Etiqueta: jornalismo

  • DHJor participa de livro sobre desafios do jornalismo

    DHJor participa de livro sobre desafios do jornalismo

    A Editora da Universidade Federal de Santa Catarina (Editora da UFSC) lançou nesta quinta-feira (11) o e-book Jornalismo: reflexão e inflexão (download aqui). Organizado pelos professores Rogério Christofoletti e Terezinha Silva, a obra, que integra a coleção Horizontes do Jornalismo, conta com 13 artigos assinados por renomados nomes da pesquisa em Jornalismo no país – e também por alguns autores internacionais. Três deles são assinados por integrantes do grupo DHJor – Jornalismo e Direitos Humanos.

    A obra também foi lançada no VII Media Ethics Conference, que está sendo realizada nesta semana em Coimbra, Portugal. O pesquisador Jorge Kanehide Ijuim, um dos coordenadores do DHJor, participa do evento, que se encerra nesta sexta-feira (12).

    Entre os três artigos está um trabalho produzido coletivamente pelo grupo. O texto Direitos humanos e uma visão pluriversa para decolonizar os fazeres jornalísticos, escrito em formato de ensaio, procura traçar algumas reflexões extraídas das discussões que o DHJor tem feito nos últimos anos. O foco inicial é “problematizar os limites do pensamento hegemônico que tem guiado o fazer jornalístico e, por consequência, a emergência da decolonização”. Depois disso, busca-se “tensionar aspectos da racionalidade moderna que promovem distinções e exclusões” e, por fim, propor uma reflexão interseccional, a partir de materiais premiados ou que receberam menção honrosa no 44° Prêmio Vladmir Herzog.

    “Queríamos procurar algumas boas práticas de jornalismo para demonstrar a viabilidade de uma perspectiva decolonial nas produções”, explica a doutoranda Lynara Ojeda de Souza, uma das autoras.

    Além dela, o texto é assinado por Jorge Kanehide Ijuim, Isabel Colucci Coelho, Hendryo Anderson André, Criselli Maria Montipó, Thais Araujo de Freitas, Patrícia Hadlich Aquino e Karla Gabriela Quint.

    Demais participações

    O doutorando Rafael Venuto assina, junto com a pesquisadora Flávia Guidotti, o texto “Fotojornalismo e arte: intersecções no sensível partilhado”. Já a estudante de estágio de pós-doutorado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) Magali Moser, em parceria com Samuel Pantoja Lima, assina o artigo “Por uma metodologia da reportagem investigativa”.

    Jornalismo: reflexão e inflexão

    Como o jornalismo atravessa a vida humana, é natural esperar que ele se relacione com muitos temas. Em Jornalismo: reflexão e inflexão – sob o pretexto de refletir sobre a histórica prática de informar – reuniu-se alguns desses assuntos. Por isso, ideologia e xenofobia, civilização e arte, profissionalismo e pioneirismo habitam as páginas do livro, mas não só isso. Integram o debate o jornalismo automatizado e o que oculta os nomes, o que vive plataformizado e o que se impõe na investigação, o que se encontra com seu público e o que se guia pelos direitos humanos e se realiza na ética, apesar de tudo.

    Coleção Novos Horizontes

    Voltada a pesquisadores, estudantes, jornalistas e ao público interessado nos desafios contemporâneos da atividade jornalística, a coleção Novos Horizontes, segundo a editora, procura oferecer títulos que visam contribuir crítica e reflexivamente para a renovação de teorias e práticas.

    Serviço

    Título: Jornalismo: reflexão e inflexão
    Autoria: Rogério Christofoletti e Terezinha Silva
    Download: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/255897

  • Portais brasileiros chamam de “gafe” atitude capacitista de Madonna

    Portais brasileiros chamam de “gafe” atitude capacitista de Madonna

    Durante um show em Los Angeles, na última sexta-feira (08/03), a cantora Madonna agiu de forma capacitista, ao cobrar de um cadeirante na plateia que assistisse ao espetáculo de pé. Sem perceber que se tratava de um homem com deficiência, a rainha do pop apontou para ele e questionou:

    “O que você está fazendo sentado aí?”. Ela caminha até a beira do palco, em direção ao fã, e, ao notar a cadeira de rodas, se desculpa:

    “Ah, ok. Politicamente incorreto. Desculpe. Estou feliz por você estar aqui. Oh, meu Deus”.

    O episódio, reproduzido em vídeo nas redes sociais, foi noticiado por diversos veículos brasileiros, como os portais da Folha de S.Paulo e O Globo. Ambos se referiram à atitude como uma gafe. Nenhum mencionou tratar-se de capacitismo, que é a discriminação em razão da deficiência. Neste caso, discriminação por desconsiderar a diversidade corporal, ou seja, que há diferentes possibilidades legítimas de funcionamento dos corpos. A própria artista definiu a atitude como “politicamente incorreta”. Os dois portais tampouco foram além do fato e buscaram problematizar, por meio de outras fontes, qualquer questão ligada, por exemplo, ao direito das pessoas com deficiência de acessar equipamentos culturais e participar de shows musicais.

    A doutora em Psicologia pela UFSC Karla Garcia Luiz, que também é cadeirante, destaca que, como historicamente o lugar das pessoas com deficiência é o esconderijo, a segregação, a sociedade, incluindo artistas como Madonna, não reconhece que o ambiente de um show também possa –e deva – ser ocupado por elas.

    “Como eu aprendi com a professora Geisa Böck, a sociedade deveria presumir a presença e não a ausência de pessoas com deficiência nos diversos espaços sociais. Se isso ocorresse, situações como essa seriam menos frequentes”, disse ela, que se auto identifica como mulher defiça (termo utilizado por ativistas com deficiência como um marcador da diferença positivado).

    Para a doutoranda Thais Araujo, que pesquisa representações de pessoas com deficiência no jornalismo, algumas medidas poderiam qualificar as matérias jornalísticas sobre o caso.

    “Uma delas seria, diante da dificuldade de encontrar o fã a quem Madonna se dirigiu, entrevistar pessoas com deficiência no Brasil que tenham passado por situações semelhantes. Infelizmente, não são poucas, porque a atitude de Madonna não é isolada. Não se trata de acusar ou tentar cancelar a artista, mas de perceber que, sem vigilância constante, reproduzimos valores hegemônicos desrespeitosos e desumanizadores, persistentes na sociedade. Entre esses valores está o capacitismo, que deve ser combatido”. 

    Thais Araujo, doutoranda em Jornalismo e integrante do DHJor

    Thais sugeriu, ainda, incluir no texto jornalístico o que diz a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/15) sobre o assunto. A LBI estabelece que as pessoas com deficiências têm direito à cultura e ao lazer em igualdade de oportunidades com as demais pessoas. Define também que locais de espetáculos devem reservar para elas espaços livres e assentos em locais de boa visibilidade e devidamente sinalizados, evitando áreas segregadas de público. “Incluir essas informações ajudaria a dar visibilidade mais adequada à questão e a discutir de modo mais aprofundado os desafios enfrentados por esse grupo social, que soma 18,6 milhões de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística”, acrescentou a pesquisadora.

    O portal do Los Angeles Time também se refere à situação como uma “gafe ‘politicamente incorreta’”, citando a fala da cantora, mas menciona já no título as acusações de capacitismo direcionadas a ela nas redes sociais.

    Embora o veículo não traga entrevistas sobre o episódio, incorpora à matéria críticas feitas por pessoas com deficiência nas redes sociais. Uma delas foi publicada no X (antigo Twitter) pela também cantora Lachi, que é cega e ativista pelos direitos das pessoas com deficiência. Ela desafiou Madonna a compensar o fã.

    “Madonna, você sabe o quão difícil é para nós, pessoas com deficiência, ir a esses shows, desde a compra de ingressos até olhares intrometidos? Fique mais do que feliz! Dê a esse cadeirante uma oportunidade de foto ou ALGUMA COISA, porque foi difícil”.

  • Dia da Consciência Negra: das cotas nas universidades públicas às vozes negras no jornalismo

    Dia da Consciência Negra: das cotas nas universidades públicas às vozes negras no jornalismo

    Nesta segunda-feira (20), celebramos o Dia da Consciência Negra, uma data importante para refletir sobre a história e cultura do povo negro brasileiro. É também oportunidade para se debruçar sobre questões contemporâneas que permeiam a nossa luta por dignidade, como o histórico debate que acontece dentro dos movimentos negros sobre a necessidade de fomentar equidade racial nos diversos espaços de poder.

    O combate às desigualdades no acesso ao ensino superior se tornou uma pauta importante do movimento negro pelo menos desde a década de 1970, quando ativistas e intelectuais reconheceram este ambiente como estratégico para a inclusão social. Abdias do Nascimento (1914-2011), ator, escritor, ativista e político, já reivindicava na década de 1980 (quando foi deputado federal) a existência de medidas compensatórias para a população negra após séculos de discriminação e escravização. Entre as medidas propostas por ele, estavam bolsas de estudos, reserva de vagas no ensino superior e no serviço público e incentivos às empresas privadas que garantissem a inclusão de pessoas afrodescendentes em seus quadros funcionais.

    Ações afirmativas

    Entre avanços e muitos retrocessos na discussão desta temática nos ambientes deliberativos ao longo de décadas, as cotas raciais no ensino superior foram finalmente instituídas em 2012, quando o governo brasileiro aprovou por meio da Lei nº 12.711/2012 que 50% das vagas nas universidades públicas e institutos federais fossem reservadas para a política de Ações Afirmativas [1] e, desde então, o perfil da universidade brasileira passou por uma grande modificação: pretos, pardos, indígenas e pessoas com deficiência deixaram de ser casos de excepcionalidade e passaram a tomar assento regular e progressivo nos diversos cursos de graduação.

    Essa conquista, fruto das reivindicações dos movimentos sociais, não ocorreu sem duras críticas. As cotas – e os cotistas – passaram a ser alvo de uma intensa campanha de monitoramento e avaliação minuciosas de desempenho durante toda a última década. Diversos estudos acadêmicos foram conduzidos para acompanhar a efetividade da Lei de Cotas, como ficou conhecida, e comprovaram os benefícios das Ações Afirmativas para o acesso e inclusão de estudantes de grupos historicamente sub-representados nas instituições de ensino superior. Mesmo que ainda que resistam argumentos contrários às cotas, principalmente aqueles ancorados essencialmente no mito da democracia racial e na meritocracia, as cotas possuem o mérito inegável de garantir inclusão social e equidade racial e contrariaram aqueles que advogavam que sua implementação diminuiria o rendimento acadêmico das universidades [2].

    Esta transformação não é puramente demográfica, mas está enraizada nos novos valores e visões de mundo que chegam à universidade por meio dos discentes. Pergunte a qualquer professor que esteja na ativa há pelo menos 20 anos em uma universidade pública e você comprovará que a mudança não está somente na tonalidade da pele que observam nas turmas em que lecionam, mas também nas demandas e interesses apresentados por esses estudantes.

    Ao longo da última década, a universidade enegreceu e em 2019, o número de pretos e pardos chegou a 50,3% dos estudantes matriculados nas instituições púbicas de ensino superior. O jornalismo também enegreceu com ela, ainda que essa área profissional precise avançar muito no que diz respeito a garantir uma representatividade racial quantitativa.

    Na última década, o percentual de negros (autodeclarados pretos e pardos) entre os jornalistas brasileiros que responderam à Pesquisa do Perfil do Jornalista Brasileiro saltou de 23% (em 2012) para 30% (em 2022). Esses números se mostram ainda inferiores ao registrado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 56% da população brasileira formada por negros, mas representam um avanço significativo na busca por uma maior representatividade no jornalismo (ou pelo menos entre os jornalistas). Os números demonstram que será necessário um esforço contínuo para criar ambientes inclusivos, combater a discriminação e garantir oportunidades para o desenvolvimento profissional de pessoas negras no jornalismo. A universidade enegreceu, o perfil geral dos estudantes enegreceu, mas o jornalismo ainda precisa enegrecer, particularmente no que diz respeito às vozes, perspectivas e experiências da comunidade negra.

    Precisamos de mais vozes negras, mas também precisamos evitar a “guetificação” que pode restringi-las a certos temas ou contextos específicos, que pode incorrer na cristalização de “territórios naturais” para fontes e jornalistas negros e que pode perpetuar narrativas estereotipadas. Precisamos ler, ver e ouvir mais repórteres negros, mas também precisamos de lideranças negras nos espaços de tomada de decisão nas organizações jornalísticas. O desafio é, portanto, não apenas aumentar a visibilidade da população negra, mas também assegurar que essas vozes sejam genuinamente integradas ao jornalismo, da produção de conteúdo às decisões estratégicas, e obviamente a sua superação não depende somente de uma política pública.

    A política de cotas nas universidades públicas brasileiras, que foi revisada este ano pela Lei n° 14.723/2023 e sancionada pelo presidente Lula no último dia 13, atualiza critérios que passaram a incluir também estudantes quilombolas na distribuição das chamadas “subcotas”. Ela é uma das medidas que podem ajudar que a universidade continue a enegrecer e a acompanhar a diversidade da composição populacional brasileira, com impactos positivos a longo prazo na formação profissional e acadêmica. Apesar de, isoladamente, as cotas não resolverem a complexa situação de representatividade étnica no jornalismo brasileiro, elas são parte importante deste processo, uma oportunidade fundamental para que a futura geração de jornalistas reflita a pluralidade de nossa sociedade.


    [1] Mesmo antes da implementação da Lei, algumas universidades brasileiras como a UERJ (em 2002) e UNB (em 2003) já haviam criado inciativas internas, destinando um percentual de vagas do vestibular para candidatos autodeclarados negros e para indígenas.

    [2] Neste artigo que apresentei recentemente no Congresso de Pesquisadores Negros da Região Sul, faço um apanhado de estudos que comprovam a eficácia social e acadêmica das cotas nas universidades públicas.

  • DHJor realiza Ciclo de Formação em Direitos Humanos

    DHJor realiza Ciclo de Formação em Direitos Humanos

    Com o objetivo de  sistematizar e compartilhar com estudantes as discussões teóricas e éticas desenvolvidas coletivamente pelos integrantes do DHJor, o grupo promove nos meses de outubro e novembro de 2023 o 1º Ciclo de Formação Jornalismo e Direitos Humanos. Os encontros, que começaram nesta segunda-feira (23), reúnem alunos e alunas de graduação e pós-graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e são realizados no Centro de Comunicação e Expressão (CCE), em Florianópolis. 

    As aulas são ministradas pela professora de Jornalismo da UFSC e doutora em Educação, Isabel Colucci Coelho; pelo professor do PPGJor e um dos coordenadores do DHJor, Jorge Ijuim; e por integrantes do grupo de estudos e pesquisadoras/es: Lynara Ojeda, Tatiane Queiroz, Thais Araujo, Karla Quint, Letícia Bueno e Patrícia Hadlich. O curso também conta com o apoio dos estudantes de Jornalismo Amanda Kovalczykovski e Warley Alvarenga.

    De acordo com a professora Isabel Colucci, a produção de matérias humanizadas e respeitosas depende de vários fatores, mas o grupo espera que a atividade amplie o repertório de reflexão sobre a relação entre Jornalismo e direitos humanos.

    “O DHJor vem, desde 2020, realizando reuniões, estudos de textos e entrevistas com profissionais da área sobre a temática e há um ano discute criar um curso para socializar essas discussões, que são construídas coletivamente. Por isso, a gente escolheu fazer esta primeira experiência para estabelecer um diálogo principalmente com a graduação e, quem sabe, conceber uma futura disciplina de Jornalismo e Direitos Humanos para o curso de Jornalismo”.

    Isabel Colucci, professora e integrante do DHJor

    Isabel Colucci acrescentou que a proposta é um desdobramento do projeto de pesquisa Educar Jornalistas em Direitos Humanos: desafios e possibilidades, também coordenado por ela. 

    O programa do curso inclui a trajetória histórica de construção dos direitos humanos; a perspectiva decolonial e emancipadora dos DH; temáticas transversais, como estudos de gênero, relações étnico-raciais, infância, pessoas com deficiência; e a cobertura jornalística de questões relacionadas aos direitos humanos. Ao término, os/as participantes receberão certificado de conclusão.

    Lívia Goulart, aluna da primeira fase do Jornalismo/UFSC, participou do encontro inaugural e acredita que o curso vai agregar conhecimento à trajetória que pretende construir na profissão. “A aula foi importante para eu ver que o ciclo será muito rico em conhecimento e me fez refletir que, além das chamadas pautas de direitos humanos, qualquer outra deve considerar noções de direitos humanos no processo de criação”, conta.

    Também da primeira fase, Maitê Silveira destacou as trocas teóricas e o caráter afetuoso do encontro. “As dinâmicas propostas e os diálogos estabelecidos foram muito interessantes. Os alunos e as alunas puderam contribuir muito com as discussões conduzidas pelo grupo e a teoria ficou tangível para todo mundo. Ao final, cada um e cada uma de nós ainda ganhou um abraço do professor Jorge Ijuim. Foi muito fofo”, afirma.

    Confira algumas imagens do primeiro encontro.

  • Grupo DHJor participa de congresso da Intercom

    Grupo DHJor participa de congresso da Intercom

    Integrantes do grupo de estudos e extensão DHJor – Jornalismo e Direitos Humanos participam do 46° Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom). Ao todo, serão cinco apresentações, três coordenações de mesas e o lançamento de dois e-books.

    Neste ano, o congresso da Intercom traz uma novidade. Além do encontro presencial, que ocorre entre os dias 5 e 8 de setembro, em Belo Horizonte, na Puc-Minas, pesquisadores e pesquisadoras agora também podem apresentar trabalhos em uma etapa remota, que neste ano acontece de 29 a 31 de agosto.

    Na etapa remota, o trabalho de autoria dos doutorandos do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGJor/UFSC) Marisvaldo Silva Lima e Lynara Ojeda de Souza, apresentado nesta terça-feira (29), investiga a cobertura jornalística realizada pela agência especializada em notícias Alma Preta Jornalismo sobre o desaparecimento de três meninos de Belford Roxo, em dezembro de 2020. Entre os resultados, o trabalho aponta que a cobertura jornalística da agência “aborda questões raciais e sociais, construindo visibilidade e estimulando reflexões críticas sobre racismo estrutural e desigualdades. Isso ressalta o papel importante do jornalismo na discussão e combate ao racismo”.

    Já a egressa Magali Moser, em conjunto com a pesquisadora Melina de la Barrera Ayres, apresenta um artigo que busca relata as experiências oriundas da disciplina de Jornalismo Comunitário, ofertada do curso de Jornalismo da UFSC. Como principal resultado, o trabalho, intitulado Comunicação Comunitária, práticas cidadãs e formação de jornalistas em Florianópolis, “evidencia que os aprendizados alcançados podem contribuir para a implementação de projetos e iniciativas semelhantes em outros contextos”.

    Etapa presencial

    Na etapa presencial serão três trabalhos (confira a programação abaixo). O pesquisador e coordenador do DHJor, Jorge Kanehide Ijuim, apresenta com as mestrandas Karla Gabriela Quint, Leticia Ferreira Bueno e Patrícia Hadlich Aquino o artigo Jornalismo e Direitos Humanos: Reflexões sobre/para a formação profissional. Ao partir do princípio de que há proximidades entre as percepções de jornalismo, cidadania e direitos humanos, o grupo busca observar se preceitos de dignidade humana, garantidos por documentos como a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Constituição Federal de 1988, se refletem no comportamento de profissionais e da imprensa. “Em nossas pesquisas”, observam, “os resultados parciais suscitam preocupação por conta de coberturas rasas, equivocadas, senão por vezes distorcidas”.

    Criselli Maria Montipó e Hendryo André apresentam com o professor da UFPR e pós-doutorando pelo PPGJor José Carlos Fernandes, o artigo A extensão que se faz história de vida: impressões sobre um programa chamado Ncep. A partir de um questionário aplicado a 35 ex-participantes do projeto de extensão da Universidade Federal do Paraná (UFPR) que acaba de completar 20 anos de existência, o trio observa que, apesar de algumas questões conceituais acerca das definições e escopo da extensão, há marcas relevantes da atividade de extensão na trajetória pessoal e profissional.

    Por fim, Hendryo André apresenta, no texto Mapeamento de estudos sobre desinformação publicados em revistas indexadas pelo Portal de Periódicos da Capes (2005-2022), os resultados com uma análise de 54 artigos publicados sobre o tema desinformação.

    Publicom

    O pesquisador, atualmente bolsista de pós-doutorado (PNPD/Capes) do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), participou da organização de dois e-books relacionados ao tema central do congresso do ano passado, realizado em João Pessoa (PB). O primeiro Ciências da Comunicação contra a desinformação (2023, Editora Intercom, download disponível), organizado em conjunto com Nair Prata (Ufop) e Silvio Simão de Matos (Univille), reúne textos oriundos do Ciclo de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. “O interessante é que no livro há pontos de vista convergentes, complementares e antagônicos sobre o fenômeno da desinformação observados por importantes pesquisadores e pesquisadoras que se debruçam sobre o tema”, explica Hendryo.

    Já o segundo e-book, Ciências da Comunicação contra a desinformação: olhares de jovens pesquisadores (2023, Editora Intercom, download disponível), organizado em conjunto com Nair Prata (Ufop), Silvio Simão de Matos (Univille) e Flávio Santana (Uespi) reúne as principais pesquisas apresentadas em 2022 por graduandos que participaram dos oito grupos que formam o Intercom Júnior, jornada voltada exclusivamente a estudantes de graduação.

    Programação – etapa remota

    A cobertura jornalística do desaparecimento dos meninos de Belford Roxo: violência, vulnerabilidade e a construção de visibilidade midiática
    Marisvaldo Silva Lima e Lynara Ojeda de Souza
    GP Teorias do Jornalismo | Sessão 01 – 29/08, das 11h às 13h

    Comunicação Comunitária, práticas cidadãs e formação de jornalistas em Florianópolis
    Magali Moser; Melina de la Barrera Ayres
    GP Comunicação para a Cidadania | Sessão 03 – 29/08, das 14h às 18h

    Programação – etapa presencial

    Jornalismo e Direitos Humanos: Reflexões sobre/para a formação profissional
    Jorge Kanehide Ijuim, Karla Gabriela Quint, Leticia Ferreira Bueno e Patrícia Hadlich Aquino
    GP Teorias do Jornalismo  | Sessão 06 – 07/09, das 16h às 17h30

    A extensão que se faz história de vida: impressões sobre um programa chamado Ncep
    Criselli Maria Montipó, José Carlos Fernandes e Hendryo André
    GP Comunicação e Educação  | Sessão 07 – 07/09, das 14h às 15h45

    Mapeamento de estudos sobre desinformação publicados em revistas indexadas pelo Portal de Periódicos da Capes (2005-2022)
    Hendryo André
    GP Teorias do Jornalismo  | Sessão 03 – 07/09, das 8h30 às 10h30

    DHJor

    É um projeto de extensão com o propósito de refletir e compreender as relações entre jornalismo e direitos humanos. Constituído por estudantes, egressos e docentes do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo (PPGJor) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o DHJor trata de fenômenos sociais complexos que são caros ao jornalismo em um contexto de desigualdades acentuadas e em que a cidadania e os direitos humanos estão em disputa.

  • Fabiana Moraes publica artigo em coautoria com pesquisador do DHJor em revista internacional

    Fabiana Moraes publica artigo em coautoria com pesquisador do DHJor em revista internacional

    A jornalista e professora da UFPE Fabiana Moraes e o professor da UFSC e doutor em Ciências da Comunicação (USP) Jorge Ijuim, integrante do DHJor, publicaram artigo na Revista Latinoamericana de Ciencias de la Comunicación em que problematizam o conceito de humanidade dominante no jornalismo. Conforme os autores, o humano é sempre o homem, branco e dono do maior capital. Para superar modos de dizer que desumanizam, os pesquisadores destacam a necessidade de decolonizar o jornalista, a partir de um rompimento ou no mínimo um questionamento da herança eurocêntrica. Para ler a publicação, clique aqui.

  • Anuário sobre segurança pública recebe cobertura monotemática

    Anuário sobre segurança pública recebe cobertura monotemática

    É bastante comum que textos de crítica de mídia reforcem a falta de variedade, tanto sob o ponto de vista quantitativo quanto qualitativo, de fontes de informação nos textos, bem como a ausência de dados capazes de contextualizar o fenômeno midiatizado. A divulgação do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023, na última quinta-feira (20), repercutiu na imprensa brasileira — e, potencialmente, seria um recurso capaz de ampliar, sob o viés qualitativo, o debate sobre o tema.

    Veículos das mais diversas linhas editoriais deram ênfase ao assunto e alguns recortes homogeneizaram as notícias que se detiveram à cobertura. Entre eles, a redução global do número de mortes violentas intencionais e a ampliação dos casos de violência sexual, das vítimas de armas de fogo, violência e de estelionatos via internet. Além disso, apareceram recortes mais corriqueiros: listas de municípios, estados e regiões “menos” e “mais violentas” a partir das taxas de homicídios e outros ganchos mais locais. O documento, contudo, explora diversas outras facetas que, por um ou mais motivos, foram pouco ou nada exploradas jornalisticamente.

    Para tentar entender parte deste cenário, foi realizada uma busca no Google (22/07/2023) com a palavra-chave Anuário Brasileiro de Segurança Pública (sem aspas) e, em seguida, houve a filtragem na aba notícias, restritas ao período dos últimos sete dias. Para este levantamento foram consideradas as cinco primeiras páginas de busca do Google. O número parece satisfatório, pois, de acordo com o estudo O cenário do SEO na América Latina, realizado pela agência Sherlock, de 2021, em 58% das buscas no Google, usado por 97% da população brasileira, os usuários não passam da terceira página do buscador. Além disso, foram excluídos ainda sites que, apesar da filtragem da categoria notícias, são ligados a instituições públicas, como a Casa Civil, a agências de notícias de governos (ainda que replicações de releases tenham sido consideradas), sindicatos, entre outros exemplos.

    Ao todo, foram selecionados 37 resultados, que incluem notas (textos que, independentemente do tamanho, ficaram restritos aos dados do Anuário, sem desdobrar o tema com outras fontes), notícias (materiais que, além do estudo-base, tiveram acréscimos de fontes oficiais, especializadas — inclusive, dos próprios organizadores do estudo — e personagens, mas que se detiveram ao tema central), colunas (textos opinativos periódicos que visam interpretar os dados) e até uma produção voltada diretamente para a rede social TikTok.

    A princípio, foi criada a categoria reportagens, que contemplaria iniciativas jornalísticas que buscavam desdobrar o tema em mais fontes e, além disso, que focassem em causas e consequências, na complexificação das situações e na elaboração de políticas públicas para além de medidas ostensivas. Como há intenção de acompanhar os resultados de busca pelo período de um mês da publicação do relatório, a categoria, que exige de fato maior tempo para a produção, está no radar de análise.

    Cobertura jornalística (até aqui) do Anuário Brasileiro de Segurança Pública

    Este texto trata de um primeiro recorte para entender como veículos jornalísticos bem listados no Google lidam com a extração de pautas a partir do relatório divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Há consciência de que algumas questões centrais para se produzir materiais mais elaborados, como aqueles que se voltem, por exemplo, ao trabalho de humanização desses dados, são difíceis de serem computados. Contudo, como o próprio tema tende a ser explorado e, à medida que o tempo avance, haja menos apelo de visibilidade (gancho jornalístico), a publicação do relatório passa a ser um momento chave para a incidência de bons trabalhos.

    No levantamento inicial observa-se forte divisão entre produtos jornalísticos cujos títulos puxam para ganchos locais/regionais (20 menções) e nacionais (17 menções) — há um gancho internacional, justamente no material divulgado para a rede social TikTok, um vídeo que viralizou nas redes sociais sobre roubo de celular na Itália. Já em relação à abrangência dos fatos reportados, isto é, às regiões onde a notícia reporta informações que possam interessar ao público, a divisão também permanece: há certa sobreposição de temas que aguçam a curiosidade nacionalmente — isso pode, por um lado, revelar uma questão ligada aos algoritmos do Google, o que pode demonstrar uma dificuldade para que iniciativas locais consigam ganhar visibilidade nas páginas mais importantes do buscador.

    Quando se olha para o que os sites têm reportado sobre o Anuário, outra questão bastante complexa é a falta de fontes complementares, que ajudem a ampliar a compreensão sobre o fenômeno. Um a cada quatro materiais publicados são notas que apenas replicam alguns dados do relatório — e que sequer disponibilizam o link do estudo original.

    Se as notícias ocupam metade das menções disponibilizadas nas cinco primeiras páginas do buscador, por outro lado, a variedade de fontes que vão além do relatório produzido pelo FBSP é irrisória: das 20 notícias selecionadas, metade contém apenas uma fonte complementar. Com exceção de uma dessas notícias, todas estão restritas a forças ostensivas de segurança ou, em menor número, ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, pasta comandada por Flávio Dino (PSB). Especialistas não diretamente ligados ao campo da segurança pública só ganham espaço em textos com três fontes consultadas (ainda que a prevalência da voz das instituições policiais seja regra).

    Mal listadas no ranking do Google, com apenas seis resultados, colunas, entrevistas e outros gêneros que fogem do binômio nota-notícia parecem preencher espaços que o gênero notícia não é capaz. Embora não seja regra no material lido, apenas nesses tipos de produtos informativos há espaço para olhar para o fenômeno da violência e, consequentemente, da segurança pública, por um viés interseccional, isto é, que avalie a situação e não a reduza à questão da violência em si. Ainda assim, como era de se esperar, a mera transposição de números não é suficiente para entender a complexidade do fenômeno — no único caso onde uma fonte personagem foi consultada, o relato se restringe aos pormenores da ação de violência sofrida. A ausência de ações transversais, ou seja, que superem o âmbito ostensivo de enfrentamento às formas de violência, também chama bastante a atenção nesta primeira sondagem.

    Afinal, o que foi e o que não foi explorado jornalisticamente?

    A versão recém-publicada mostrou que no ano passado, 47.508 brasileiros e brasileiras foram vítimas de mortes violentas intencionais, soma de vítimas de homicídios dolosos (quando há intenção de matar), latrocínio (roubo que resulta em morte), lesão corporal seguida de morte e intervenções policiais em serviço e fora. Embora a taxa tenha caído de 24 para 23,4 mortes violentas para cada grupo de 100 mil pessoas (uma queda de 2,4 pontos em relação ao ano anterior), a menor registrada desde 2011, o país, que detém menos de 3% da população mundial, concentra um a cada cinco homicídios cometidos no planeta.

    Organizado pelo FBSP, o Anuário pode servir como um importante recurso estatístico para veículos de imprensa tratarem a violência para além das singularidades de fatos isolados. Na atual edição, reconhecem os organizadores, há algumas limitações devido ao próprio atraso de dois anos na divulgação do Censo Demográfico, que deveria ter sido realizado em 2020. E esta é uma ausência bastante significativa quando se pensa em questões que poderiam ser exploradas jornalisticamente.

    Para ficar em um exemplo, com uma população de 203 milhões de habitantes, 10 milhões a menos do que a estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as taxas de homicídios dos últimos anos, alerta o estudo, sofrerão mudanças que só poderão ser identificadas após uma revisão do IBGE para as populações estimadas nos últimos anos. Para o ano de 2021, contudo, o próprio FBSP realizou, por meio do método de interpolação linear, uma estimativa da população. Os dados, explicam os organizadores, devem ser recalculados no próximo anuário com base no trabalho de revisão do IBGE.

    A letalidade das forças policiais, responsáveis por uma a cada cinco mortes violentas no Brasil, um indicativo de que há um estado paralelo que permite a aplicação da pena de morte, é outra ausência bastante sentida no levantamento. A questão das pessoas desaparecidas — e que poderiam, inclusive, aumentar a responsabilidade do estado no número total de mortes — também é um fato pouco trabalhado (apenas uma notícia se deteve a isso).

    Questões ligadas a racismo e a violência contra a população LGBTQI+, entre outros crimes de ódio, também tiveram repercussão mínima. Outras, mais ligadas à falta de efetividade do estado, como o esclarecimento de homicídios e à segurança privada foram completamente invisibilizadas jornalisticamente, assim como gastos com segurança pública (apenas um material, reproduzido de agência de governo, que enaltece o investimento de um estado da região centro-oeste). Quando se olha para os sistemas prisional e socioeducativo, o cenário fica ainda pior. Nenhum resquício.

    Contudo, mais que a ausência de alguns recortes está o enfrentamento às pautas por um viés mais humano. A ausência de gente comum nos relatos faz com que o jornalismo perca uma de suas principais potencialidades: o diálogo.

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