Categoria: Análise de mídia

  • Portais brasileiros chamam de “gafe” atitude capacitista de Madonna

    Portais brasileiros chamam de “gafe” atitude capacitista de Madonna

    Durante um show em Los Angeles, na última sexta-feira (08/03), a cantora Madonna agiu de forma capacitista, ao cobrar de um cadeirante na plateia que assistisse ao espetáculo de pé. Sem perceber que se tratava de um homem com deficiência, a rainha do pop apontou para ele e questionou:

    “O que você está fazendo sentado aí?”. Ela caminha até a beira do palco, em direção ao fã, e, ao notar a cadeira de rodas, se desculpa:

    “Ah, ok. Politicamente incorreto. Desculpe. Estou feliz por você estar aqui. Oh, meu Deus”.

    O episódio, reproduzido em vídeo nas redes sociais, foi noticiado por diversos veículos brasileiros, como os portais da Folha de S.Paulo e O Globo. Ambos se referiram à atitude como uma gafe. Nenhum mencionou tratar-se de capacitismo, que é a discriminação em razão da deficiência. Neste caso, discriminação por desconsiderar a diversidade corporal, ou seja, que há diferentes possibilidades legítimas de funcionamento dos corpos. A própria artista definiu a atitude como “politicamente incorreta”. Os dois portais tampouco foram além do fato e buscaram problematizar, por meio de outras fontes, qualquer questão ligada, por exemplo, ao direito das pessoas com deficiência de acessar equipamentos culturais e participar de shows musicais.

    A doutora em Psicologia pela UFSC Karla Garcia Luiz, que também é cadeirante, destaca que, como historicamente o lugar das pessoas com deficiência é o esconderijo, a segregação, a sociedade, incluindo artistas como Madonna, não reconhece que o ambiente de um show também possa –e deva – ser ocupado por elas.

    “Como eu aprendi com a professora Geisa Böck, a sociedade deveria presumir a presença e não a ausência de pessoas com deficiência nos diversos espaços sociais. Se isso ocorresse, situações como essa seriam menos frequentes”, disse ela, que se auto identifica como mulher defiça (termo utilizado por ativistas com deficiência como um marcador da diferença positivado).

    Para a doutoranda Thais Araujo, que pesquisa representações de pessoas com deficiência no jornalismo, algumas medidas poderiam qualificar as matérias jornalísticas sobre o caso.

    “Uma delas seria, diante da dificuldade de encontrar o fã a quem Madonna se dirigiu, entrevistar pessoas com deficiência no Brasil que tenham passado por situações semelhantes. Infelizmente, não são poucas, porque a atitude de Madonna não é isolada. Não se trata de acusar ou tentar cancelar a artista, mas de perceber que, sem vigilância constante, reproduzimos valores hegemônicos desrespeitosos e desumanizadores, persistentes na sociedade. Entre esses valores está o capacitismo, que deve ser combatido”. 

    Thais Araujo, doutoranda em Jornalismo e integrante do DHJor

    Thais sugeriu, ainda, incluir no texto jornalístico o que diz a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/15) sobre o assunto. A LBI estabelece que as pessoas com deficiências têm direito à cultura e ao lazer em igualdade de oportunidades com as demais pessoas. Define também que locais de espetáculos devem reservar para elas espaços livres e assentos em locais de boa visibilidade e devidamente sinalizados, evitando áreas segregadas de público. “Incluir essas informações ajudaria a dar visibilidade mais adequada à questão e a discutir de modo mais aprofundado os desafios enfrentados por esse grupo social, que soma 18,6 milhões de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística”, acrescentou a pesquisadora.

    O portal do Los Angeles Time também se refere à situação como uma “gafe ‘politicamente incorreta’”, citando a fala da cantora, mas menciona já no título as acusações de capacitismo direcionadas a ela nas redes sociais.

    Embora o veículo não traga entrevistas sobre o episódio, incorpora à matéria críticas feitas por pessoas com deficiência nas redes sociais. Uma delas foi publicada no X (antigo Twitter) pela também cantora Lachi, que é cega e ativista pelos direitos das pessoas com deficiência. Ela desafiou Madonna a compensar o fã.

    “Madonna, você sabe o quão difícil é para nós, pessoas com deficiência, ir a esses shows, desde a compra de ingressos até olhares intrometidos? Fique mais do que feliz! Dê a esse cadeirante uma oportunidade de foto ou ALGUMA COISA, porque foi difícil”.

  • Me explica, porque eu não entendo

    Me explica, porque eu não entendo

    Conheci Laura* no meu primeiro dia na paróquia. Estava linda. Toda arrumada, cheirosa e animada porque tinha conseguido um emprego. Muito extrovertida, ficaria na porta de uma loja de roupas convidando os clientes a entrar. Estava esperando o padre porque queria um pacote de macarrão e uma massa de tomate. Ofereci-me para ir ao mercado com ela e na caminhada me contou um pouco da sua história. Disse que teve gêmeos, mas a menina morreu logo depois de nascer. “Eu não aguentei, você entende? Era dor demais. Deixei o menino com a minha mãe e fui para a rua, foi como comecei no crack. O padre comprou o caixãozinho da minha filha”.  

    No mercado, disse que ela poderia escolher o que quisesse. “Não, de jeito nenhum, você já está me ajudando, não quero abusar”. Pegou um pacote de macarrão, uma massa de tomate e me pediu autorização para levar uma lata de milho. Tudo ela escolheu do mais barato. Nos despedimos. Naquele dia fiquei pensando na desigualdade.

    Se Laura não fosse pobre, após o trauma teria acesso a atendimento psicológico, a uma rede de apoio, com certeza não iria parar na rua. Poderia até se envolver com drogas diante da dor da perda da filha, mas a história seria outra. Rico viciado vai para a clínica. Pobre viciado vai para a calçada. Rico viciado é chamado de doente. Pobre viciado é chamado de vagabundo, lixo, fraco. A gente repete que população de rua é caso de saúde pública, mas a verdade é que antes de tudo é caso de desigualdade social.

    No dia seguinte, encontrei Laura quando ajudava a distribuir o café da manhã no Núcleo de Convivência São Martinho de Lima, no bairro da Mooca, zona leste de São Paulo. De segunda a sexta-feira, após rezar a missa, o padre Júlio Lancellotti empurra um carrinho de mercado pela rua, por cerca de cento e cinquenta metros, levando pão para quem não tem teto.

    A ajuda vem de voluntários, mas, principalmente, de André e Gabriel, que já viveram nas ruas e hoje chamam o padre de pai. O pão macio e fresquinho que o padre Júlio distribui – acompanhado de achocolatado – é produzido por pessoas que já tiveram em situação de rua em uma padaria solidária. Em alguns dias, o cardápio é ampliado. Banana, maçã, pera. Depende do que chegar de doação. O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) é um grande parceiro.

    Naquele dia minha função era entregar os pedaços de panetone cortados pelo padre. O atendimento diário no local, uma espécie de galpão onde as pessoas também têm acesso a banho e almoço (distribuído pela prefeitura), vai de 500 a 800. Muitos olhares passam envergonhados. A maioria ali é de homens, negros.

    “Padre, hoje Laura está diferente”, eu disse. Ele me olhou como quem diz “é assim mesmo”.

    Mas, entenda, não é um olhar de decepção. Sem romantismo, é um olhar de quem entende a realidade. Laura estava suja e com o comportamento alterado, mas fazia um esforço para parecer bem e estava visivelmente envergonhada. Falou alguma coisa, pegou o pão e saiu.


    No dia seguinte, não vi Laura. Enquanto estava na pequena paróquia, que tem como forte referência a irmã Dulce – em cartazes e até em uma estátua de bronze– chegaram Wilian e Welington. Aos 21 anos, os irmãos, gêmeos idênticos, passaram por diversas fazendas trabalhando em lavouras até chegar na capital. Em um dos locais, colhiam tomates e ganhavam R$ 1,50 por caixa que, segundo eles, comportava cada uma cerca de 40 quilos. UM REAL E CINQUENTA CENTAVOS POR CAIXA. Trabalhando o dia todo debaixo do sol, carregando as caixas até os caminhões, em regime análogo à escravidão.

    Patrícia ao lado do padre Julio Lancelloti (Arquivo pessoal)

    No dia seguinte, não vi Laura. Enquanto estava na pequena paróquia, que tem como forte referência a irmã Dulce – em cartazes e até em uma estátua de bronze– chegaram Wilian e Welington. Aos 21 anos, os irmãos, gêmeos idênticos, passaram por diversas fazendas trabalhando em lavouras até chegar na capital. Em um dos locais, colhiam tomates e ganhavam R$ 1,50 por caixa que, segundo eles, comportava cada uma cerca de 40 quilos. UM REAL E CINQUENTA CENTAVOS POR CAIXA. Trabalhando o dia todo debaixo do sol, carregando as caixas até os caminhões, em regime análogo à escravidão.

    Wilian e Welington tinham a pele bem castigada e ferimentos nas pernas. Nunca tinham ouvido falar em Bolsa Família nem SUS. Perguntei sobre família.

    “A gente costuma dizer que não tem família porque não conhecemos nosso pai e nossa mãe não quis a gente”.

    Não estiquei o assunto. Aprendi que é cruel fazer as pessoas reviverem suas dores. Fiquei pensando no quanto tive essa atitude egoísta nos vinte anos que trabalhei na reportagem. Mexer em feridas só porque a gente tem que fechar uma matéria.

    “Você almoça conosco?”, convidou o padre. Fomos eu, ele, André, Gabriel, Wilian, Welington, Paulo (sociólogo que há mais de uma década acompanha o padre e comanda o projeto Caminhos da Rua), Humberto (estudante de doutorado que, assim como eu, tinha interesse acadêmico na visita) e mais algumas pessoas até um pequeno restaurante em frente à paróquia. Ali pude conversar um pouco mais com padre Júlio sobre como ele avalia a postura da imprensa diante da população de rua.

    “Existe jornalista especializado para tudo, política, economia, cultura. Mas não existe jornalista social, nem especializado em pessoas em situação de rua, que é uma realidade complexa. Os repórteres chegam aqui e preciso explicar o básico”, disse. Concordamos que o jornalismo atua primordialmente nas consequências e não nas causas que levam as pessoas à rua. Que o Estado é pouco cobrado em relação a políticas sociais de moradia e emprego e ações que desburocratizem o sistema (por exemplo, o Poder Público leva meses, no plural, para comprar uma passagem para uma pessoa que está na rua e apenas quer voltar para o estado de origem).

    Enquanto conversávamos, reparei no que Wilian dizia ao irmão. “A gente nunca foi tratado assim”. E achou melhor alertar o padre. “Padre, eu não sei usar garfo”. A resposta veio com naturalidade. “Usa colher, ué”. Assim, entre sorrisos e conversas, padre Júlio respira e se dirige a mim com o rosto vermelho e os olhos cheios de lágrimas.

    “Me explica como uma pessoa é capaz de olhar nos olhos da outra e fazer dela um escravo. Porque eu não entendo”. Só consegui responder “eu também não, padre… eu também não”.

    Após o almoço, o padre saiu para um compromisso e me ofereci para ajudar na instalação dos meninos, custeada pelo Caminhos da Rua. André e Gabriel foram em busca de um teto seguro para alugar. Fiquei encarregada de levar os gêmeos até a unidade de saúde para tratar os ferimentos e fazer a carteirinha do SUS. Depois, deixamos Wilian e Welington na quitinete alugada e enquanto eles limpavam o local, fomos em busca da mobília. Acompanhei André e Gabriel na compra de fogão, geladeira, bicama e televisão, tudo transportado na Kombi de Renato.

    Ele recebeu pelo frete, mas fez muito mais. Ajudou a carregar tudo, transportar, montar e comprou água quando todo mundo estava com sede. Descobri que a senhora que estava na quitinete ao lado não tinha geladeira. Wilian na mesma hora voltou-se ao irmão. “A gente pode deixar ela guardar as coisas na nossa”. Naquele dia, pensei em como a solidariedade domina aquele pedacinho da gigante São Paulo.

    O dia seguinte começou igual: missa (em que o padre Júlio falou de amor ao próximo, vacinação contra covid e a lei que passou a valer liberando as mulheres da autorização do marido para a cirurgia de laqueadura), carrinho de mercado, caminhada, distribuição, Laura (ainda suja e envergonhada). Foi enquanto ajudava a recolher o lixo que Raimundo entrou na minha vida.

    Raimundo, de uns 50 anos, desmaiou antes do primeiro gole de café. Corri para pegar uma cadeira enquanto dois voluntários o seguravam. Sentado, começou a vomitar no salão. Segurei a testa dele (como faço com os meus filhos) e disse “pode vomitar, você vai ficar bem”. O olho dele girava. Segurei a cabeça dele na direção da minha, olho no olho. “Olha pra mim! Meu nome é Patrícia e vou ficar com você, tá me ouvindo?”. Balançou a cabeça positivamente. “Como é o seu nome?”. “Raimundo”.

    Raimundo suava frio, vomitava e tinha dificuldades para respirar. Os voluntários ligaram várias vezes para a ambulância, que não apareceu. Alguém veio com a solução. “Vamos conseguir uma cadeira de rodas e empurrar ele até a UPA”. Veio a cadeira e lá fomos nós, eu, Téo (também em situação de rua) e outra voluntária empurrando pelo asfalto a cadeira que tinha a roda quebrada e era preciso girar com força cada vez que ela emperrava. E ela emperrava de dois em dois minutos. Raimundo chorava. “Eu não quero morrer”.

    “Olha pra mim, Raimundo! Você não morre hoje”.

    A UPA não era longe. Raimundo, diabético e hipertenso, chegou com uma dor muito forte no peito e foi direto para a sala do eletrocardiograma. A médica suspeitava de infarto. As horas passaram entre vômitos, medicação, troponina, raio-x, mais vômito, mais medicação, mais exames. Téo precisou ir. Éramos eu e Raimundo agora. A médica dizia “você já fez a sua parte, não precisa ficar aqui com ele, avisa a assistência social da UPA e pode ir”.

    Não, eu não ia embora. Prometi a Raimundo que ele não estava sozinho. Pelo menos não naquele dia. Coloquei uma pulseira minha no braço dele. “Tá vendo essa pulseira, seu Raimundo? É para o senhor não esquecer que eu estou aqui com o senhor”. Não, doutora, eu não vou embora.

    Enquanto ele era medicado, fiquei observando a movimentação na UPA. Laura apareceu. “Laura, o que você está fazendo aqui? Está se sentindo mal?”, perguntei. “Não, eu venho aqui beber água”. Para quem não tem casa, a UPA supre necessidades básicas como água e banheiro. Vi uma senhora que recebeu alta, mas não tinha para onde ir. Ficou lá durante horas.

    “Com certeza ela vai passar a noite aqui. Muita gente faz isso. É mais seguro do que estar na rua”, disse o enfermeiro.

    Existem abrigos na região, mas nem sempre há vagas. Além disso, quem perde o horário da entrada só tem a calçada como opção.

    Esperando Raimundo pude conversar um pouco mais com Renato. Vi o padre Júlio acordá-lo na calçada duas manhãs seguidas para que não perdesse o café da manhã. Renato tem 36 anos e uma filha de 12. Tinha casa, família, passou por vários empregos de carteira assinada, mas agora dorme na rua. “O crack levou tudo o que eu tinha”. Calmo, gentil, um pouco tímido, foi companhia agradável naquele dia turbulento. Laura fez outra aparição e sumiu de novo.

    Já era noite quando o grito de raiva da técnica de enfermagem ecoou na unidade lotada. “Quem é acompanhante de Raimundo?”. Apresentei-me e ela esbravejou ganhando a atenção da plateia de pacientes. “Ele se urinou todo, molhou todo o chão!!”. Raimundo, apesar da fralda, estava na cadeira de rodas envolto em duas poças de urina, uma na cadeira e outra no chão, que alguns funcionários se apressaram em jogar papel, de forma nada discreta, com movimentos grandes, teatrais.

    “Você vai ajudar a lavar ele!!!”, ela gritava para a audiência enquanto Raimundo chorava de vergonha na cadeira.

    Chamei a moça em um canto e perguntei o porquê de estar gritando. “Você vai ajudar a limpar ele!!”, ela repetia. “Isso eu já entendi, eu não entendi porque você está gritando”. A resposta veio louca, em um tom abaixo do primeiro escândalo. “A senhora me entendeu mal, eu não fui grossa com você”. Em nenhum momento eu havia dito isso. Até porque a pessoa que mais sofreu com essa exposição não fui eu, mas estava bem ali, vulnerável, invisível. Demos banho em Raimundo. Eu tinha que fechar constantemente a porta que ela e outra técnica insistiam em deixar aberta, apesar do paciente estar nu, completamente exposto. Pensei se rico passava por isso.

    “Que humilhação”, Raimundo chorava. “Não tem nada de humilhação, Raimundo. Olha pra mim. É assim mesmo, todo mundo passa por isso”, menti, tentando ser acolhedora. Como a bermuda dele foi cortada, não havia o que vestir. “Ele vai ficar só de fralda”, esbravejou a outra técnica. “Fique tranquilo, o senhor não vai ficar só de fralda, eu consigo uma bermuda”, tranquilizei. Enquanto a gente puxava a cadeira de rodas para fora do banheiro, ele pediu nervoso. “Patrícia, a minha pulseira! Elas tiraram para o banho, pega pra mim na pia”. Era a pulseira que eu tinha dado.

    Raimundo foi colocado no corredor da UPA de camiseta, fralda e com um lençol por cima das pernas. “Já volto com uma bermuda para o senhor”, eu disse. Eram oito horas da noite, estávamos há quase doze horas ali, ele já se sentindo bem melhor, agora só aguardando o médico dizer se precisaria de internação. Atravessei o portão da UPA, chovia forte, e ali chorei um tanto. Chorei de cansaço, de impotência, do fato de que dali eu iria para um quarto de hotel e Raimundo para o abrigo (a essa altura eu já tinha descoberto o telefone da assistente social do abrigo e conseguido autorização para que ele entrasse caso recebesse alta).

    Não deu tempo de lamentar muito. Raimundo precisava de uma bermuda. Tentei sem sucesso na assistência social da UPA. Até que vi Laura. Ela estava muito agitada. “Laura, me ajuda. Preciso de uma bermuda para o Raimundo, ele está só de fraldas no corredor do hospital”. A resposta veio prática. “Qual tamanho? Quer uma camisa também? É bom que faz conjunto. Vou conseguir pra você”. E saiu. Olhei com descrédito. A intenção era boa, mas se no caminho ela usasse alguma coisa, já era a bermuda de Raimundo. Peguei um uber e achei uma loja aberta na Mooca. Comprei duas bermudas e voltei. Raimundo estava na mesma posição. No colo, uma sacola com a bermuda e a camisa que Laura levou. Segurei o choro.

    No final das contas, o infarto não se confirmou. O médico da noite disse que os exames estavam normais. Ali, naquele momento, já bom das dores e respirando bem, vendo a alta se aproximar, Raimundo disse que parte do corpo estava paralisada. O exame clínico mostrou que não. Naquela altura do campeonato, quase dez da noite, Raimundo não me falou, mas percebi que queria dormir ali, afinal era um teto seguro com garantia de comida. Fomos de uber até o abrigo onde ele dorme há um ano e meio e sonha em juntar dinheiro. Não quer voltar assim, sem nada, para a Paraíba, onde estão a mãe e a irmã. Aquela noite não consegui dormir. O motorista do uber, que nunca tinha visto de tão perto aquela realidade, fez questão de não cobrar a corrida.

    Não vi mais Laura. Não pude lhe agradecer pela bermuda

    No dia seguinte fui até o viaduto onde há dois anos dezesseis famílias improvisaram um local para dormir. Era minha segunda visita. Tapumes foram usados para separar um pedacinho para cada grupo familiar. A convivência tinha regras definidas. Ali, onde viviam muitas crianças (todas matriculadas na escola) era proibido usar drogas e bater em mulher.

    Padre Júlio acompanhava o grupo há bastante tempo. Uniu o Caminhos da Rua e o projeto habitacional Fica para tirar as famílias do viaduto. Elas foram recolocadas em apartamentos próximos dali, onde teriam seis meses para começar a pagar aluguel (150 reais por mês) e um ano para o condomínio (mais 150 reais). Naquele dia de despedida do viaduto, Darlene, mãe de dois filhos, e Márcia, de oito, estavam radiantes de alegria.

    Preciso falar sobre Márcia

    Quando criança acompanhou o sofrimento da irmã, a violência e os abusos do padrasto e a incapacidade de reação da mãe. No início da adolescência, quando percebeu que seria a próxima a ser molestada naquele ambiente que não reconhecia como lar, Márcia fugiu. Passou a dormir nas calçadas e a pedir dinheiro. Não conversava com as outras pessoas em situação de rua, tinha medo. Uma noite, enquanto dormia, um homem se deitou junto dela. Ela acordou com os gritos dos outros homens que já a tinham visto por lá e naquele momento colocavam o potencial agressor para correr.

    “Percebi que eles me protegiam sem eu saber. Tem muito disso na rua”. Aos 16 anos, Márcia conheceu Judson. Estão juntos há vinte anos, com oito filhos. As crianças são apaixonadas pela mãe. Estão sempre agarradas às pernas de Márcia, mulher de voz alta, fala grossa e que sonha em ter uma casa e finalmente se casar com Judson. “Padre Júlio não sabe, mas é ele quem vai celebrar meu casamento”.

    O casal aparentava parceria e amizade de quem passou junto pelo fundo do poço. Há alguns anos, o vício em crack quase acabou com tudo. “Eu usava pra ficar fazendo faxina, você acredita? Pra esquecer um pouco que a gente tava na rua e todo dia lutava só pra ter o que comer. Judson usava mais do que eu e ficava agressivo”. Márcia dizia o tempo todo que apesar do vício nunca deixou de cuidar dos filhos. Repetia tanto isso que me fez pensar se dizia para mim ou para ela mesma.

    A resposta veio durante o caminho que percorri com Judson por duas farmácias em busca de remédios para a mãe dele recém-operada. Ele me contou que perderam a guarda de um dos filhos. Para aquela mãe, amorosa no seu jeito bruto, foi o fim. Ela parou de usar crack e obrigou Judson a parar também. Fizeram tudo o que o juiz mandou e recuperaram a guarda do filho. Imaginei a dor e a culpa que Márcia sentiu. A dor pelo afastamento do filho pequeno, por um juiz – que nunca viveu o que ela viveu – sentenciar que naquele momento ela não tinha condições de cuidar da criança. A culpa por saber que o juiz estava certo. Entendi o porquê de não ter me contado.

    Sentada no meio-fio do viaduto acompanhando as famílias guardarem em caixas os pertences que levariam para os apartamentos, pensei naquela oportunidade. Já tinha entrevistado várias vezes pessoas em situação de rua, mas nunca criei um vínculo real. Era preciso conviver com elas. Era preciso estar ali sem precisar tirar nada (nenhuma entrevista, nenhum choro emocionado). Só estar. Ouvir e observar. Sem julgar, sem oferecer solução, mexer em feridas ou dar lição de moral a partir de um lugar de conforto.

    É o que padre Júlio faz há trinta anos. Olha a sociedade a partir da ótica do mais vulnerável. Oferece pão, água, cobertor, banheiro, acolhimento. Dá bronca também. Em quem tenta passar duas vezes na fila do café da manhã ou pega cesta básica para vender no sinal. Júlio Renato também luta. Ativista, participa de entrevistas e denuncia as alucinações do prefeito de São Paulo. O padre não deixa a população de rua ser esquecida. E transforma pão e palavra em mudança social. Há dois meses foi promulgada a lei que leva seu nome e proíbe a arquitetura hostil em todo o País. Agora, batalha para criminalizar a aporofobia, o ódio aos pobres.

    *Os nomes verdadeiros das pessoas em situação de rua foram preservados.

    Publicado originalmente em Primeira Página, em 09/04/2023.

  • Subjetividade e direitos humanos: perspectivas para tensionar o jornalismo

    Subjetividade e direitos humanos: perspectivas para tensionar o jornalismo

    A subjetividade é uma categoria chave para pensar o jornalismo. Modos de perceber e sentir a realidade, padrões de comportamento, políticas, ações, posições e corporalidades podem ser entendidas e problematizadas a partir de discursos e narrativas midiáticas que permeiam nosso cotidiano de diversas maneiras. Com esse intuito, o projeto de extensão Jornalismo e Direitos Humanos (DHJor) realiza uma Mesa de Debate Subjetividade e direitos humanos: perspectivas para tensionar o jornalismo no século XXI.

  • Desmaio na TV aberta e a “destruição da família brasileira”

    Desmaio na TV aberta e a “destruição da família brasileira”

    Em 17 de fevereiro de 2020, uma mulher desmaiou ao ser informada ao vivo, no programa Cidade Alerta (Rede Record), sobre o homicídio da própria filha. Segundo uma reportagem da Folha de S.Paulo, o programa acompanhava já há alguns dias o caso do desaparecimento de uma moça de 21 anos, grávida. O advogado do ex-namorado da vítima, responsável pela revelação da morte no programa, alegou que seu cliente havia confessado o crime de feminicídio e, inclusive, já teria levado a polícia ao lugar onde havia enterrado o corpo. Surpresa trágica para a mãe, nenhuma para os produtores que, antes da revelação, alegam ter dado à entrevistada a escolha de saber ou não ao vivo o que havia ocorrido com a filha. A consequência da óbvia resposta de uma mãe que não sabia do paradeiro da filha já havia nove dias resultou no desfecho da história.

    O assunto gerou reações de indignação nas redes sociais, dirigidas principalmente ao apresentador, Luiz Bacci, acusado de levar o sensacionalismo a níveis extremos. Longe de eximi-lo de sua parcela de responsabilidade, a decisão do Cidade Alerta não deveria ser personificada, mesmo que o gênero criminal tenha se consolidado no Brasil justamente a partir da forte presença da figura do âncora. É preciso sempre reiterar que televisão é uma atividade produzida em equipe e que a responsabilidade é solidária entre diversos profissionais que permitiram a exibição da fatídica cena, e também com a direção da empresa. Por isso, houve quem voltasse o descontentamento nas redes sociais à emissora, uma concessão pública cuja finalidade deve ser “educativa e cultural, mesmo em seus aspectos informativo e recreativo”¹. Em consonância com essa segunda abordagem, parece inacreditável que a emissora não tenha emitido sequer uma nota sobre o episódio ocorrido e, especialmente, sobre as diretrizes que deveria tomar para que episódios similares jamais tornassem a ocorrer em um dos principais produtos informativos do grupo Record.

    Quem teve que justificar o injustificável nas redes sociais foi o próprio apresentador. Via Instagram, reforçou o desejo da mãe em saber, em tempo real, o que havia acontecido com a filha, bem como alegou ter aprendido com a história, embora não tenha especificado exatamente o que tirou de lição. Um trecho, todavia, chamou a atenção: “as histórias não são conduzidas pela gente, mas por Deus”. Sob a rubrica de que a TV mostra aquilo que o público quer – e agora também o que Deus deseja -, violações éticas se naturalizam dia após dia em coberturas criminais e costumam ser problematizadas, essencialmente, em situações-limite como a exposta no primeiro parágrafo. É preciso reconhecer, por um lado, o esforço de setores sociais, das universidades à sociedade civil organizada, passando pelo campo dos produtores culturais, no estabelecimento de críticas à falta de qualidade na televisão e admitir, por outro lado, que o árduo trabalho, ainda que legítimo e essencial, produza poucos efeitos práticos quando se pensa em melhorias na programação. Este texto carrega essas duas perspectivas como essência: auxiliar na denúncia do episódio e aceitar que tal argumentação nada ou muito pouco sensibilizará os produtores.

    Uma questão de família

    A primeira onda de ataque das elites intelectuais à falta de qualidade na televisão data ainda dos anos 1960, período em que nasce também uma forma de preconceito contra as classes populares: o vínculo entre popularização da televisão e a queda no nível da programação. Segundo esse estigma, as classes populares seriam aficionadas por sangue e por tragédias alheias. Essa percepção cresceu reiteradamente desde a fase de transição para a redemocratização do país. A criação do SBT, em 1981, que retomou atrações da década de 1960 que foram praticamente banidas da televisão nos anos 1970, e a implantação do Plano Real, em 1993, responsável pelo aumento do poder de compra dos brasileiros e, consequentemente, do maior acesso a aparelhos televisores pelos mais pobres, são dois momentos-chave que reforçam o argumento.

    Esse tipo de alegação é defendido por produtores e mesmo por estudiosos de televisão, ainda que haja uma incipiência no país de pesquisas que voltem as atenções de fato para o público². O incômodo com essa situação fez com que o autor do presente texto produzisse uma pesquisa de doutorado no Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com telespectadores de dois noticiários criminais paranaenses (Balanço Geral e Tribuna da Massa).

    Na segunda e última parte do estudo, foram selecionados dezoito telespectadores assíduos dos dois principais noticiários criminais veiculados no Paraná. Essas pessoas deveriam, necessariamente, habitar uma das três regiões com mais crimes exibidos durante a primeira fase da pesquisa, um monitoramento de três meses dos programas (de outubro a dezembro de 2017). Buscou-se problematizar, na etapa de recepção, como essas pessoas produziam sentidos às narrativas criminais na vida cotidiana. Em outras palavras, por que, em síntese, davam credibilidade a programas que exibiam tragédias diariamente.

    As dificuldades que o público tem para memorizar os pormenores dos fatos, algo já identificado em muitas outras pesquisas voltadas ao fenômeno da recepção de conteúdos informativos, foi ratificada. Assim, apesar de assistirem no dia a dia aos programas, essas pessoas não costumam se recordar da maioria dos fatos veiculados. A incapacidade de memorizar a notícia em si, algo que supera questões de classe social, todavia, não impediu que os respondentes produzissem sentidos a partir dos crimes midiatizados. Nesse aspecto, vários participantes citaram situações genéricas quando questionados sobre a lembrança de crimes mostrados pelos telejornais. Episódios que envolvam a instituição família (ou suas derivações, como em crimes cujas vítimas são crianças) foram citados diretamente por dois terços dos entrevistados – houve ainda menções indiretas, como feminicídios, homicídio qualificado que, na maior parte dos casos, envolve vítimas pertencentes ao núcleo de convivência do agressor. A concepção de família, embora não seja a única, articula-se como a principal instituição a ser valorizada no eixo narrativo dos noticiários.

    O vínculo com a noção de família é tão estreito nesses programas que, na pesquisa, foi identificada a presença de um tipo de fonte não usual em outras abordagens jornalísticas. São indivíduos que mesmo sem presenciar o evento criminal ou poder contribuir objetivamente para a resolução do crime foram entrevistados. São parentes ou, no mínimo, pessoas muito próximas à família, que destacam características positivas e negativas na personalidade e no convívio social de, respectivamente, vítimas e agressores. Esse tipo de fonte aparece essencialmente nos noticiários enfatizando a “destruição da família” (não qualquer família, e sim aquela representada em comerciais de margarina), algo que ajuda a ratificar o argumento de que há produtos noticiosos que corroboram o princípio de que haja uma crise de valores na família. As consequências não são animadoras e, inclusive, ajudam a entender a aceitação de discursos entusiastas sobre a liberação da posse e do porte de armas de fogo, excludente de ilicitude, entre outras iniciativas contemporâneas relativas à segurança pública.

    A percepção iminente de risco à família faz com que essas narrativas produzam sentidos relevantes para parte dos entrevistados. As citações sobre família foram marcantes nas quase vinte horas de depoimentos, independentemente da recordação de eventos de violência. Alguns exemplos: “É o pai que mata o filho, é a filha que mata a mãe, é o neto que mata a avó pra pegar dinheiro”, disse um dos entrevistados. “As pessoas entrarem nas casas para matar um, dois, três… Filho matar o pai, onde é que se viu?”, completou outro. “Pai de família morre, direitos humanos não vão lá na casa dele não, mas se um policial matar um sem-vergonha em ponta da esquina, tão lá os ‘direitos dos manos’ em cima”, avaliou um terceiro entrevistado, que usa uma expressão corriqueiramente citada pelo apresentador do Tribuna da Massa, o programa preferido na hora do almoço pelo participante.

    Mesmo os temas que, a princípio, não estariam vinculados à concepção de família, aproximaram-se dela conforme as entrevistas avançavam. Tragédias no trânsito despertam a atenção de uma das entrevistadas, que teve o filho e o ex-marido mortos em acidentes: “Como tenho problemas de acidente na família, não gosto muito de ver acidente, mas assisto”. Situações de violência contra motoristas do aplicativo de transporte Uber são citadas como as que mais comovem outra participante do estudo. Ainda que seja uma força de expressão, já que durante o monitoramento não tenha havido nenhuma notícia envolvendo motoristas do serviço como vítima, a noção dela de que crimes contra esses condutores são diários tem mais relação com o próprio dia a dia do que com a exibição. No fundo, ela assiste ao noticiário essencialmente devido à percepção de risco que o marido enfrenta durante o trabalho. Um último exemplo: a mais nova entrevistada na pesquisa, à época com 17 anos, afirma que passou a acompanhar um dos noticiários inspirada na família de uma amiga do Ensino Médio que visitava com regularidade. Ela, que garantiu pertencer a uma família desestruturada por conta do vício em álcool do pai, percebia a família da amiga unida em torno do sofá e passou a adotar o hábito. O ato em nada tinha a ver com gostar de sangue, e sim com uma idealização de família.

    Os programas criminais dialogam com a família

    Surge também, na década de 1960, uma mudança de concepção no modo de se pensar televisão, que passou a ser considerada como uma esfera de relacionamento em detrimento ao caráter formativo hegemônico na programação dos anos 1950, período em que parte da elite intelectual do país criava expectativas positivas em relação ao então novo meio de comunicação. Essa descoberta foi essencial para que a televisão conseguisse desenvolver estratégias para engajar audiência. A transformação foi causada pela compreensão de como a tecnologia deveria se conciliar à vida cotidiana do público. De um produto experimental, responsável pelo acesso à cultura erudita, a televisão passou a se vincular à vida da maior parte da população.

    Entendida como um meio para ser consumido coletivamente, a televisão criou uma lógica na qual a programação passou a ser pensada, como explica Alexandre Bergamo, “a partir da sua gradativa adaptação à ‘rotina familiar’ e, principalmente, a partir de uma divisão de ‘horários’ que buscasse uma melhor articulação entre o trabalho e o lazer”. Vista até então como uma atividade de lazer noturna, a televisão passou a se adaptar à vida cotidiana do público, algo que, até certo ponto, inverte-se nas décadas seguintes após a consolidação do meio como integrante da rotina dos brasileiros de várias classes sociais.

    Ainda que os noticiários criminais sejam alvo de constantes e merecidas críticas, é inegável o poder que esse gênero tem de criar processos de identificação, sobretudo a partir da lógica familiar. A disseminação de preconceitos e a violação de direitos humanos proliferadas por noticiários criminais, conforme aponta uma pesquisa organizada pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), foram incapazes de afetar o êxito editorial desses programas.

    Da filha de classe média alta que, com a ajuda do namorado e do irmão dele, assassina os pais aos genitores que defenestram a filha de um prédio, a noção de destruição da lógica familiar cria engajamento, logo, audiência. Por falta de identificação e por preconceitos enraizados na sociedade, crimes em regiões periféricas envolvendo negros, homossexuais e outros grupos marginalizados costumam ser ofuscados nas coberturas. Ganham notoriedade tão somente quando carregam em si algo a mais, como a deixa para transmitir ao vivo o anúncio do falecimento de uma filha à mãe.

    O contato diário com os programas criminais contribui de forma estruturante para visões de mundo nada progressistas dos entrevistados. As noções de justiça pelas próprias mãos, de apologia à violência policial e de incentivo a regimes de humilhação à população carcerária são hegemônicas dentro do grupo de entrevistados. Argumentos estruturados pelos discursos ligados à concepção de família.

    Um dos expoentes dos Estudos Culturais britânicos, Stuart Hall escreveu uma frase instigante: “O cão, no filme, pode latir, mas não consegue morder!”. Se o cão for representado por quem, com toda boa intenção, critica a televisão, infelizmente a frase é verdadeira. Caso sejam os produtores de noticiários criminais abordando a famigerada “tragédia da família brasileira” e ditando pensamentos retrógrados, a frase ganha contornos de ficção.

    ¹ Decreto nº 52.795, de 31 de outubro de 1963. Acesso em: 23 fev. 2020.
    ² Os esforços do Núcleo de Pesquisa Recepção e Cultura Midiática, coordenado pela professora Nilda Jacks na UFRGS, demonstram o baixo número de pesquisas de pós-graduação de recepção midiática no país. As investigações voltadas à recepção de produtos jornalísticos, praticamente inexistentes nos anos 1990, com duas dissertações, atingiram a marca de 54 trabalhos no período entre 2000 e 2009. Entre 2010 e 2015, o número já havia atingido 46 pesquisas (43 de mestrado e três de doutorado).

    Publicado originalmente no Observatório da Imprensa, em 26/02/2020.

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