1, em 7 de março, destacou que cinco dias após a exibição do material a presidiária já havia recebido 234 cartas, dezesseis livros e duas Bíblias, além de outros presentes. A mobilização, claro, não foi política e está longe de resolver o problema das pessoas transgênero nos presídios brasileiros, mas sensibiliza a sociedade a minimamente refletir sobre o tema. Diagnóstico dos procedimentos institucionais e experiências de encarceramento encomendado pela pasta da polêmica ministra Damares Alves diz que, das 508 unidades prisionais que participaram do estudo, somente 106 têm celas específicas para a população LGBT – e esse tipo de realidade, ainda que tenha sido apresentada parcialmente pela reportagem do Fantástico, já que a falta de celas específicas gera uma série de violações contra essas pessoas, só pode se alterar a partir da sensibilização da sociedade civil.

    Contudo, na tarde do dia seguinte, o caso sofreu uma reviravolta após o site O Antagonista publicar uma matéria que revelou os motivos pelos quais Suzy foi condenada,. A consequência da publicação pôs parcialmente em xeque a “imunidade” de Drauzio na internet, com a hashtag #drauziovarellalixo subindo nos trending topics do microblog Twitter. Segundo O Antagonista, a transexual foi condenada por homicídio qualificado e estupro de vulnerável de um menino de 9 anos. O texto descreve alguns dos detalhes: “Ele deixou o corpo da criança apodrecer em sua sala por 48 horas. O pai foi avisado pelo próprio assassino que o corpo putrefato fora deixado à sua porta”.

    Drauzio e, principalmente, a produção do Fantástico, foram acusados de manipulação e de protagonizarem a vitimização de uma criminosa impiedosa. Na esteira de ataques, o presidente Bolsonaro se manifestou via Twitter na segunda-feira, 9 de março: “Enquanto a Globo tratava um criminoso como vítima, omitia os crimes por ele praticados: estupro e assassinato de uma criança. Graças à internet livre, o povo não é mais refém de manipulações. Infelizmente, a Constituição não permite prisão perpétua para crimes tão cruéis”.

    Na noite anterior à manifestação presidencial, o Fantástico já havia divulgado uma nota na qual destacava que o objetivo da reportagem foi abordar as condições em que vivem transgêneros no sistema penitenciário brasileiro. Os apresentadores também leram uma nota de Drauzio em que ele dizia que sua área é a medicina, e não a judicial: “Por razões éticas, não busco saber o que de errado fizeram. Sigo essa atitude para cumprir o juramento que fiz ao me tornar médico e para não cair na tentação de traí-lo atendendo apenas aqueles que cometeram crimes leves”. Depois, o médico ainda publicou um vídeo em que explicava o recorte da reportagem e pediu desculpas à família do menino por envolvê-la indiretamente na história.

    A obrigatoriedade de tipificação de crimes

    As mudanças de percepções produzidas pela reportagem do Fantástico nessas duas semanas demonstraram de forma sistematizada algo identificado na pesquisa de doutorado deste autor, e que já foi tema de um texto no Observatório da Imprensa (edição 1076). No estudo de recepção com dezoito telespectadores assíduos dos dois principais noticiários criminais exibidos em Curitiba (Tribuna da Massa e Balanço Geral), precedido por um monitoramento de oitenta edições desses programas, observou-se o quanto os telespectadores demonstram maior ou menor empatia a partir do conhecimento da tipificação dos crimes e, principalmente, das descrições das ações cometidas por agressores e vítimas, estratégia narrativa presente nesses telejornais.

    Durante o monitoramento, houve a preocupação de dividir as 950 inserções noticiosas pela natureza e tipificação das transgressões. A representação da violência nesses noticiários é qualificada, essencialmente, em crimes contra a pessoa (39,6%) e contra o patrimônio (34,1%). Distantes, violações relacionadas ao tráfico ilícito de drogas (6,1%) e contra a dignidade sexual (5,2%) ocupam, respectivamente, a terceira e quarta posições nos crimes mais exibidos pelos programas.

    Se a morte é um valor-notícia eminente para os veículos, os crimes de natureza contra a dignidade sexual carregam uma especificidade: as vítimas costumam pertencer a faixas etárias vulneráveis, especialmente infância e adolescência, com idades entre 3 e 13 anos, muitas vezes sofrendo longos períodos de abuso sexual. Esse tipo de crime está, assim como todos os que envolvem pessoas com laços familiares ou afetivos, entre aqueles que mais produzem sentidos nos telespectadores dos noticiários.

    Na etapa de recepção foi identificada a dificuldade que os telespectadores têm de memorizar os fatos objetivos das notícias, ainda que a estratégia narrativa dos programas seja a de descrever os pormenores dos crimes, com ênfase para as ações dos criminosos e as quase sempre inúteis reações das vítimas. Por outro lado, isso não impede que os respondentes produzam sentidos a partir dos crimes midiatizados. Nesse aspecto, vários participantes citaram situações genéricas quando questionados sobre a lembrança de crimes mostrados pelos noticiários. Episódios que envolvam a instituição família (ou suas derivações, como em crimes cujas vítimas são crianças) foram citados diretamente por dois terços dos entrevistados.

    Essas percepções afetam as visões de mundo dos participantes da pesquisa. Um exemplo extraído da pesquisa dentro dos limites deste texto: quais reações tomariam caso se deparassem, em um local público, com uma pessoa apanhando que estivesse sendo acusada de ter furtado ou roubado uma bicicleta. Eles foram questionados se aprovavam ou desaprovavam a ação dos populares e quais atitudes tomariam. Na sequência, a mesma circunstância foi posta, mas dessa vez a pessoa que sofre as agressões foi apontada pelos populares como autora de um estupro de vulnerável.

    A indiferença pelo desfecho do linchamento, desde que não se trate de um membro familiar ou próximo, foi marca encontrada nas respostas para o furto da bicicleta, ainda que vários entrevistados tenham buscado atenuar o hipotético crime. Porém, quando a acusação muda, as noções de civilidade se perdem. Um dos entrevistados, que acionaria a polícia apenas no primeiro cenário, afirmou que não sentiria nenhum tipo de culpa se o referido  espancamento resultasse em morte em nenhuma das duas situações. Outra não aprova a ideia de que alguém seja agredido por roubar uma bicicleta, fato que a faria acionar a polícia, mas uma interferência só ocorreria se a vítima do linchamento fosse alguém próximo. “Se não fosse um parente meu, eu não iria pôr em risco a minha vida se eles estão batendo, estão quase matando.” A opinião muda drasticamente se o suposto crime envolvesse um estupro de vulnerável: “É uma coisa muito forte, estupro, pedofilia… uma pedrinha eu jogaria ali. Só se tivesse certeza [da culpa] eu participaria”, diz uma das entrevistadas.

    Nessa questão, os entrevistados se dividem entre aqueles que não mudariam de atitude independentemente do crime e entre aqueles que teriam as reações pautadas, sobretudo, pela tipificação do ato criminal ou pela certeza de culpa ou inocência da pessoa em linchamento. No primeiro caso, uma das interlocutoras, pensionista cadeirante, afirma que, se pudesse se movimentar sem restrições, ajudaria nas agressões se tivesse provas. “Primeiro tinha que ter provas. Depois das provas, daí você até ajuda a matar […]. Acho que, se atacasse a minha família, né, daí eu mataria. Por causa de uma família minha, eu mataria.” Há, por outro lado, quem discorde de qualquer forma de justiça pelas próprias mãos. Um dos respondentes diz que violência não combate violência, enquanto outro diz que a polícia é a melhor saída, independentemente do ato criminal. “Porque daí você passa de vítima para agressor.”

    Os demais afirmaram que perderiam a civilidade apenas na situação do estupro de vulnerável. Um deles diz afirma ser impossível não mudar de opinião e de atitude de acordo com os crimes, especialmente pelo aspecto familiar. “Você imagina o que faria pela sua família. Agora imagina, às vezes, a família daquela criança não tá ali ou, mesmo que esteja, a dor que está passando, então nessa hora o cara pode perder a paciência.” Outros dois são mais enfáticos: o primeiro, um policial militar aposentado, frisa que “taradão não tem perdão”, enquanto a segunda, desempregada, diz que há muitas mulheres “à toa aí”, algo compartilhado por outra entrevistada, e que sugere que a violência contra as mulheres seja, até certo ponto, aceitável se posta lado a lado a contra uma criança.

    Pensando em como o público negocia, reinterpreta e reelabora sentidos, outro participante, um agente de escolta armada, assevera que seria o primeiro a atacar o suspeito de crime sexual na situação hipotética. Com base em princípios religiosos, outra participante, uma zeladora e comerciante, relaciona o caráter puro das crianças à reação agressiva: “Deus fala que ninguém chega até ele se não tiver um coração de uma criança, um coração ingênuo, um coração puro”. Ela confessa que, se soubesse que a pessoa tinha cometido algo contra uma criança, mataria essa “pessoa de boa”, ainda que tal atitude não garantisse a ela o “coração ingênuo” necessário para se aproximar dos céus. Outro participante deixa implícito que o fato de ser apenas um roubo de uma bicicleta faria com que tivesse menos animosidade com o suspeito. “Não é um caso de vida ou morte. Foi um roubo de uma bicicleta. E a gente não tem certeza se a bicicleta foi mesmo roubada – ou se era dele ou se não era”. Já outra respondente, aposentada, diz não saber avaliar se a violência resolve e relaciona o fato de ser favorável às agressões com o teor de impunidade inerente à Justiça e valorizado pelos telejornais: “Tem que apanhar mesmo. Não sei, né, se apanhar resolve. […] Só que a polícia vai prender o estuprador, no outro dia a Justiça solta”. Como a questão da justiça pelas próprias mãos é vista por alguns deles como uma forma de reação até certo ponto legítima, haja vista que a Justiça é considerada morosa e, conforme os relatos, condescendente com a impunidade, os respondentes foram unânimes em concordar com uma ideia defendida pelos âncoras dos noticiários: a de que os presidiários têm cada vez mais direitos e menos deveres.

    Quando se pensam nos crimes, o Fantástico tomou uma atitude exatamente oposta à presente nos noticiários criminais estudados, que sobrevalorizam os pormenores dos crimes e acabam por romantizar a violência. O programa produziu uma reportagem sobre segurança pública, e não sobre jornalismo criminal. Buscou humanizar, não estigmatizar. A escolha de Suzy como uma das fontes realmente foi uma infelicidade se for levado em consideração o histórico teor ostensivo com que crimes hediondos são julgados pela sociedade brasileira, além da percepção sobre como esse tipo de crime abala a instituição família; o recorte que omitiu os crimes das pessoas entrevistadas (um deles, aliás, foi identificado como roubo, mas sem detalhar a ação), por outro lado, demonstrou, pelo menos por um tempo, potencialidades de um jornalismo que pode promover diálogo. Sob o ponto de vista jornalístico, parece cada vez mais necessário pensar em protocolos para pautas ligadas à segurança pública, algo que já acontece há longo tempo, por exemplo, quando se pensam em formas de midiatizar suicídios.

    Infelizmente, o foco no crime de Suzy fez com que se ofuscasse a história de outra
    fonte da reportagem. O depoimento de Lolla, de 35 anos, que cumpria os últimos dias
    da condenação por roubo, traz, simultaneamente, alento e preocupação. A esperança por um
    recomeço contrasta com a sensação de falta de liberdade para assumir sua identidade de
    gênero fora do presídio e pela falta de oportunidade no mercado formal de trabalho. Isso exige que Lolla se vista de palhaço nos semáforos para vender água mineral. Como parte do processo de reintegração social dela e da dignidade dessa fatia da população, políticas de crescimento do mercado formal de empregos mereceriam também, no mínimo, um tuíte do presidente.

    Publicado originalmente no Observatório da Imprensa, em 17/03/2020.

  • Desmaio na TV aberta e a “destruição da família brasileira”

    Desmaio na TV aberta e a “destruição da família brasileira”

    Em 17 de fevereiro de 2020, uma mulher desmaiou ao ser informada ao vivo, no programa Cidade Alerta (Rede Record), sobre o homicídio da própria filha. Segundo uma reportagem da Folha de S.Paulo, o programa acompanhava já há alguns dias o caso do desaparecimento de uma moça de 21 anos, grávida. O advogado do ex-namorado da vítima, responsável pela revelação da morte no programa, alegou que seu cliente havia confessado o crime de feminicídio e, inclusive, já teria levado a polícia ao lugar onde havia enterrado o corpo. Surpresa trágica para a mãe, nenhuma para os produtores que, antes da revelação, alegam ter dado à entrevistada a escolha de saber ou não ao vivo o que havia ocorrido com a filha. A consequência da óbvia resposta de uma mãe que não sabia do paradeiro da filha já havia nove dias resultou no desfecho da história.

    O assunto gerou reações de indignação nas redes sociais, dirigidas principalmente ao apresentador, Luiz Bacci, acusado de levar o sensacionalismo a níveis extremos. Longe de eximi-lo de sua parcela de responsabilidade, a decisão do Cidade Alerta não deveria ser personificada, mesmo que o gênero criminal tenha se consolidado no Brasil justamente a partir da forte presença da figura do âncora. É preciso sempre reiterar que televisão é uma atividade produzida em equipe e que a responsabilidade é solidária entre diversos profissionais que permitiram a exibição da fatídica cena, e também com a direção da empresa. Por isso, houve quem voltasse o descontentamento nas redes sociais à emissora, uma concessão pública cuja finalidade deve ser “educativa e cultural, mesmo em seus aspectos informativo e recreativo”¹. Em consonância com essa segunda abordagem, parece inacreditável que a emissora não tenha emitido sequer uma nota sobre o episódio ocorrido e, especialmente, sobre as diretrizes que deveria tomar para que episódios similares jamais tornassem a ocorrer em um dos principais produtos informativos do grupo Record.

    Quem teve que justificar o injustificável nas redes sociais foi o próprio apresentador. Via Instagram, reforçou o desejo da mãe em saber, em tempo real, o que havia acontecido com a filha, bem como alegou ter aprendido com a história, embora não tenha especificado exatamente o que tirou de lição. Um trecho, todavia, chamou a atenção: “as histórias não são conduzidas pela gente, mas por Deus”. Sob a rubrica de que a TV mostra aquilo que o público quer – e agora também o que Deus deseja -, violações éticas se naturalizam dia após dia em coberturas criminais e costumam ser problematizadas, essencialmente, em situações-limite como a exposta no primeiro parágrafo. É preciso reconhecer, por um lado, o esforço de setores sociais, das universidades à sociedade civil organizada, passando pelo campo dos produtores culturais, no estabelecimento de críticas à falta de qualidade na televisão e admitir, por outro lado, que o árduo trabalho, ainda que legítimo e essencial, produza poucos efeitos práticos quando se pensa em melhorias na programação. Este texto carrega essas duas perspectivas como essência: auxiliar na denúncia do episódio e aceitar que tal argumentação nada ou muito pouco sensibilizará os produtores.

    Uma questão de família

    A primeira onda de ataque das elites intelectuais à falta de qualidade na televisão data ainda dos anos 1960, período em que nasce também uma forma de preconceito contra as classes populares: o vínculo entre popularização da televisão e a queda no nível da programação. Segundo esse estigma, as classes populares seriam aficionadas por sangue e por tragédias alheias. Essa percepção cresceu reiteradamente desde a fase de transição para a redemocratização do país. A criação do SBT, em 1981, que retomou atrações da década de 1960 que foram praticamente banidas da televisão nos anos 1970, e a implantação do Plano Real, em 1993, responsável pelo aumento do poder de compra dos brasileiros e, consequentemente, do maior acesso a aparelhos televisores pelos mais pobres, são dois momentos-chave que reforçam o argumento.

    Esse tipo de alegação é defendido por produtores e mesmo por estudiosos de televisão, ainda que haja uma incipiência no país de pesquisas que voltem as atenções de fato para o público². O incômodo com essa situação fez com que o autor do presente texto produzisse uma pesquisa de doutorado no Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com telespectadores de dois noticiários criminais paranaenses (Balanço Geral e Tribuna da Massa).

    Na segunda e última parte do estudo, foram selecionados dezoito telespectadores assíduos dos dois principais noticiários criminais veiculados no Paraná. Essas pessoas deveriam, necessariamente, habitar uma das três regiões com mais crimes exibidos durante a primeira fase da pesquisa, um monitoramento de três meses dos programas (de outubro a dezembro de 2017). Buscou-se problematizar, na etapa de recepção, como essas pessoas produziam sentidos às narrativas criminais na vida cotidiana. Em outras palavras, por que, em síntese, davam credibilidade a programas que exibiam tragédias diariamente.

    As dificuldades que o público tem para memorizar os pormenores dos fatos, algo já identificado em muitas outras pesquisas voltadas ao fenômeno da recepção de conteúdos informativos, foi ratificada. Assim, apesar de assistirem no dia a dia aos programas, essas pessoas não costumam se recordar da maioria dos fatos veiculados. A incapacidade de memorizar a notícia em si, algo que supera questões de classe social, todavia, não impediu que os respondentes produzissem sentidos a partir dos crimes midiatizados. Nesse aspecto, vários participantes citaram situações genéricas quando questionados sobre a lembrança de crimes mostrados pelos telejornais. Episódios que envolvam a instituição família (ou suas derivações, como em crimes cujas vítimas são crianças) foram citados diretamente por dois terços dos entrevistados – houve ainda menções indiretas, como feminicídios, homicídio qualificado que, na maior parte dos casos, envolve vítimas pertencentes ao núcleo de convivência do agressor. A concepção de família, embora não seja a única, articula-se como a principal instituição a ser valorizada no eixo narrativo dos noticiários.

    O vínculo com a noção de família é tão estreito nesses programas que, na pesquisa, foi identificada a presença de um tipo de fonte não usual em outras abordagens jornalísticas. São indivíduos que mesmo sem presenciar o evento criminal ou poder contribuir objetivamente para a resolução do crime foram entrevistados. São parentes ou, no mínimo, pessoas muito próximas à família, que destacam características positivas e negativas na personalidade e no convívio social de, respectivamente, vítimas e agressores. Esse tipo de fonte aparece essencialmente nos noticiários enfatizando a “destruição da família” (não qualquer família, e sim aquela representada em comerciais de margarina), algo que ajuda a ratificar o argumento de que há produtos noticiosos que corroboram o princípio de que haja uma crise de valores na família. As consequências não são animadoras e, inclusive, ajudam a entender a aceitação de discursos entusiastas sobre a liberação da posse e do porte de armas de fogo, excludente de ilicitude, entre outras iniciativas contemporâneas relativas à segurança pública.

    A percepção iminente de risco à família faz com que essas narrativas produzam sentidos relevantes para parte dos entrevistados. As citações sobre família foram marcantes nas quase vinte horas de depoimentos, independentemente da recordação de eventos de violência. Alguns exemplos: “É o pai que mata o filho, é a filha que mata a mãe, é o neto que mata a avó pra pegar dinheiro”, disse um dos entrevistados. “As pessoas entrarem nas casas para matar um, dois, três… Filho matar o pai, onde é que se viu?”, completou outro. “Pai de família morre, direitos humanos não vão lá na casa dele não, mas se um policial matar um sem-vergonha em ponta da esquina, tão lá os ‘direitos dos manos’ em cima”, avaliou um terceiro entrevistado, que usa uma expressão corriqueiramente citada pelo apresentador do Tribuna da Massa, o programa preferido na hora do almoço pelo participante.

    Mesmo os temas que, a princípio, não estariam vinculados à concepção de família, aproximaram-se dela conforme as entrevistas avançavam. Tragédias no trânsito despertam a atenção de uma das entrevistadas, que teve o filho e o ex-marido mortos em acidentes: “Como tenho problemas de acidente na família, não gosto muito de ver acidente, mas assisto”. Situações de violência contra motoristas do aplicativo de transporte Uber são citadas como as que mais comovem outra participante do estudo. Ainda que seja uma força de expressão, já que durante o monitoramento não tenha havido nenhuma notícia envolvendo motoristas do serviço como vítima, a noção dela de que crimes contra esses condutores são diários tem mais relação com o próprio dia a dia do que com a exibição. No fundo, ela assiste ao noticiário essencialmente devido à percepção de risco que o marido enfrenta durante o trabalho. Um último exemplo: a mais nova entrevistada na pesquisa, à época com 17 anos, afirma que passou a acompanhar um dos noticiários inspirada na família de uma amiga do Ensino Médio que visitava com regularidade. Ela, que garantiu pertencer a uma família desestruturada por conta do vício em álcool do pai, percebia a família da amiga unida em torno do sofá e passou a adotar o hábito. O ato em nada tinha a ver com gostar de sangue, e sim com uma idealização de família.

    Os programas criminais dialogam com a família

    Surge também, na década de 1960, uma mudança de concepção no modo de se pensar televisão, que passou a ser considerada como uma esfera de relacionamento em detrimento ao caráter formativo hegemônico na programação dos anos 1950, período em que parte da elite intelectual do país criava expectativas positivas em relação ao então novo meio de comunicação. Essa descoberta foi essencial para que a televisão conseguisse desenvolver estratégias para engajar audiência. A transformação foi causada pela compreensão de como a tecnologia deveria se conciliar à vida cotidiana do público. De um produto experimental, responsável pelo acesso à cultura erudita, a televisão passou a se vincular à vida da maior parte da população.

    Entendida como um meio para ser consumido coletivamente, a televisão criou uma lógica na qual a programação passou a ser pensada, como explica Alexandre Bergamo, “a partir da sua gradativa adaptação à ‘rotina familiar’ e, principalmente, a partir de uma divisão de ‘horários’ que buscasse uma melhor articulação entre o trabalho e o lazer”. Vista até então como uma atividade de lazer noturna, a televisão passou a se adaptar à vida cotidiana do público, algo que, até certo ponto, inverte-se nas décadas seguintes após a consolidação do meio como integrante da rotina dos brasileiros de várias classes sociais.

    Ainda que os noticiários criminais sejam alvo de constantes e merecidas críticas, é inegável o poder que esse gênero tem de criar processos de identificação, sobretudo a partir da lógica familiar. A disseminação de preconceitos e a violação de direitos humanos proliferadas por noticiários criminais, conforme aponta uma pesquisa organizada pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), foram incapazes de afetar o êxito editorial desses programas.

    Da filha de classe média alta que, com a ajuda do namorado e do irmão dele, assassina os pais aos genitores que defenestram a filha de um prédio, a noção de destruição da lógica familiar cria engajamento, logo, audiência. Por falta de identificação e por preconceitos enraizados na sociedade, crimes em regiões periféricas envolvendo negros, homossexuais e outros grupos marginalizados costumam ser ofuscados nas coberturas. Ganham notoriedade tão somente quando carregam em si algo a mais, como a deixa para transmitir ao vivo o anúncio do falecimento de uma filha à mãe.

    O contato diário com os programas criminais contribui de forma estruturante para visões de mundo nada progressistas dos entrevistados. As noções de justiça pelas próprias mãos, de apologia à violência policial e de incentivo a regimes de humilhação à população carcerária são hegemônicas dentro do grupo de entrevistados. Argumentos estruturados pelos discursos ligados à concepção de família.

    Um dos expoentes dos Estudos Culturais britânicos, Stuart Hall escreveu uma frase instigante: “O cão, no filme, pode latir, mas não consegue morder!”. Se o cão for representado por quem, com toda boa intenção, critica a televisão, infelizmente a frase é verdadeira. Caso sejam os produtores de noticiários criminais abordando a famigerada “tragédia da família brasileira” e ditando pensamentos retrógrados, a frase ganha contornos de ficção.

    ¹ Decreto nº 52.795, de 31 de outubro de 1963. Acesso em: 23 fev. 2020.
    ² Os esforços do Núcleo de Pesquisa Recepção e Cultura Midiática, coordenado pela professora Nilda Jacks na UFRGS, demonstram o baixo número de pesquisas de pós-graduação de recepção midiática no país. As investigações voltadas à recepção de produtos jornalísticos, praticamente inexistentes nos anos 1990, com duas dissertações, atingiram a marca de 54 trabalhos no período entre 2000 e 2009. Entre 2010 e 2015, o número já havia atingido 46 pesquisas (43 de mestrado e três de doutorado).

    Publicado originalmente no Observatório da Imprensa, em 26/02/2020.

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